sábado, 23 de agosto de 2014

A Virgem Maria no Islã


Por Giancarlo Finazzo 

Traduzido por "Islamidades"

Entre as pessoas da História Sagrada mencionadas no Alcorão, a Virgem Maria ocupa uma posição importante no plano histórico e dogmático. Além de ser o objeto de cerca de trinta e quatro referências diretas ou indiretas, Maria também dá à Sura XIX o seu nome e é a figura central como a mãe de Jesus. A nota característica  das referências à Virgem no Corão e, ainda em maior medida, na tradição islâmica, pode ser vista tanto nas informações sobre sua genealogia como sobre a sua infância, uma parte que é, inclusive, mais detalhada do que nos quatro Evangelhos- e numa linguagem e numa forma de narração que são vistas como particularmente significativas. Sem entrar profundamente na questão da validade das informações, na vasta exegese islâmica ou na "mariologia" que se originou, vamos aqui nos limitar a lembrar que as fontes da tradição muçulmana são, neste contexto, o Evangelho árabe da Infância, o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho do Pseudo-Mateus, as tradições dos cristãos judaizantes e o Hadith. 

Para confirmar o extraordinário valor da pessoa de Maria já é suficiente lembrar que a ela, única entre as criaturas, e ao seu Filho, é atribuída uma natureza isenta de todo pecado. Sabemos que a religião islâmica ignora o conceito de pecado original. Entretanto, atribui ao homem uma defectibilidade natural que o torna impuro e imperfeito desde o nascimento. No entanto, em um famoso Hadith atribuído ao Profeta, afirma-se que: "Toda criança é tocada pelo diabo logo que nasce e esse contato a faz chorar. Excetuam-se Maria e seu Filho”. A partir deste Hadith e dos versos 35-37 da Sura III, os comentaristas muçulmanos deduziram e afirmaram o princípio da pureza original de Maria. Deus, de fato, de acordo com o texto do Alcorão, concedeu a Ana o desejo de que consagrasse Maria a Ele, prestes a nascer, e Aquele a quem ela daria à luz (III, 37). Deus predestinou Maria e a purificou, a exaltando acima de todas as mulheres (III, 45).  

Após esta premissa não é de se estranhar que o dogma da Imaculada Conceição, embora apenas implicitamente contido nos versos III, 31, 37, está inequivocamente reconhecido pela religião islâmica. O reconhecimento surge sem dificuldade também da avaliação repetida e sempre unânime da pessoa extraordinária de Maria e de sua vida pura (III, 42; XXI, 91; LXVI, 12), que a colocou, com o seu Filho, acima de todos os outros seres criados. 

A infância de Maria, como pode ser visto através da narração do Corão e da tradição islâmica, é inteiramente um milagre. Maria cresce sob a direta proteção divina, ela é alimentada diariamente por anjos (III, 32) e tem visões de Deus todos os dias. Tudo contribui para que ela e seu filho sejam um signum para a humanidade (V, 79, XXI, 91, XXIII, 50). Mas, se a narração detalhada da infância de Maria confirma o valor excepcional da sua pessoa, é necessário ressaltar que a sua grandeza está completamente relacionada ao evento extraordinário constituído pelo nascimento de seu filho Jesus. As terríveis e doces vicissitudes que antecedem e acompanham o nascimento e a infância daquela a quem Deus escolheu acima de todas as mulheres são, na verdade, nada mais que o prelúdio da vinda do Messias (III, 40). Portanto, nas intenções de Maomé e de toda a tradição islâmica, o advento do homem gerado pela Palavra (III, 45) encontra na história da pequena Maria o misterioso fato precedente que prepara o crente, até mais do que os próprios Evangelhos fazem, para uma expectativa cheia de temor e esperança. 

Esta atmosfera, tão carregada de anseio e admiração, certamente não desaparecerá no momento da anunciação, um evento que para Maria é o maior e mais misterioso em sua vida terrena, e que revela a ela, finalmente, a importância de sua função na história dos homens. O Alcorão não indica o local em que este mistério foi realizado (XIX, 16). Entretanto, afirma (III, 42 FF: XIX, 17) que Deus enviou seu Espírito sob a aparência de um jovem e bonito homem, que, à semelhança do que é narrado no Evangelho do Pseudo Mateus, era o Arcanjo Gabriel, muitas vezes identificado nos tempos antigos com o Espírito da verdade ou com o divino Espírito (ruh ul-amin e ruh Allah, XVI, 102; XIX, 17; XXVI, 193). Deve ser salientado que na versão do Alcorão Maria não pronuncia o fiat que expressa sua aceitação responsável da vontade divina. Aqui ela simplesmente pergunta: "Como posso dar à luz a um filho, se nenhum homem me tocou?", Recebendo a resposta: Assim será, porque teu Senhor disse: Isso Me é fácil! E faremos disso um sinal para os homens, e será uma prova de Nossa misericórdia. E foi uma ordem inexorável."(III, 147, XIX, 21). Esta versão confirma o sentido tipicamente islâmico da autoridade absoluta e do poder de Deus, a completa submissão do homem à sua vontade. 

O Alcorão, em seguida, narra que Maria, sentindo a chegada do momento em que daria à luz, retirou-se para um lugar solitário no Oriente. Exegetas islâmicos não são unânimes em reconhecer Belém como o local do nascimento do Messias, nem parecem ter dado grande importância à questão. O foco, pelo contrário, fica sobre o episódio de Maria, que, cansada e triste, invoca a morte (XIX, 22-26). O Espírito da Verdade responde uma vez mais, trazendo-lhe o conforto espiritual e material. Aqui, de fato, é inserida a maravilhosa e bem conhecida história da Virgem que sacia sua sede com a água de um córrego que, de repente, jorra sob os seus pés, e que se alimenta das tâmaras de uma palmeira. 

