terça-feira, 29 de julho de 2014

Fundamentalismo islâmico "Made in USA"

9a2dcc7d-d329-4571-843a-15dd85f5738a.grid-6x2Dentro das fronteiras do Paquistão se reproduz o choque entre secularistas, minorias e fundamentalistas que ocorre há décadas em grande parte do mundo islâmico. Os dois grandes atores dessa tragédia são o fraco e corrupto governo paquistanês e o Taliban. Entretanto, um fator curioso é que por detrás de cada personagem há duas emblemáticas forças ideológicas, os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Em terras paquistanesas o radicalismo saudita tomou forma e hoje se dissemina com uma rapidez assustadora, tornando as minorias religiosas, especialmente os xiitas e os cristãos, em alvos constantes dos radicais.

O moderno Estado do Paquistão nasceu em 14 de agosto de 1947, com a independência da Índia seguida da separação do seu território. A criação de duas nações, uma de maioria islâmica e outra de maioria hinduísta, gerou um grande fluxo imigratório: muçulmanos indianos indo para o Paquistão e hindus e sikhs paquistaneses indo para a Índia. Em 1971, com a guerra de independência do Paquistão Oriental, surgiu a terceira nação da fragmentação da antiga Índia Britânica, Bangladesh. Historicamente já havia no país um forte discurso radical, principalmente instigado pela escola sunita Deobandi, fundada ainda no tempo colonial e como reação a uma pretensa deformação do islamismo. Este espírito de retorno às “origens” de Muhammad, em total sintonia com o movimento ainda mais antigo que surgiu na península arábica, o wahabismo, logo possibilitou o nascimento de diversos partidos e grupos terroristas, muitos desses últimos dedicados a erradicar o islamismo xiita presente no norte do país. O wahabismo só se disseminou com força depois do incremento das relações entre o Paquistão e a Arábia Saudita, contudo, já em 1880 é conhecida a chegada à Índia Britânica de pregadores wahabitas. Os deobandis nada mais são do que filhos espirituais dessas pregações.

Com a invasão soviética ao Afeganistão a aliança entre a Arábia Saudita e o Paquistão se tornou estratégica para a manutenção do poder islâmico na região. Os sauditas possibilitaram a chegada de recursos logísticos e financeiros para a disseminação das madrasas por toda o território paquistanês e no leste afegão. O Taliban nasce nesse contexto, alimentado ideologicamente e materialmente pelo pensamento saudita. Imitando os seus mentores wahabbitas, os radicais no Paquistão e no Afeganistão iniciaram um processo sistemático de destruição cultural, artística e religiosa: túmulos, mesquitas, livros foram destruídos, era necessário retornar também às origens puras da cultura islâmica, isto é, a forçada “arabização” de povos muçulmanos não árabes.

Um fator da equação que quase passa despercebido é a forte presença dos EUA nesse contexto. Os americanos são tradicionais aliados dos sauditas, ainda que estes sejam os mentores espirituais do terrorismo islâmico que assola o mundo. Da Chechênia até a Somália, do Marrocos até às Filipinas, a esmagadora maioria do fundamentalismo muçulmano tem a marca, direta ou indireta, do wahabismo saudita. No atual conflito sírio o wahabismo é o motor ideológico dos “rebeldes”, grande parte composta por radicais estrangeiros ansiosos para derrubar o governo de um kafir (incrédulo) – Assad é alauíta, uma religião originada de heresias xiitas – e apoiados pela América. Os EUA já têm o costume de apoiar terroristas, como a sua aliança, através do Paquistão, com o Taliban.

Devido aos interesses capitalistas do wahabismo, a Arábia Saudita tornou-se numa ferramenta eficaz na política externa dos EUA na luta contra a influência soviética, o discurso anti-ocidental e as ideologias nacionalistas no Oriente Médio e no mundo muçulmano em geral. Como parte da sua agenda na Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram a criação de diversos grupos com fortes motivações ideológicas, como a Liga Muçulmana Mundial, em 1962, a Organização dos Países Islâmicos (OIC), em 1969, e o Banco Islâmico de Desenvolvimento, em 1976 – todos sediados na Arábia Saudita. Os Estados Unidos também favoreceram a entrada no Reino de diversos ativistas perseguidos em seus países por conta do discurso anti-secularista. O falecido rei saudita Faysal, o principal arquiteto da política pró-ocidental no Oriente Médio, fomentou a formação desses líderes na ideologia oficial saudita. Como resultado, o wahabismo foi gradualmente influenciando a política de diversos países muçulmanos, principalmente o Egito e o Paquistão.

“Nossa fé e seu aço”, foi como Ibn Saud, fundador da moderna Arábia Saudita, descreveu em 1946 para o Coronel William A. Eddy, primeiro delegado dos EUA no Reino Saudita, a relação com o governo americano. Este vínculo se mantém intacto desde então e curiosamente, ainda que o wahabismo seja uma seita de forte espírito puritano, não se vê na Arábia Saudita e no Qatar – as duas nações oficialmente salafistas – nenhum protesto popular anti-ocidental. Ademais, Riyad serve como mediadora entre Washington e Islamabad. Enquanto os EUA forneciam armas e treinamento em campos no interior do Paquistão, a Arábia Saudita abastecia o país com dinheiro e transportando milhares de jovens de todo o mundo, doutrinados no wahabismo e ansiosos na busca do “martírio”. O acampamento, a base – daí, em árabe, “al –Qaeda” – recebia tais voluntários que eram treinados e educados como combatentes mujahidin por homens mais instruídos na ideologia, entre eles Osama bin Laden.

O Paquistão se tornou refém da ingerência Saudita-Americana no Oriente Médio. De Washington e de Riyad emanam divisas imensuráveis que ajudam na manutenção de governos corruptos, material bélico vital para o fortalecimento de um enorme exército tradicionalmente mal preparado e uma forte ideologia que unifica todas as lutas contra os inimigos nacionais, entre eles os “incrédulos”. Contudo, em terras paquistaneses o radicalismo tomou feições anti-ocidentais, especialmente anti-americanas, possibilitando a criação de um círculo de morte que assusta os EUA. A América hoje se preocupa com a escadala do terror por ela criado. Nas nações ricas da península arábica o wahabismo goza das benesses do mundo moderno, enquanto na periferia do mundo islâmico, no subcontinente indiano e no chifre da África, a pobreza se torna num combustível que inflama ainda mais o radicalismo. O maior inimigo dos EUA na atualidade nada mais é do que o seu experimento que saiu de controle: o fundamentalismo islâmico.

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