terça-feira, 29 de julho de 2014

Israel X Palestina: choque de fundamentalismos

palestina-israel
O conflito entre Israel e a Palestina é difícil de ser compreendido. Grande parte da dificuldade é reflexo da leitura simplista feita por muitos dos seus analistas. O discurso pró-Israel ou pró-Palestina apenas atrapalha o real entendimento dos fatos. As motivações ideológicas colocam um variante emocional na defesa das suas respectivas causas. Liberais e conservadores estão alinhados na defesa radical do estado israelense. Religiosos, socialistas e tradicionalistas, numa combinação assustadora, dão as mãos na defesa da causa palestina. Contudo, ocultos sob uma torrente de argumentos se encontra o sofrimento real de pessoas reais.

A existência do Estado de Israel é um fato óbvio e ululante. A defesa da sua destruição, seja pelo Hamas ou pela Irmandade Muçulmana, é um completo retrocesso e um atraso aos tratados de paz. Contudo, reconhecer a legalidade da sua existência não é negar os métodos cruéis usados na tomada das cidades e vilas palestinas. O êxodo forçado, gerado pela expulsão dos árabes que habitavam a região há séculos, tinha como fim a liberação da terra da presença não-judaica, tanto para permitir o assentamento dos israelitas vindos principalmente da Europa, como também a criação da identidade judaica do Estado de Israel, ponto pacífico do sionismo moderno.

Com a implosão do Império Turco-Otomano e a chegada do imperialismo europeu, a Palestina foi entregue aos britânicos, em 1920, na Conferência de San Remo. O sionismo já estava estruturado e gozava do interesse de uma parcela significativa da elite política, ainda que este apoio fosse motivado pelo próprio antissemitismo: “livrar-se” da presença judaica.  A influência sionista já se estendia até o Oriente Médio. O acordo Faiçal-Weizmann, entre o Rei do Iraque, Faiçal I, e Chaim Weizmann, destacado líder sionista, em 1919, buscava congregar forças em prol de dois interesses em comum; a criação do Estado judaico em Israel e a criação do grande Estado árabe, a Grande Síria, que abarcaria os atuais Iraque, Jordânia, Síria e Líbano. Faiçal era filho de Hussein bin Ali, o último hashemita apontado pelos otomanos como Emir de Meca. Em 1916 iniciou a grande revolta árabe que terminou com a proclamação do Reino do Hijaz. Dois dos seus filhos, colhendo os frutos da aliança com os ingleses, também ascenderam ao poder na Jordânia (Abdullah I) e no Iraque (Faiçal I).  O Reino do Hijaz, que abarcava as Cidades Sagradas, durou até 1924, quando foi tomado pelos sauditas enquanto os britânicos pouco fizeram para salvar Hussein bin Ali, que gozava de ampla legitimidade por ser descendente de Muhammad.

Contudo, a aliança entre os árabes, os judeus e os ingleses se mostrou mais complexa. As potências europeias não permitiram a criação da Grande Síria. Para diminuir as vozes críticas – as poderosas revoltas árabes acabavam de derrubar o secular Império Otomano - criaram duas nações falsamente independentes governadas por dois reis subservientes aos interesses da Inglaterra. Em Israel, por sua vez, aumentava o número de judeus que buscavam terras para comprar e iniciava o surgimento de grupos paramilitares, como o Palmach, o Haganá e o Irgun. Protegiam as vilas judaicas e organizavam atentados contra os britânicos e os árabes, como o massacre de Ein al Zeitun. O Irgun, o mais fundamentalista entre eles, realizava atentados contra civis, como na explosão do King David Hotel. Ironicamente, dentro da instabilidade geopolítica da época, os judeus usaram uma estratégia de força, violência e terror muito similar ao que hoje é a metodologia do Hamas. A inversão do cenário, com a criação do Estado de Israel, apenas transmitiu o discurso do ressentimento para os palestinos, aumentando a espiral de morte.

O isolamento do Hamas, seja pela perda de aliados como também pela queda do apoio interno, apenas incita o seu desespero e incrementa os atos de violência. As incursões israelenses na Faixa de Gaza, claramente desproporcionais, ajudam no fortalecimento do ódio mútuo e na instabilidade política da região. O Estado de Israel, com instituições sólidas, não encontra um interlocutor capaz para negociações futuras. Todavia, o ponto mais difícil da pauta para o pacto de paz é o reconhecimento da identidade judaica da nação israelense. Além de ter uma clara conotação racista, esta cláusula incita a perplexidade no mundo árabe e a revolta palestina. As recordações de um passado recente, quando habitavam toda a região do atual Israel e foram violentamente expulsos para a chegada dos judeus, impossibilitam o avanço da paz. Talvez, com a criação futura de um Estado Palestino, o rastro de morte deixado pelo fundamentalismo islâmico se torne apenas numa página esquecida da história, como ocorreu no passado com o fundamentalismo sionista, hoje completamente ignorado nas análises geopolíticas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Suas postagens têm um forte viés pro-árabe quando o assunto é sionismo e a Palestina. A omissão de fatos importantes impede um verdadeiro entendimento da questão e deforma a realidade.

