segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Entrevista com Stephen Suleyman Schwartz

O blog "Islamidades" inicia uma série de entrevistas com variados representantes do mundo muçulmano e também com estudiosos do Islã. 

Stephen Suleyman Schwartz é um jornalista americano, colunista e autor com artigos publicados em diversos jornais; The New York Times, The Wall Street Journal, Los Angeles Times, Toronto Globe etc. Ele reconhecidamente diz ser "um estudante do Sufismo desde o final da década de 1960 e um adepto da escola Hanafi do Islã desde 1997". Como diretor executivo do "Center for Islamic Pluralism", é um dos mais fortes críticos do fundamentalismo wahhabita. Seu livro "The Two Faces of Islam: The House of Sa'ud from Tradition to Terror" é uma renomada publicação a respeito do radicalismo muçulmano.

Islamidades: Em seu livro "The Two Faces of Islam" você expõe a gênese histórica do fundamentalismo islâmico. Mais do que uma práxis de terror, o que está na essência do atual fundamentalismo é a reforma radical da perspectiva muçulmana. O wahhabismo converte o anacronismo em ortodoxia e deixa como rastro a destruição de todo o legado da Civilização Islâmica. A união com a Casa Saud potencializou o pensamento de Muhammad al-Wahhab. Analisando esse cenário histórico e as suas consequências contemporâneas, ainda é possível "curar" o islamismo dessa "sífilis", usando o exemplo por você consagrado?

Schwartz: O Islã pode ser curado da sífilis do Wahhabismo. Como outras formas de radicalismo muçulmano, o Wahhabismo representa um desvio do moderado, tradicional, convencional, espiritual e até mesmo conservador Islã. Quando visto globalmente, o Wahhabismo extremo, tal como encarnado no chamado “Estado Islâmico” (“Estado Islâmico do Iraque e da Síria”), como também em outros movimentos análogos na Ásia Meridional, abrangendo a seita Deobandi e a tendência jihadista de Mawdudi, entre os árabes e turcos da Irmandade Muçulmana, e na África simbolizado pelo Boko Haram e outros, e nas fileiras xiitas entre os seguidores da doutrina “khomeinista”, é uma minoria.

Para remover a sífilis do Wahhabismo do Islã primeiro é necessário que o Reino da Arábia Saudita dissolva o monopólio teológico da seita Wahhabita, retornando ao pluralismo islâmico que havia na região antes da ascensão saudita. Além disso, é fundamental que os muçulmanos anti-radicais quebrem o seu silêncio a respeito do extremismo e entrem em ação para reafirmar a natureza moderada, tradicional, convencional, espiritual e inclusive conservadora do Islã anterior à erupção Wahhabita. Finalmente, os governos dos países de maioria muçulmana devem agir para excluir radicais de posições de autoridade nos corpos clericais que administram a fé em cada um desses países. Tendo em vista que os anti-radicais compreendem uma maioria esmagadora, pensar nessas iniciativas não é impossível. As horríveis atrocidades de ISIS e os ataques do Boko Haram podem acelerar este desenvolvimento.  

Islamidades: A assim chamada "islamização" do Ocidente, que para alguns analistas parece já estar em curso, encontra suporte em instituições muçulmanas wahhabitas. A defesa de uma "sharia paralela", reservada aos cidadãos muçulmanos, seria apenas o inicio da transformação cultural que você mesmo compara com a "marcha através das instituições", defendida por Gramsci e adotada pelas esquerdas a partir da década de 1960. Ademais, o aumento da população muçulmana e o seu consequente poder político coloca o islamismo na pauta política, principalmente na Europa. A "islamização" é uma ameaça concreta às liberdades ocidentais e um "perigo" iminente? Os muçulmanos nascidos no Ocidente já se mostram mais inclinados ao secularismo do que ao próprio discurso religioso?

