terça-feira, 29 de julho de 2014

A URSS e a criação de Israel

200Hoje em dia é completamente ignorada a forte aliança que a URSS criou com os sionistas. Por mais pragmáticas que fossem as intenções de Stálin, o seu apoio pela partilha da Palestina foi fundamental para a criação de Israel. A influência inglesa na região, depois da divisão do Império Turco-Otomano, e os fortes vínculos das lideranças árabes com as nações europeias favoreceram a ingerência soviética. Ademais, a ascensão de governantes pró-Ocidente, como os reis da Jordânia e do Iraque, apenas estimulavam a corrida comunista pela criação de um estado socialista no Oriente Médio que minasse o crescente poderio burguês.

A URSS nunca perseguiu formalmente o judaísmo, ainda que a valorização étnica fosse vista como formas de manifestação burguesa. O antissemitismo do Império Russo permitiu que muitos judeus aderissem à causa soviética. Neste contexto, a luta comunista despontava como a vitória sobre a sistemática perseguição. Ademais, a elite russa e a polícia secreta, temerosas com o enfraquecimento do poder monárquico e com as crescentes reformas constitucionais, encontraram no antissemitismo uma forma de incitar revoltas contra o regime de Nicolau II. A grande comunidade judaica, por sua vez, encontrou alento junto aos sovietes. Todos os assassinos da família imperial russa, mortos em Ecatemrinburgo, eram judeus. Serguei Witte, responsável pela política de industrialização do império czarista, afirmou de modo categórico:
"Do seio desse povo judeu, que era extraordinariamente covarde trinta anos atrás, surgiram aqueles que estão dando a própria vida pela revolução, transformando-se em bombardeadores, assassinos e agitadores. Nenhuma nação deu à Rússia tantos revolucionários como a nação judaica".
Com o nascimento da URSS e a proclamação da igualdade étnica, parecia que os judeus finalmente tinham encontrado onde repousar. O governo central criou o KOMZET e o OZET, programas estatais (que hoje chamaríamos de “políticas públicas”) para inserir os judeus empobrecidos no trabalho agrícola. Também foi criado o “Oblast Autônomo Judaico”, perdido na Sibéria e na fronteira com a China, com a pretensão de ser o Israel Soviético. A atenção dada pelos comunistas ao problema judaico também refletia a tentativa de impedir o crescimento do discurso sionista. O próprio  Comintern, em 1920, havia condenado o sionismo como uma ingerência das “forças unidas do imperialismo da Entente e [da] burguesia” contra o “proletariado árabe”. Contudo, com a chegada das potências europeias no Oriente Médio, após a explosão do Império Otomano, seguida do fortalecimento dos vínculos entre a Inglaterra as elites árabes locais, uma pragmática mudança se desenhava nas prioridades de Stálin e, consequentemente, da URSS. O seu antissemitismo, usado principalmente para a perseguição política de oponentes como Trotsky, Zinoviev etc, agora mudaria radicalmente.

Grande parte dos judeus que emigraram para a Palestina era proveniente do leste europeu. Vítimas do antissemitismo czarista ou austro-húngaro, encontraram no imaginário marxista uma força revolucionária capaz de atenuar o sofrimento enquanto classe/etnia oprimida. Esta primeira leva de sionistas estava impregnada de concepções coletivistas e a realizaram através dos “kibutz”, um regime de cooperativa e de exploração comum que parecia concretizar o sonho marxista da propriedade coletiva dos meios de produção. Ao mesmo tempo organizações políticas de esquerda iniciavam a nascer, como o Histadrut (federação trabalhista judaica) e o Poale Zion, embrião do Mapai e do Partido Trabalhista. O Haganá e o Palmach, duas forças paramilitares, também tinham fortes influências do sionismo socialista. Financiado os projetos na Palestina, até então sob  o mandato britânico, estavam os ricos judeus ocidentais.