Detalhes que ajudem a entender a condição de vida dos não-muçulmanos (principalmente dos judeus) na Palestina e em outras terras sob controle muçulmano são necessários para qualquer análise da situação atual e das raízes históricas do conflito - recomendo Martin Gilbert (In Ishmael's House) e os livros de Bat Ye'or.

As ações das milícias judaicas não ocorreram em um vácuo e devem ser entendidas e explicadas a luz de fatos históricos e dos acontecimentos da época. A violência anti-judaica precede em muito a criação do sionismo morderno. Mencionar as ações dos judeus ignorando suas razões e as ações do inimigo acabam por transformar atos de defesa ou de guerra em violência gratuita e brutalidade sem sentido, o que não é o caso -- exceto em episódios isolados.
Os massacres que ocorreram na Palestina décadas antes da criação do sionismo moderno, como o de Safed (1834), são indispensáveis quando se fala na relação entre os povos e a raiz do problema. Assim como a importancia da ideologia propagada pela recém criada Irmandade Muçulmana e a influência da ideologia nazista na região -- especialmente a aliança entre o mufti de Jerusalém e Hitler.
Como entender as ações dos Aliados ignorando o Eixo? Impossível, não é? Então como alguém pode entender o Irgun quando a “Guerra das Estradas” e a Revolta Arabe são omitidas?

Quando se fala na população árabe do local, comentários ou menções a gigantesca imigração ilegal árabe são imprescindíveis, assim como a responsabilidade dos líderes árabes palestinos, egípcios e jordanianos no êxodo da população árabe do local.

Isso sem falar no que li aqui sobre a condição econômica de Gaza e da Cisjordânia, que ignora a realidade e repete a propaganda palestina...
http://digital.ahram.org.eg/articles.aspx?Serial=192527&eid=86

Anônimo disse...

Aliás, esse mapa é extremamente desonesto. O seu uso já evidencia uma vontade de desinformar.

Lucy disse...

O mapa do topo realmente põe a idoneidade do blog sob suspeita. Ele já foi ridicularizado pelo Gravataí Merengue e por dezenas de escritores nacionais e internacionais. Não é sem razão que ficou conhecido como "O mapa que mente". Ele é uma fraude tão primária quanto desonesta.
Ele mostra áreas habitadas por judeus como "território judaico", áreas habitadas por árabes como "território palestino" e áreas inabitadas também como "território palestino". Acontece que "Palestina" era um termo genérico usado para dar nome aquela região, não interessando se sob controle árabe-muçulmano, cristão ou judeu. Logo, chamar de "território palestino" só o que não estava sob controle judaico dá a entender – de forma enganosa – que tudo aquilo em verde era território árabe. Na verdade, a maior parte desse território era desértica e inabitada. Ou seja: o primeiro mapa mente.
http://israelmitosfatos.blogspot.com.br/2009/11/judeus-possuiam-apenas-10-das-terras.html
Outro fato importante é que, naquela época, só os judeus se consideravam 'palestinos'.

O segundo fala de como seria a partilha, que não ocorreu porque os árabes a rejeitaram. Ou seja: aquela terra em verde acabou nunca ficando em seu controle.

O terceiro mapa também mente ao dizer que a Cisjordânia, que estava sob controle jordaniano, e Gaza, que estava sob controle egípcio, eram territórios palestinos.

O único mapa verdadeiro é o último, que mostra os territórios que Israel cedeu na esperança de alcançar a paz.

http://elderofziyon.blogspot.com.br/2012/07/debunking-map-that-lies.html#.U__SYfldUuc

Anônimo disse...

Pedro Ravazzano,

Li há algum tempo atrás, na verdade já faz alguns anos, uma entrevista de um fisioterapeuta chamado Moshe Feldenkrais, na verdade ele era um pesquisador importante no período da criação do estado judeu, mas ficou conhecido depois, nas décadas de 70-80-90 nos círculos de terapias alternativas principalmente no EUA e França, foi amigo pessoal do fundador do Judo Jigoro Kano.
Em uma entrevista, em que o interlocutor pergunta a ele sobre a vida dele no período anterior a formação do estado de Israel ele afirma alguns tópicos em que fiquei esse anos (li a entrevista em 2006) muito curioso e intrigado,
Moshe Feldenkrais afirma que a criação do conflito hoje que conhecemos por Árabe x Israelense (anterior a reutilização do termo Palestino por Yaser Yaraf para ser usado num contexto atual) foi todo por motivo da ocupação britânica na região que era conhecida por Palestina, a entrevista se encontra no link abaixo:
http://www.semiophysics.com/SemioPhysics_interview_with_Moshe.html.
Será que o conflito Árabe x Israelense foi incutido pelos britânicos? Ou ele veio de eras mais antigas?

Anônimo disse...

Esse mapa inclusive, descredencia totalmente o que o Moshe comentou em sua entrevista, ele era uma testemunha ocular, viveu o período e pelo que parece deu um testemunho imparcial.
http://www.semiophysics.com/SemioPhysics_interview_with_Moshe.html

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