terça-feira, 29 de julho de 2014

Islamismo e Cristianismo: diferenças teológicas

islam-and-christianity-headsO monoteísmo revelado representa um estupendo salto qualitativo na história da humanidade. As tradicionais culturas politeístas levavam em seu interior formas monoteístas, mas ofuscadas por superstições e deidades ancestrais. Todavia, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são as manifestações mais desenvolvidas do sentimento religioso. Aparentemente todas têm uma concepção similar da divindade. A relação entre a revelação judaica e cristã é inegável. Contudo, no que se refere ao islamismo a pergunta é legítima: existe uma diferença essencial entre o Deus do amor e o Deus da lei?

O islamismo está centrado no testemunho (shadada) “lā 'ilaha 'illāl-lāh an Muhammadur rasūlu llāhi”. Esta profissão de fé se fundamenta numa radical defesa da unicidade de Deus: “Não outra divindade além de Allah; Maomé é o seu profeta”. O primeiro anúncio feito é o “lā” – não. O islamismo, portanto, apresenta-se primeiramente como a religião da negação, excluindo categoricamente qualquer tipo de compromisso. Dentro desta dinâmica, o negativo se converte em posição total, onde o positivo é apenas reflexo da exclusão. Antoine Moussali afirma de modo preciso:
“On est ainsi introduit dans la foi musulmane par une négation catégorique pour une affirmation decisive et exclusive. On rentre ainsi dans la possibilité par la négativité, le négatif devenant le moyen par lequel on afirme le positif avec une assurance et une conviction sans faile. Ainsi donc, dès le depart, nous trouvons le non et le oui intimement relies l’un à l’autre. Non, il n’y a pas de Dieu autre que Dieu. Oui, il n’y a de Dieu que lui”
Dentro da concepção cristã se destaca a crença na Santíssima Trindade. Como a essência mesma de Deus, a crença no caráter trinitário não é um aspecto secundário. O seu fundamento se encontra na concepção de Pessoas, conceito caríssimo para a elaboração conceitual. Todavia, não há em árabe nenhum correspondente para o termo “hypostasis “, “persona”, o que já impossibilita o entendimento pleno da teologia trinitária. O termo mais próximo, “chahç”, significa “estátua”. Contudo, seria um completo absurdo para um cristão afirmar que crê em três estátuas. Os cristãos árabes, por sua vez, recorreram ao termo aramaico “uqnûm”.  A expressão linguística reflete as nuances filosóficas, por isso se compreende a razão pela qual a divindade islâmica jamais poderia se revelar como “Pessoa”. Allah é, portanto, o impermeável (“çamad”).

Ademais, é possível fazer um outro paralelo entre a noção de unidade (cristã) e unicidade (islâmica). A primeira parte de uma noção de alteridade e da dinâmica mesma da relação trinitária. Deus enquanto Ser-de-relação e Ser-em-relação. Essa dimensão relacional, inscrita no coração, e que encontra na pessoa de Jesus Cristo o seu ponto máximo, reflete na própria antropologia cristã. A comunhão em Deus se espelha na comunhão entre os homens e abre a porta para a intimidade com o divino, seja pela mística (êxtase), como também pelo ensimesmamento da vida espiritual (ênstase). Entretanto, o islamismo parte de uma outra lógica. A sua unicidade é entendida como exclusividade. A própria noção de uniformidade se expressa na idéia de Umma, onde o individuo (“fard”) se perde no anonimato uniforme. Existe, então, uma dicotomia entre o amor e a lei, entre o ser “ibn Allah” (filho de Deus) e “abd-Allah” (servo de Deus).

A antropologia islâmica, por sua vez, como consequência do seu monoteísmo “radical”, toma feições teocêntricas. A ordem e a moral, mais do que espelhos do olhar de amor de Deus para os homens, são manifestações da sua absoluta transcendência. A vontade divina é ditada na lei, onde o mal e o bem, o belo e o verdadeiro, são emanações da próprio querer de Deus. Aqui é possível falar de uma moralidade com certa similaridade com o nominalismo. A moralidade, portanto, é simplificada à obediência legislativa e a “santidade” à obediência às suas disposições. Disto surge a importância da “sharia” como meio de realização da submissão perfeita.

 A revelação cristã está baseada na auto-manifestação e comunicação de Deus. A história da revelação em união com a história do homem e atualizada no tempo e no espaço. O Deus Pessoal se faz conhecido mediante a vida de um povo. Com a plenitude cristã, onde essa revelação se torna completa, a mensagem será agora transmitida pelos Evangelhos, que testemunham a Pessoa de Jesus Cristo na sua vida concreta. Na revelação bíblica há esse movimento perpétuo de conhecimento e amor: quanto mais se conhece mais se ama, e quanto mais se ama mais se quer conhecer. A revelação corânica tem um outro ponto de partida, baseado em dois conceitos – “wahy” (inspiração) e “tanzîl” (descida). Esta “revelação direta”, em “bloco”, não passa pela história e se apresenta como a plenitude da “religião natural”, do pacto eterno (“al-mitaq”) inscrito por Deus no coração dos homens. Destarte, não há necessidade do espaço e do tempo como meio de diálogo de Deus com a humanidade. Isto refletirá inevitavelmente no fechamento para qualquer tipo de hermenêutica corânica.

As diferenças entre o islamismo e o cristianismo são profundas. Além desses aspectos teológicos, há outras distinções, principalmente no que se refere àquelas personagens comuns, como Abraão, a Virgem Maria, Jesus etc. O diálogo entre os fiéis de ambas as crenças deve reconhecer essas dissemelhanças. Somente através de tal entendimento é possível criar uma reflexão conjunta a respeito de aspectos comuns, como também possibilitar um debate maduro sobre os pontos divergentes.

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