terça-feira, 29 de julho de 2014

Fé e Ideologia na Causa Palestina

2011_May_Sun__08_41_25Na atualidade um dos maiores males para o correto entendimento do conflito na Palestina é a sua ideologização. O sofrimento dos habitantes de Gaza e da Cisjordânia se tornam em combustível dialético para os socialistas. O sequestro desta luta, que tem o seu valor e a sua razão, gerou consequências terríveis tanto para o modo como a Palestina entende a sua causa, como na leitura feita pelo Ocidente desta bandeira. Ademais, o desgaste do discurso ideológico permitiu a ascensão de novos atores no cenário político palestino. Se antes o conflito era visto como uma luta étnica e nacional, hoje se entende também com conotações religiosas.

A amistosa relação entre o esquerdismo e a causa Palestina, no mundo ocidental, nasce de uma identificação de Israel com o "capital". Ademais, o desenvolvimento do conflito na região criou um cenário muito propício para análises de todos os tipos, de socialistas panfletárias até marxistas ortodoxas. A sua gênese se inicia com a  ingerência das grandes potências europeias no cenário do Oriente Médio. Como desdobramento desse contato surgem o nacionalismo e o socialismo árabes. Consequentemente, muitos palestinos líderes da causa nacional aderiram ao comunismo, partindo de um discurso dialético para identificar em Israel a personificação não só da opressão religiosa e cultural, mas também econômica e política. Nesse contexto o islamismo era apenas uma peça coadjuvante. Influenciados pela mentalidade europeia, os artífices da causa palestina também aderiam ao secularismo.

O Fatah, a maior facção da OLP, sempre nutriu características seculares, nacionalistas e centro-esquerdistas; é membro consultor da Internacional Socialista. Gozou de amplo apoio das frentes comunistas, recebendo armas e treinamento da URSS e dos países do Leste europeu. Vale destacar que dentro da Organização pela Libertação da Palestina se encontram diversos grupos de clara formação marxista e socialista, inclusive alguns com um histórico de terrorismo; Frente Popular pela Libertação da Palestina (segunda maior facção da OLP) – assassinou o Ministro do Turismo de Israel, em 2001, além de reivindicar três atentados -Frente Democrática para a Libertação da Palestina (terceira maior facção da OLP) – responsável pelo Massacre de Ma'alot onde crianças e professores secundaristas foram seqüestrados e assassinados - Partido do Povo Palestino – antigo Partido Comunista Palestino, comparsa da URSS no financiamento armado de militantes na região - União Democrática Palestina, Frente de Luta Popular Palestina, Frente de Libertação da Palestina – responsável pelo ataque ao cruzeiro Achille Lauro e às praias israelenses de Nitzanim e Eliat.

Se Karl Marx concebia o Estado como reflexo da sociedade, ou seja, da contradição de classes, e como uma estrutura opressiva da classe dominante, o Estado de Israel vai além: ele é a identificação imediata de um povo. Israel surge, assim, com uma clara função paternalista, para não dizer salvífica; a esperança de liberdade para os judeus de todo o mundo. Contudo, quando a causa palestina é tomada pelo discurso dialético, os pressupostos marxistas adotam uma leitura étnica. A burguesia, representada nos judeus israelenses, e o proletariado, com a função revolucionária, na figura do palestino oprimido. A existência do Estado de Israel estimulou o crescimento dos meios de produção, o aprimoramento das forças produtivas e os conflitos e as guerras travadas acentuaram as contradições; a riqueza e o progresso, a miséria e a pobreza. Os palestinos estavam privados de tudo; terra, bens, identidade, nacionalidade, estavam e estão alienados. Desse modo, se pensando como etnia explorada, se organizando enquanto tal, se pensam com vontade revolucionária. Assim, por um processo dialético, os que estavam privados de tudo, de tudo poderão se apropriar; Israel e sua riqueza. Nessa inversão, a classe despojada de toda a humanidade particular, destruída pela alienação, carrega a missão de, através da revolução, resgatar a humanidade da humanidade, perdida às custas do progresso do capitalismo. Marx identificava o proletariado como apátridas, cidadãos do mundo, contudo, o socialismo árabe converteu para a lógica étnica toda o jargão marxista dialético.

Todavia, para melhor entender o conflito entre Israel - Palestina é fundamental se despojar de premissas ideológicas. Em ambos os lados há uma torpe tentativa de desumanização do outro, ainda que israelenses e palestinos sofram igualmente com a dor. As causas foram sequestradas e transformadas em bandeiras políticas. No Ocidente, diversos movimentos sociais saem nas ruas em defesa de Gaza ou contrários ao bloqueio da Cisjordânia. Contudo, utilizam do sofrimento de um povo em benefício de uma ideologia que historicamente deixou um rastro de morte. A melhor forma de entender o conflito, e buscar solucioná-lo, não é através de construções retóricas baseadas em ideologias. O fruto da presença socialista na Palestina foi a criação de um espírito de ódio. Outrossim, o crescimento da influência dos grupos islâmicos - fundamentalistas ou não - é consequência do cansaço de um discurso que pouco resultado conquistou.

Os palestinos estão sufocados no próprio sangue; em Gaza são governados pelo Hamas, uma organização que conseguiu desbancar a supremacia da OLP, com suas diversas facções internas, e desgastada por décadas de discursos ideológicos. Já o Fatah, que governa a Cisjordânia, experiente no cenário diplomático e político, se vê enfraquecido com a ascensão do vocabulário islâmico. Ademais, ambas as regiões se encontram isoladas e esquecidas; o bloqueio de segurança israelense, ao mesmo tempo em que impede o acesso de armas e explosivos, assim como a entrada de palestinos em Israel, impossibilita a entrada de alimentos, medicamentos, nas regiões. Tanto a Cisjordânia quanto a Faixa de Gaza sofrem com a falta de um Estado organizado, o que prejudica mortalmente o desenvolvimento do serviço público e o estabelecimento da ordem. Israel, por sua vez, sofre com o terror psicológico fomentado pelo terrorismo e com o risco iminente de ataques com torpedos. A solução desse conflito não depende de devaneios ideológicos e muito menos de paixões religiosas, mas necessita de alguém dotado de um pragmatismo político capaz de entender a realidade no modo como se apresenta.

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