O Alcorão não dá detalhes sobre o nascimento de Jesus. Imediatamente já fala de Maria que, voltando para o seu povo e mostrando-lhes a Criança, torna-se objeto de terríveis calúnias. O episódio breve, mas dramático, de repente é resolvido quando a criança, falando de forma inesperada desde o berço, toma a defesa de sua mãe e a livra de toda a culpa (XIX, 30-33). Este milagre, para o qual o Alcorão refere-se mais de uma vez (por exemplo, III, 46; V, 113), está entre aqueles que causaram maior impressão sobre a imaginação dos crentes muçulmanos e que ainda se encontra vivo em suas consciências. O episódio, no entanto, tem também uma importância querigmática para a teologia islâmica, já que o fato da criança falar do berço é uma violação das leis naturais e, portanto, testemunha a grandeza do Espírito que está nele. 

O Alcorão não nos dá qualquer informação sobre a vida da Virgem, enquanto a tradição recorda as diversas e, em partes, conflitantes versões dos últimos anos de sua existência terrena e da sua ascensão ao céu. Mas nem o Alcorão nem tradição islâmica tratam da história do Transitus Mariae. 

Maomé defendia a virgindade de Maria 

Aqueles que não conhecem a religião islâmica podem se surpreender ao saber que Maomé defendia a virgindade de Maria, ou que ele a reconhecia como a mulher escolhida por Deus para uma função que seria única na história. O compromisso de Maomé em defendê-la e em exaltá-la também explica a sua dura condenação aos judeus (por exemplo, V, 156), culpados de persistir na calúnia e na recusa de admitir o papel único de Maria. É necessário esclarecer, porém, que, também para Maomé, é inimaginável dissocia-la do seu Filho: a eleição divina e a pureza da Mãe são diretamente proporcionais às qualidades do Filho. Esta interdependência é, portanto, muito sentida uma vez que a grandeza histórica de Maria está condicionada no seu Filho, e o Filho, por sua vez, depende de sua Mãe, que constitui a promessa indispensável para a sua presença na terra. No Corão, Cristo é chamado repetidamente Issa ibn Maryam, "Jesus, filho de Maria" (V, 19, 75, 81, 113; XIX, 34), um nome que se tornará, talvez, o nome mais conhecido no mundo islâmico e que também será o que mais caracteriza a figura de Cristo.  Essa correlação, que levou o pensamento religioso islâmico a afirmar a indissolubilidade do duplo conceito Maria-Jesus e a basear a sua refutação da doutrina cristã sobre isso, parece ter a sua fundação no princípio da necessidade. A negação da divindade de Cristo encontra a sua razão de fato precisamente na natureza humana de Maria, isto é, na relação genética que, implicando a transmissão de propriedades, excluiria um salto qualitativo a partir de Mãe para Filho. 

Essa concepção, na qual também é inerente a idéia da primazia da linha feminina ao longo da linha masculina (na narração da vida de Maria no Alcorão, a pessoa de Zacarias, tio da Virgem e seu guardião, é frustrada pela constante presença do anjo do Senhor. A figura de José também é completamente ignorada), deve-se, em nossa opinião, mais do que à influência dos apócrifos, à uma forma antiga de sentimento que é característico dos semitas da Arábia. É um modo de sentir que também está vivo em Maomé e que leva a operações mentais do tipo analógico, a um pensamento menos voltado para a especulação do que para a busca de paralelismos, com a concordância de diversos elementos, mas congruentes e, portanto, a visão de uma realidade firme, porque se baseia na perfeição e, portanto, em relações imutáveis que parecem excluir a possibilidade de evolução gradual. O que Maomé e seus comentaristas não conseguiram entender intelectualmente é a ideia de que a presença de Deus pode acontecer de maneiras diferentes, percebendo-se como uma presença circunstancial e determinada, sem que por este motivo haja qualquer alternância no próprio Deus. Esta presença, além disso, pode ter o caráter de uma manifestação gradual e crescente, e pode marcar um novo efeito temporal, no momento em que Deus cria uma nova relação com suas criaturas. Para a teologia islâmica a compreensão desse conceito deve ser profundamente difícil, até quase incompreensível quando se lembra que o próprio Maomé, além de afirmar com incomum contundência a onipotência de Deus, também percebia um certo desenvolvimento da manifestação do próprio Deus através de seus "mensageiros" , reconhecendo Moisés e particularmente Jesus e ele próprio, como tendo um papel que, embora não seja bem definido, teoricamente, parece ser superior ao dos outros profetas. 

Neste caso, menção também deve ser feita, por uma questão de equidade, às dificuldades doutrinárias relacionadas com o ambiente arábico social e religioso nos séculos VI e VII, que Maomé teve de lidar e com o qual e pelo qual ele foi condicionado e não num pequeno grau. Além disso, a figura histórica de Maria trouxe problemas para ele.  No final do século alguns cristãos da Arábia havia introduzido o culto mariano, que, na época de Maomé, já tinha se degenerado em culto da Virgem como a terceira pessoa da Santíssima Trindade. A inevitável desaprovação e condenação pelo profeta do Islã, portanto, envolveu a pessoa histórica de Maria em novas polêmicas.

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