terça-feira, 29 de julho de 2014

O incrível poder da Ummah

kaabaSempre que eclode conflitos no Oriente Médio a comunidade internacional se surpreende com a comoção gerada em toda as nações islâmicas pelo mundo. Esse efeito emocional quase automático é consequência do incrível poder da Ummah, isto é, da comunhão prática dos muçulmanos mediante uma fraternidade que transcende os limites territoriais. Tão grande novidade trazida por Muhammad numa península arábica violentamente dividida em tribos, possibilitou a coesão dos fiéis da nova crença fazendo com que pouco tempo após a sua morte uma grande parte do mundo conhecido estivesse sob o poder dos minaretes.

Muhammad sabia que para a sobrevivência da sua fé era necessária a profunda mudança de mentalidade por parte dos árabes convertidos. A primeira Ummah que se consolidou em Medina foi marcadamente simbolizada pelo espírito de paz e comunhão. Entretanto, após a morte de Maomé e com o fim do califado dos rashidun, isto é, quando este fora guiado pelos quatros companheiros de Muhammad, Abu Bakr, Umar ibn al-Khattab, Uthman ibn Affan e, por fim, o grande Ali ibn Abi Talib, iniciou-se um período de expansão ainda mais amplo com os omíadas. Durante essa etapa as conversões ao islamismo eram desencorajadas entre os dhimmis - os judeus e cristãos que viviam no território islâmico - e os muçulmanos viviam em cidades quase inteiramente cristãs, como Jerusalém. As conversões, quando ocorriam, ainda tinham um forte caráter étnico. Havia, de certa forma, uma confusão entre islamismo e arabismo. Os neo-convertidos eram, portanto, associados a alguma tribo árabe acarretando que fossem, quase naturalmente, ainda vistos como cidadãos de segunda classe. A discussão terminou com o fim do regime omíada e a ascensão dos abássidas que levavam com ele todas os clamores dos muçulmanos xiitas contra o regime dos descendentes de Abu Sufyan.

No mundo recente a Ummah foi fundamental para a proteção do mundo islâmico quando da chegada das nações europeias. Os ingleses enfrentaram duras dificuldades na sua tentativa de tomar a Índia e o Irã. Os seus esforços se chocavam com a força da comunidade muçulmana que se unia contra os invasores. Os britânicos buscaram minar a comunhão através da fé, com o financiamento de dois movimentos reformistas, como o bahaísmo e ahmadiyya. Mirza Ghulam Ahmad e Mirza Husayn Ali tentaram instaurar crenças que desconstruiriam a capacidade da Ummah de se unir contra os kuffar, os incrédulos, mas foram incrivelmente ineficientes. Na península arábica os ingleses também custearam outro movimento reformista. A doutrina de Muhammad ibn Abd al Wahhab foi rapidamente taxada pelos mais eruditos jurisprudentes islâmicos como herética. A sua novidade estava no seu afã de purificar o islamismo de versões corrompidas: o muçulmano poderia sim emitir um takfir, um julgamento sobre a fé do outro. Esse tipo de comportamento atacava o cerne da Ummah, da comunhão entre os fiéis. Se era permitido dizer quem era bom ou mau muçulmano, a comunidade islâmica corria o risco de entrar em profunda crise. Ademais, para Muhammad al Wahhab os turcos, senhores do Oriente Médio e de Meca e Medina, eram exemplos máximos da degeneração do islamismo. Assim, era fundamental que os bons muçulmanos se levantassem contra os otomanos. Quão feliz foi para a Inglaterra essa novidade. Da junção de Wahhab com a família Saud, que na época era salteadora de caravanas, surgiu a moderna Arábia Saudita.

A Ummah, entretanto, ainda hoje mostra o seu poder e eficiência. Para o muçulmano de fé a agressão à comunidade islâmica é proporcional aos sacrilégios eucarísticos para o católico. Esse senso de pertença protegeu o islamismo ainda na época de Maomé e foi o fator de unificação das tribos árabes. Através desse processo a crença de Muhammad se expandiu e conquistou a Ásia, a África e chegou até a Espanha e no ápice do Império Turco-Otomano em terras austríacas. A Ummah foi historicamente fundamental e até hoje é o que possibilita aos muçulmanos se unirem quase automaticamente quando uma parte dessa grande comunidade é agredida.

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