terça-feira, 29 de julho de 2014

O sionismo revisionista e a tomada da Palestina

Poster do Irgun, antecessor ideológico do Likud, defendendo a criação de Israel em todo o território da Palestina e da Jordânia.
Poster do Irgun, antecessor ideológico do Likud, defendendo a criação
de Israel em todo o território da Palestina e da Jordânia
O sionismo revisionista sempre foi um dos maiores obstáculos para a solução do conflito entre Israel e a Palestina. Em suas origens está contida uma forte oposição à presença árabe na região e a defesa da soberania sobre um imenso território. O que começou com um grupo paramilitar, o Irgun, responsável por ataques em povoados palestinos e em quartéis ingleses, tornou-se no maior partido israelense, o Likud. O contexto histórico obrigou a reformulação de alguns axiomas ideológicos, como a defesa da incorporação da Jordânia às fronteiras de Israel. Contudo, ainda hoje é possível ver marcas características do sionismo revisionista, como o estabelecimento de assentamentos judaicos na Cisjordânia e o sistemático assalto da Jerusalém Oriental.

O sionismo revisionista, criado por Ze'ev Jabotinsky (1880 – 1940), surgiu como uma resposta ao sionismo socialista que controlava, em grande medida, a Organização Sionista Mundial. Seguindo os passos de Theodor Herzl (1860 – 1904), fundador do sionismo moderno, Jabotinsky  adotava uma forte posição nacionalista e conservadora, ainda que avesso ao discurso religioso.  As duas bandeiras ideológicas que imperavam no movimento pela criação de Israel eram caracterizados pelo seu radical secularismo e adesão ao ateísmo judaico. Contudo, o sionismo revisionista se diferenciava pela sua intransigência étnica e pelos seus arroubos geográficos.

O “maximalismo territorial” era a marca mais distintiva da ideologia criada por Jabotinsky. A “Eretz Yisrael” deveria abarcar todos os seus limites históricos. Consequentemente isto refletia em dois ativismos: a não aceitação da criação do Estado palestino e a defesa da incorporação da Transjordânia (atual Jordânia) às fronteiras israelenses. Após a implosão do Império Otomano, Faiçal, filho de Hussein bin Ali, líder da Grande Revolta Árabe e criador do Reino do Hijaz em 1916, proclamou-se rei da Grande Síria. Com a sua derrota diante dos franceses, quatro meses depois da sua coroação, todo o território foi tomado pelas potências europeias. Como parte da Conferência do Cairo, em 1921, foi-se acordada a criação do Reino do Iraque, governado por Faiçal, e do Emirato da Transjordânia, governado Abdullah, seu irmão. A nova realidade política regional afetou severamente as pretensões do sionismo revisionista.

Dentro do processo de mudanças de posições, destaca-se o enfraquecimento da defesa  de um Israel “dos dois lados da margem do Jordão”. Com o reconhecimento da legitimidade do Reino Hachemita da Jordânia, na década de 70, e com o acordo de paz assinado com o Rei Hussein I, em 1994, apoiado pelo Likud, se sepultava definitivamente as pretensões expansionistas do sionismo revisionista. Contudo, no que se referia à integridade dos limites da Israel atual, com a tomada da Cisjordânia e da Faixa de Gaza na guerra de 1967, o sionismo revisionista concentrou todas as suas aspirações ideológicas.  Menachem Begin, sexto Primeiro-Ministro de Israel e fundador do Likud, afirmava que estes territórios faziam parte do “patrimônio eterno dos [seus] ancestrais” e que nunca “deixaria nenhuma parte da Judeia, da Samaria ou da Faixa de Gaza”. Como parte desta política, iniciou-se a criação de assentamentos judaicos nas regiões ocupadas.

O Likud, maior partido israelense e que compôs a maioria dos governos desde 1977, surge, na década de 70, através da união de diversas frentes do sionismo revisionista. Tinha, contudo, como grande base ideológica o Herut, partido político criado em 1948 e sucessor do Irgun. A "Organização Militar Nacional na Terra de Israel" (Irgun) nasceu como um braço armado para o exercício de força. Com ataques aos povoados palestinos e aos sinais da presença inglesa, buscava pressionar as potências europeias pela criação do Estado de Israel.  Com a sua transformação histórica, chegando até o atual Likud, mudanças ideológicas naturalmente ocorreram. Todavia, se levamos em consideração a sua política de assentamentos, ainda mais quando comparada com o Partido Trabalhista, é notório como as pretensões sobre o domínio de toda a “Eretz Yisrael” se mantêm impávidas.