Schwartz: Eu não acredito que a islamização do Ocidente, ou do Extremo Oriente, é uma possibilidade realista ou uma ameaça. A fantasia da introdução da lei islâmica no Ocidente contradiz a própria Sharia em que o consenso islâmico afirma que a lei islâmica não pode ser introduzida em países onde não há maioria muçulmana. O intento da Sharia paralela continua a ser um intento e não ganhou suporte em lugar algum, exceto entre uma franja de imigrantes da Ásia Meridional e os seus descendentes na Grã-Bretanha. Gramsci defendia a "marcha através das instituições" como alguém que faz parte da cultura italiana, não como um estrangeiro.

Eu não vejo uma expansão demográfica considerável da população muçulmana em qualquer país europeu. Taxas de natalidade de muçulmanos parecem declinar no Ocidente. Os muçulmanos nascidos no Ocidente não podem ser classificados facilmente. Alguns têm crescido com o secularismo e o aceitado; outros o elogiam como uma garantia da liberdade religiosa islâmica. Alguns se encontram divididos entre duas culturas e são atraídos para o radicalismo como uma forma de autenticidade. Alguns são social e economicamente marginalizados e participam de movimentos sociais. Mas fora do Reino Unido, as mais significativas minorias muçulmanas na Europa Ocidental - aqueles da França e da Alemanha - têm produzido movimentos e retóricas extremistas, mas pouca atividade jihadista. Tragicamente, o fracasso do Ocidente em ajudar a acabar com as atrocidades do regime Bashar Al-Assad na Síria aumentou o apelo do Islã radical entre os muçulmanos no Ocidente. Mas estou confiante de que os governos ocidentais podem responder adequadamente à ameaça interna representada por este problema.

Islamidades: Historicamente a causa Palestina esteve alinhada com as esquerdas e o secularismo. A ascensão relativamente recente do discurso religioso, encarnado no Hamas, reflete a influência de movimentos como a Irmandade Muçulmana, numa síntese entre o “salafismo” e as práxis de libertação. É possível conceber agentes políticos palestinos livres dessas duas fontes ideológicas e abertos à negociação? Até que ponto a "causa palestina" foi sequestrada de modo definitivo pelo radicalismo do Hamas, principalmente com a incapacidade do Fatah de avançar em propostas reais?

Schwartz: Eu não uso o termo salafismo para se referir ao Islã radical contemporâneo, uma vez que denota com mais precisão o movimento reformista de modernização no século XIX e início do século XX, com Muhammad Abduh, e que foi usurpado por Wahhabitas e aproveitado pelos comentaristas ocidentais que não querem chamar o Wahhabismo pelo seu nome próprio. Eu não vejo uma ligação entre o radicalismo do Hamas e da Irmandade Muçulmana com "teologia da libertação", como entendido num ambiente cristão. Atualmente a liderança palestina já está em negociação com Israel, ainda que de forma inconsistente, por causa dos recursos superiores de Telavive e da hostilidade do Egito à Irmandade Muçulmana, da qual o Hamas é o ramo palestino. Mas eu não posso prever os eventos em Israel ou na Palestina, e não tento fazê-lo. A situação é sui generis. Meu único ponto sobre isso é que basicamente é uma questão de desacordo sobre a terra e política, em que a religião é um pretexto ideológico. A paz deve vir em primeiro lugar, uma vez que tanto o judaísmo como islamismo afirma que salvar uma vida é como se tivesse salvado toda a humanidade.

Islamidades: A mística islâmica, que se tornou em alvo de sistemática perseguição desde a ascensão do wahhabismo, esteva associada, ao longo da Civilização Islâmica, com um grande vigor intelectual e humano. A riqueza estética e reflexiva surgida de suas fileiras iluminou o mundo muçulmano. Tanto o xiismo quanto o sunismo devem grande parte da sua tradição intelectual aos místicos, tais como  Rumi, al-Ghazali, Ibn Arabi, Suhrawardi, Mulla Sadra etc. Com a destruição desse legado e a expansão do anacronismo, o islamismo moderno parece ser uma opaco reflexo do que foi nos períodos de glória da Ummah. Como é possível restaurar essa tradição num cenário tão pouco simpático à mística e à reflexão? Estaria a fé islâmica fadada a ser a caricatura criada pelos radicais?

