segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A metafísica de Mulla Sadra

Mulla Sadra (1572 – 1640) foi um dos maiores nomes da filosofia islâmica e da grande tradição persa. O seu trabalho integra o Renascimento Iraniano, como foi chamado o período no séc. XVII de forte florescimento cultural. Para alguns, Mulla Sadra pode ser considerado o maior pensador islâmico dos últimos séculos A filosofia que desenvolveu, numa síntese entre Avicena, Suhrawardi, Ibn Arabi, Aristóteles e os 12 Imames do islamismo xiita, inaugurou o existencialismo ontológico no espectro do pensamento muçulmano.

Para Mulla Sadra, o filósofo é a testemunha do real, restaurando para Deus a fonte da Sua presença na realidade, vivendo uma autêntica “shahada”. Isto só é possível porque Deus testifica a Si mesmo em todas as suas manifestações, o existente enquanto processão da Sua Luz e do Seu infinito ato de ser. A metafísica, portanto, tem um papel libertador, em imitação à liberdade divina. Esta liberdade é inscrita na natureza mesma da inteligência do homem, diretamente vinculada com Deus, expressando a criativa espontaneidade do imperativo divino: inteligir é libertar-se de todos os grilhões mortais, livrando-se da opressão da matéria e das paixões.

A sabedoria (“hikmah”) é revelação, ou seja, o desvelar da realidade das coisas através do exercício da inteligência. Também é revelação no sentido em que Deus mesmo, em Seu Ser, manifesta-Se na sabedoria humana, tornando possível as epifanias, na contemplação da realidade, da beleza dos Seus mais belos nomes. Ademais, aqui entra um outro aspecto fundamental do pensamento de Mulla Sadra: a sabedoria é revelação já que abre ao homem o caminho do autoconhecimento, que o desperta do esquecimento e o permite realizar a sua vocação essencial, a contemplação. Se a sabedoria, portanto, é transfiguração do sujeito através da atualização das suas maiores potencialidades, então, como afirma Christian Jambet, a sabedoria é o tornar angélico dos homens.

“Aquele que conhece a si mesmo, conheceu ao Seu Senhor”, disse o Profeta Muhammad. Avicena, baseado nesse hadith, dirá que o desvelar do eu é a experiência da existência, justificando a noção de que o conhecimento de si reflete o conhecimento do Ser. Para Sadra, esse conhecimento é uma espécie de exegese do eu que conduz a uma maior proximidade com Deus, através da descoberta da própria natureza espiritual: uma “palavra luminosa” – kalimah nuriyah - , uma “essência espiritual” – dhat ruhaniyah –, uma “chama do Malakut” – shu’lah malakutiyah. A alma é “palavra” na qual a Divina Palavra se expressa, e nessa sua essência espiritual, na concepção de Mulla Sadra, encontra a sua natureza angélica. Destarte, a vocação da metafísica é iluminar a alma para que caminhe no progresso da perfeição, reconciliando-se com a sua verdadeira natureza e verdadeiro fim. Contudo, essa “iluminação” não é irracional, um simples fluxo do mistério, mas, isto sim, é a síntese da atitude mística com o conhecimento inteligível.

"Ele foi Quem estabeleceu as duas massas de água; uma é doce e saborosa, e a outra é salgada e amarga, e estabeleceu entre ambas uma linha divisória e uma barreira intransponível” (Corão 25: 53). De acordo com a leitura dada pela mística islâmica, esse trecho se refere à dualidade entre a vida terrena e a vida celeste. Para Sadra, ainda na mesma linha, o intelecto material é o limite que separa a água “amarga”, a natureza material, da água saborosa, o outro mundo. Nos dizeres de Christian Jambet “o homem é microcosmo que recapitula o macrocosmo”, sendo a “barreira” a sua inteligência material. A metafísica é portanto a descoberta de uma ordem – a ordem da criação. Esta ordem inteligível é atualizada na mente humana, pela qual se assemelha ao Criador. Deste modo, além de ser uma reflexão sobre a ordem, a metafísica, no pensamento de Mulla Sadra, é o caminho para a imitação – tashabbuh - de Deus, o que de certa forma lembra o caminho da mística em Edith Stein. 

A metafísica de Mulla Sadra está totalmente centrada no existente enquanto tal, fiel à herança de Aristóteles e Avicena. Para o pensador iraniano, o conhecimento do existente é a cognição da sua realidade (haqiqah), do seu ato de ser (wujud). Com o termo “al-haqiqah”, Sadra se refere à realidade do existente, já que o existente existe na realidade e pela realidade. De certo modo, essa sua concepção se assemelha à idéia de essência da coisa. Contudo, no pensamento de Mulla Sadra, a realidade essencial deriva da divina essência, que é o real por excelência, a constituição e o constitutivo de todo o existente. Destarte, conhecer a essência significa conhecer o seu fundamento em Deus, na qual a coisa encontra a sua realidade. Nesse ponto é interessante perceber a semelhança com o “realismo radical” de Xavier Zubiri: Deus como a realitas fundamentalis da realidade das coisas reais.

Assim, o ponto de partida da ontologia é o conhecimento do existente e o seu destino e fundamento em Deus, que já é o sujeito da teologia. O pensamento de Mulla Sadra, portanto, sintetiza, em grande medida, a herança metafísica da tradição islâmica, somada a outras influências, em especial à reflexão espiritual dos 12 imames do xiismo e ao rico conteúdo místico que deles provêm. Mulla Sadra desenvolve essa ontologia centrada na “luz do ser” e na gradual perfeição do homem através da sabedoria, num processo “revolucionário” de ensimesmamento que conduz ao centro, ao Ser mais íntimo que o próprio ser do homem. 

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