Em ambos os lados existem discursos de ódio que só incrementam a onda de violência. Contudo, enquanto o fundamentalismo islâmico é explicitamente radical e facilmente condenável, o sionismo revisionista se esconde por detrás de uma retórica democrática. Desde o êxodo forçado de palestinos, deixando suas casas, vilas e cidades para os judeus que chegavam da Europa, até a criação de assentamentos nos territórios ocupados, o que existe é uma sistemática tomada do espaço vital da Palestina. Grande parte da população atual de Gaza e da Cisjordânia é composta de refugiados que perderem seus lares e agora estão privados de direitos básicos, como a mobilidade. Para que o diálogo avance e a paz se torne mais concreta no futuro, é necessário abrir mão de posições ideológicas e fundamentalistas, seja o terrorismo islâmico com os seus homens bombas ou o sionismo revisionista com os seus homens de terno.

1 comentários:

Anônimo disse...

Achei sem sentido a sua comparação entre o radicalismo islâmico e o nacionalismo judaico representado por Jabotinsky. O texto ignora as intenções genocidas do movimento "nacionalista" dos árabes da Palestina e o iguala a um movimento legítimo que buscava autodeterminação em uma parte de sua terra histórica. Você ignora tanto a população judaica nativa da região quanto a imigração árabe e transforma o assunto em uma falsa dicotomia entre os colonos judeus da europa x árabes nativos. E omite a bem documentada responsabilidade dos líderes árabes no êxodo árabe (como mostra Efraim Karsh e como os próprios refugiados reconhecem), além da consideravel quantidade que saiu por conta própria.

Vamos ao que escreveu Jabotinsky:
“I consider it utterly impossible to eject the Arabs from Palestine [...] There will always be two nations in Palestine — which is good enough for me, provided the Jews become the majority.”

"There can be no voluntary agreement between ourselves and the Palestinian Arabs [...] It is utterly impossible to obtain the voluntary consent of the Palestine Arabs for converting “Palestine” from an Arab country into a country with a Jewish majority [...] Zionist colonization must either stop, or else proceed regardless of the native population. Which means that it can proceed and develop only under the protection of a power that is independent of the native population — behind an iron wall, which the native population cannot breach."

Seu argumento básico era que os árabes não concordariam com um estado judaico na região, não importando seu tamanho, fronteiras ou localização - uma verdade inquestionável. Mesmo assim ele aceitava como um fato a presença árabe no futuro estado, desde que ela não fosse um risco para a sua existência.

Como contraponto eu trago as afirmações daquele que pode ser considerado o primeiro líder do "nacionalismo" árabe-palestino, Haj Amin al-Husseini:

"Nossa condição fundamental para a cooperação com a Alemanha foi um passe livre para erradicar todos os judeus da Palestina e do mundo árabe".

"Eu pedi a Hitler um compromisso explícito que nos permitisse resolver o 'problema judeu' de maneira condizente com as nossas aspirações nacionais e raciais, e de acordo com os métodos científicos criados pela Alemanha na manipulação de seus judeus. A resposta que obtive foi: 'Os judeus são seus"."

Não há comparação.
Isso sem falar que até meados dos anos 60 a causa palestina era, na verdade, a luta pela formação da Grande Síria. A criação de um nacionalismo árabe-palestino foi apenas uma forma de se opor ao sionismo - como Zuhair Muhsen deixou claro. Até hoje os líderes palestinos dizem o mesmo. Ano passado Mahmoud Abbas declarou que palestinos e jordanianos sãão um só povo...

Está faltando também a bem documentada rejeição do direito a existência de Israel por parte da moderada Autoridade Palestina
http://youtu.be/uyhpvA_3J3M?list=UUE2iKjcEvlIH4bZ_oK5pT9Q
http://youtu.be/xs_OqiKhdCs?list=UUE2iKjcEvlIH4bZ_oK5pT9Q
http://youtu.be/nEcyUBdU-Vo

Sejamos honestos e vamos tratar a Palestina como ela realmente é: Israel E Jordânia. Isso não é revisionismo, é apenas um fato. Outro fato é que o termo ocupação quando usado para se referir a Cisjordânia é extremamente controverso e que os assentamentos judaicos no local são tão legais quanto os assentamentos árabes.
http://israelmitosfatos.blogspot.com.br/2011/02/assentamentos-judaicos-sao-ilegais-e.html

A verdade é que tanto o Likud quanto a Autoridade Palestina e o Fatah aceitaram publicamente o direito a existência do lado oposto, mas fazem o possivel para conseguir o oposto.

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