Schwartz: O legado do misticismo islâmico não foi destruído; permanece dinâmico e enérgico em inúmeros países e comunidades, ainda que esteja distorcido. Al-Ghazali é a figura dominante na teologia sunita, Ibn Arabi é amplamente lido e estudado, e Mulla Sadra produziu uma revolução no xiismo que é admirada como um ponto de referência. Eu não acho que os radicais vão prevalecer. Por outro lado, acho que é preciso ser claro sobre a história islâmica. A maior parte da chamada "Idade de Ouro árabe" foi devido à ciência persa, e o seu suposto fim com a conquista mongol de Bagdá em 1258 d.C. não acaba com as tradições da metafísica islâmica. Na verdade, parece que o Sufismo, em terras iranianas e turcas, foi revigorado como reação à destruição do califado de Bagdá. Portanto, deve referir-se a dois, se não três "Idades de Ouro" - a primeira, que foi o período das conquistas islâmicas; a segunda, que é identificada com o califado de Bagdá, e a terceira, que é a grande época do Sufismo sob o domínio Otomano, Safávida e Estados Muçulmanos indianos. Percebo a vinda de uma nova "Idade de Ouro" islâmica baseado no repúdio do radicalismo e na adaptação às condições da vida moderna - um renascimento, e não uma reforma. A religião do Islã não precisa de reforma, mas as sociedades muçulmanas devem sofrer alterações.

Islamidades: Como diretor do Center for Islamic Pluralism (CIP) você advoga a integração da comunidade islâmica americana à sociedade, mediante um respeito à liberdade religiosa e combatendo a politização e radicalização do islã. Os "muçulmanos moderados" estariam numa posição de aparente equilíbrio. Contudo, até que ponto é possível conceber um islamismo "pluralista"? A "integração" numa sociedade secularizada não seria abrir as portas da fé islâmica ao próprio secularismo e à relativização da sua jurisprudência?

Schwartz: Eu não acredito que a ideologia islamista possa ser pluralista, na medida em que rejeita o Islã do presente como um suposto retorno à ignorância pré-Muhammad ou jahiliyya. Acredito que a ideologia islamista deva ser derrotada e o domínio do moderado, tradicional, convencional, espiritual e até mesmo conservador islamismo restaurado. Os muçulmanos são ordenados a se integrar em sociedades não-muçulmanas para onde migram, aceitando as suas lei e os seus costumes. Essa foi a orientação do Profeta Muhammad, que a paz esteja com ele, aos “muhajirs” ou refugiados de Meca que foram para a Abissínia, e essa foi a conduta ordinária dos muçulmanos que emigravam para o Ocidente e para o Extremo Oriente até a ascensão do radicalismo após a Revolução Iraniana de 1979.

O Estado otomano, que foi a maior potência na história islâmica, reconheceu o direito não-religioso ou "kanun", junto com a lei religiosa. Esta última que se aplicava apenas às questões de fé. Ambas faziam parte da "Sharia". Do ponto de vista do Islã tradicional, o direito ocidental, que não proíbe o exercício da crença islâmica, também é Sharia que deve ser seguida. Se os muçulmanos não podem viver com essa conduta, eles devem retornar ao seu território.

"Integração" não implica necessariamente em "assimilação." Na maioria dos países ocidentais, "integração" significa a aceitação do direito e das instituições, não a adoção de normas culturais ocidentais. Oponho-me, por exemplo, que a juventude muçulmana no Ocidente adote essas modas como "gangster rap" e a degradação das mulheres. Vemos, no entanto, que essas formas que eu e meus colegas chamamos de "assimilação perversa" está se espalhando entre os jovens muçulmanos.

Islamidades: Para aqueles que dizem que a perseguição aos cristãos e aos judeus é parte essencial da mensagem corânica e da tradição do Profeta, como respondê-los? Algumas passagens do Quran, assim como fatos da vida de Muhammad, como a exterminação de tribos judaicas, por mais contextuais que fossem, não incrementariam a legitimidade do discurso fundamentalista?