Os árabes pareciam ter sido exitosos na união com as potências europeias. Aliados dos ingleses na derrubada do Império Turco-Otomano, agora a elite local crescia em prestígio e em poder. Na Jordânia e no Iraque dois reis de uma mesma família ascendiam ao trono, enquanto no oeste da península arábica, no Reino do Hijaz recém-criado, reinava o patriarca da família, o líder da Grande Revolta Árabe de 1916. As tentativas soviéticas de captar o ressentimento árabe e convertê-lo em força revolucionária se mostraram infrutíferas. As políticas anticoloniais estalinistas foram um fracasso, sem conquistar nenhum espaço no tecido social, com exceção dos inexpressivos partidos comunistas árabes. Neste contexto entra a radical mudança da URSS. Na Palestina havia mais marxistas do que nos países vizinhos. A comunidade judaica proveniente do leste europeu difundia o ardor revolucionário e combatia duramente a presença britânica na região. Parecia, portanto, que Israel poderia ser a nação comunista do Oriente Médio, ampliando a influência soviética e barrando o crescente poder burguês. A defesa apaixonada da criação da nação israelense por parte das lideranças soviéticas é explícita. Ademais, a URSS foi o primeiro país a reconhecer Israel, antes mesmos dos EUA, e a pedir troca de embaixadores. As intervenções do embaixador da URSS, Andrei Gromyko, nos debates a respeito da partilha da Palestina foram contundentes:
“A delegação da URSS sustenta que a decisão de dividir a Palestina está em consonância com os elevados princípios e objetivos das Nações Unidas. É em consonância com o princípio da autodeterminação nacional dos povos (...) A solução do problema da Palestina com base em uma partição da Palestina em dois estados separados será de profundo significado histórico, pois esta decisão vai atender às demandas legítimas do povo judeu, centenas de milhares, que como vocês sabem, ainda estão sem um país, sem casa, tendo encontrado abrigo temporário apenas em campos especiais em alguns países da Europa ocidental. (...) O fato de que nenhum Estado europeu ocidental tenha sido capaz de garantir a defesa dos direitos elementares do povo judeu, e para protegê-lo contra a violência dos executores fascistas explica as aspirações dos judeus de estabelecer o seu próprio Estado. Seria injusto não levar isso em consideração e negar o direito do povo judeu de realizar esse desejo. Seria injustificável negar esse direito ao povo judeu, especialmente em vista de tudo que sofreu durante a Segunda Guerra Mundial.”
A URSS acreditava na guinada comunista de Israel. O sionismo socialista reinava absoluto na maioria dos partidos nascentes, ainda que poucos fossem claramente pró-soviéticos. Em 1948 o jornal americano, New York Herald Tribune, afirmava: "Israel inclinando-se para a Rússia, seu armeiro". O investimento no armamento do exército israelense, através da Checoslováquia, foi maciço. Contudo, o Partido Comunista de Israel (Maki) se mostrou politicamente fraco. Outro partido na esfera de influência bolchevique, o Mapam, se identificava como “parte integral do campo revolucionário liderado pela União Sovética”. Contudo, o maior partido israelense, o Mapai, ainda sendo parte do espectro ideológico do sionismo socialista, tinha uma tendência pró-Ocidente, refletindo o apoio vital que recebia dos ricos judeus americanos. O seu governo, durante 20 anos, minou a influência soviética, ainda que necessitasse do apoio militar russo, e enfraqueceu os partidos satélites de Moscou em Israel.

Com o incremento da aliança entre Israel e os EUA, a URSS tendeu para as nações árabes. Como parte dos conflitos da Guerra Fria, os soviéticos armaram diversos países da região em tensão com os israelenses. O rompimento se mostrava cada vez mais absoluto. A retomada das condenações ao sionismo, feitas pelo Partido Comunista, sepultavam as relações entre soviéticos e judeus. Concebido como “imperialismo racista”, o sionismo passou a ser visto como “chauvinismo militante, racismo, anti-comunismo e anti-sovietismo”, como definido na Grande Enciclopédia Soviética. Com a ascensão do Partido Socialista Árabe Ba'ath na Síria, em 1966, o cenário se torna ainda mais complexo. Armado pela URSS e apoiando as guerrilhas palestinas em Israel, o Baath se incomodava com a lentidão soviética em condenar o imperialismo israelense. As ingerências comunistas no Egito, com a União Socialista Árabe de Gamal Abdel Nasser, afastaram ainda mais Moscou de Telavive.

O fim das relações soviético-israelenses acabou com a aspiração de criar uma forte nação comunista no Oriente Médio. Ainda que o sionismo socialista tenha sido reinante nas primeiras décadas políticas, o afastamento de Moscou refletia não apenas o receio da ingerência externa, como o medo de perder o financiamento recebido pelos judeus dos EUA. A URSS, por sua vez, se encontrou dividida entre Israel e o socialismo árabe, que despontava como discurso anticolonialista contrário à presença da Inglaterra e da França na região. Incapazes de congregar posições tão díspares, os soviéticos não conseguiram fortalecer a aliança com Israel, sendo substituídos pelos americanos, e tampouco capitalizar as forças de tensão do mundo árabe, onde o socialismo se tornou apenas em retórica para o poder autocrático.

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