Schwartz: Eu não acredito que a perseguição aos Povos do Livro seja uma parte essencial da mensagem do Alcorão, nem acredito em supostas tradições (hadith) do Profeta ou incidentes supostamente de sua vida que justifiquem tal atitude. Eu acredito na história, e se tais crenças eram verdadeiramente partes do Islã seria impossível explicar por que os sultões marroquino e otomano resgataram os judeus espanhóis e portugueses expulsos; ou por que há séculos existem igrejas cristãs em terras muçulmanas, enquanto não havia mesquitas (exceto, é dito, uma mesquita dos comerciantes otomanos em Veneza) em terras cristãs, ou como as comunidades cristãs sobreviveram em países muçulmanos, enquanto os muçulmanos apareceram na cristandade apenas nos dois últimos séculos, ou por que as antigas comunidades cristãs e mesmo judaicas ainda existem hoje em estados muçulmanos.

O Alcorão não é uma revelação tornando o Islã um guia, tampouco um subordinado, dos Povos do Livro. O Cristianismo definiu-se de modo muito mais radical na sua diferença ao judaísmo do que o Islã em relação a ambos os credos. O Alcorão alude às diferenças do Islã com o Judaísmo, Cristianismo e outras religiões (os sabeus e os pagãos), contudo, o judaísmo e o islamismo também têm muito em comum, o que não deve ser ignorado.

A “sira” ou biografia de Muhammad, que descreve o suposto massacre dos homens da tribo judaica de Banu Qurayzah foi escrito mais de um século depois da vida do Profeta, e seu autor, Ibn Ishaq, foi repudiado por Malik Ibn Anas, seu contemporâneo, que fundou uma das quatro escolas de jurisprudência islâmica, Malikiyya, que leva seu nome. O Alcorão refere-se brevemente (Surata 33, versículo 26), a tal incidente, mas afirma apenas que "alguns" Povos do Livro foram mortos e "alguns" mantidos em cativeiro.

A narrativa sobre o destino do Banu Qurayzah é, na minha opinião, insustentável. O resgate marroquino e otomano dos judeus ibéricos é fato inconteste. Entre as rivais "faces do Islã" as quais me referi no meu livro, tenho afirmado a importância da face “moderada” frente  à “radical”.

Islamidades: Num artigo você chama o Ayatollah Sistani de "O Bom Ayatollah", comparando sua visão com o radicalismo wahhabita e destacando a sua importância como uma voz mais sensata dentro do xiismo. No atual contexto, Sistani já se pronunciou em defesa da unidade do Iraque e suas atitudes, como a proximidade com o Patriarca Caldeu, são eloquentes. Até que ponto o Ayatollah Sistani surge como a mais importante autoridade "moderada" do islamismo xiita e qual a sua importância na desconstrução do paradigma político do "Vilayat-e Faqih" criado por Khomeini e consolidado na República Islâmica do Irã?

Schwartz: O Ayatollah Ali Sistani tem representado de forma consistente uma visão xiita moderada e, mais importante, um repúdio à ideologia iraniana de "Vilayet-e Faqih" ou governo do jurisprudente. Ele era uma fonte de esperança para muitos de nós que acreditavam que o xiismo iraquiano árabe iria se apresentar como uma forte alternativa à ditadura clerical iraniana. Infelizmente, parece que ainda que ele continue sendo o “marja” (autoridade religiosa) para os xiitas iraquianos, foi marginalizado pelos defensores iranianos no Iraque. Neste contexto, é importante reconhecer e defender Sistani, mas temo que o projeto de um xiismo árabe iraquiano não contaminado pela ideologia iraniana está falhando.

1 comentários:

AJBF disse...

Excelente entrevista! Lembrando que ela está disponível em inglês aqui: http://www.islamicpluralism.org/2403/curing-wahhabism-the-syphilis-of-islam

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