terça-feira, 29 de julho de 2014

A concepção do califado no islamismo nascente

Abd al-Malik, o 5° Califa Omíada, retratado nas primeiras moedas da história indicando influência muçulmana no mundo árabe - 100 anos depois da morte de Maomé. O Califa aparece com a mesma descrição dada ao profeta Maomé.
Abd al-Malik, o 5° Califa Omíada, retratado nas primeiras moedas da história indicando influência muçulmana no mundo árabe - 100 anos depois da morte de Maomé. O Califa aparece com a mesma descrição dada ao profeta Muhammad
Qual é a natureza do califado no islamismo nascente? Para muitos pesquisadores se tratava apenas de uma instituição política e de caráter centralizador, ainda mais nos primórdios da Ummah – comunidade islâmica. Contudo, como defendido por Crone e Hinds em “God's Caliph: Religious Authority in the First Centuries of Islam”, o califado apresentava notas mais complexas do que um simples institucionalismo de caráter prático. O califa era detentor de um carisma que excedia àquele do líder político: sob o seu poder se encontrava a elaboração da lei islâmica, como um magistério vivo da revelação, e sob a sua obediência os muçulmanos conquistavam a salvação. Em linhas gerais, e Crone afirma isso logo na introdução, o califado era visto de forma similar ao modo como os xiitas ainda hoje entendem o imamato e a figura infalível do imam.

O Califado Rashidun, o primeiro período de governo pós-Muhammad, é exercido por quatro dos seus companheiros (sahaba): Abu Bakr, Omar, Utman e Ali. Muitos estudiosos entendem a união entre o poder espiritual e político nesse período como reflexo da condição dos quatro califas. Sendo amigos de Maomé e destacados conhecedores da mensagem islâmica, era mais do que natural que também gozassem de poder no aspecto espiritual-legislativo. Contudo, dentro da linha apresentada no livro citado, o poder exercido pelos quatro califas (sendo o período do governo de Ali ibn Abu Taleb de destacada instabilidade interna) apenas refletia as concepções fundamentais do califado.

A primeira problemática em relação ao califado se inicia com a terminologia adotada: Khalifat Allah – “Representante de Deus” - ou Khalifat rasul Allah – “Representante do Mensageiro de Deus? No amanhecer da história islâmica essa distinção conceitual causou um grande efeito na compreensão da figura do califa. Utman, como o primeiro califa que seguramente usou o título Khalifat Allah, como também Amin Allah – Guarda de Deus – está na raiz da dinastia omíada. Desse seu ramo surgiram dezenas de califas que não apenas usaram o título de “Representante de Deus”, como exerceram o carisma divino do qual, teoricamente, eram detentores.
“The Umayyads saw the caliphal practice as identical with that of the Prophet for the simple reason that they approved of their own acts, while their opponents conversely saw it as opposed to that of the Prophet for the simples reason they disliked Ummayad policies. To say that someone had followed the sunna of the Prophet was to say that he was a good man, not to specify what he had done in concrete terms (…) In concrete terms, the ‘sunna of the the Prophet’ meant nothing”
Os Omíadas não apenas mudaram a capital do Império Islâmico para Damasco, introduziram leis dinásticas e outras inovações estranhas à noção de califado, como a sucessão sanguínea: eram eles a linhagem escolhida por Deus. A Ummah não era mais governada por companheiros do Profeta. Contudo, como Khalifat Allah, eram eles representantes de Deus, e os califas da nova dinastia encarnaram com gravidade esse título. Todavia, nesse cenário o papel dos ulamas era quase irrelevante. Qual a importância dada a clérigos que entendem o que os profetas disseram no passado perto do homem que espelha o próprio Deus, que é o Seu depositário, no presente? Os ulamas, portanto, advogavam o uso do título de Khalifat Rasul Allah, o que em certa medida colocaria califas e clérigos em igualdade magisterial. Como mostrado por pesquisadores, é plausível a teoria que afirma que é neste contexto que se encontra a radical transformação conceitual da figura do califado: a vitória dos ulamas reescrevendo a história.

Na concepção do califado como Khalifat Allah a figura de Muhammad também exercia uma outra influência. O status de Maomé era ofuscado pela importância dos califas na história da salvação. Entra as muitas evidências, destaca-se a carta escrita por Al-Walid II na qual expressa a cosmovisão espiritual do seu tempo. Resumidamente, a ideia central é que a era dos profetas se encerra com Muhammad, confirmando todas as revelações precedentes de Deus. Em seguida começa a era dos califas, quando Deus ergue os Seus representantes para administrar o Seu legado ensinado pelos profetas.
“The caliphs are the legatees of prophets in the sense that they administer something established by them, but they do not owe their authority to them (…) The ultimate source of caliphal law was divine inspiration: being the deputy of God on Earth, the caliph was deemed to dispense the guidance of God Himself.”
Na obediência ao Khalifat se encontra a salvação e a prosperidade. Na sua desobediência a punição nos dois mundos.  Destarte, profetas e califas são enviados divinos: o Deus que primeiro usou os profetas para anunciar, agora usa os califas para administrar. Entende-se, pois, que neste contexto a figura de Muhammad, por mais que reconhecida, era de pouco destaque. Ainda era um profeta com “p” minúsculo apagado pelo esplendor do status do califado. O “rasul” e o “khalifat” eram entendidos como independentes agentes de Deus.

A crise do califado instaurada com a morte de Utman e a ascensão de Ali possibilitou a consolidação do poder dos Omíadas. Dentro da imagem comum da época, Ali ibn Abu Taleb, primo de Muhammad e marido da sua mais devota filha, era um pretendente ao trono, um usurpador.  A dinastia Omíada não se iniciaria, portanto, com Muawiya I, idéia que só se consolidou no séc. IX, mas com Utman. A Primeira Fitna, a guerra civil iniciada com a ascensão de Ali, se prolongaria durante todo o seu governo e se encerraria com o seu assassinato e a retomada do poder pelos Omíadas. Como Khalifat Allah, a dinastia endossou a idéia de que por mais que o Profeta tenha sido importante no passado, e de fato foi, os Califas eram centrais para a fé no tempo presente: não existe Ummah sem um Imam, o que o famoso pensador Al-Ghazali havia defendido três séculos depois do início do califado e o que o poeta Farazdaq confirma ao dizer que o califa é “como a qibla [a direção que aponta para Mecca] através da qual cada pessoa pecadora é guiada para longe do erro”.

Dentro desta perspectiva se entende que o que diferenciava Ali, e seus seguidores (xiitas), de Muawiya I, e seus adeptos, não era um pressuposto doutrinal. De acordo com a teoria defendida por Crone e Hinds, ambos tinham crenças idênticas: apenas há um verdadeiro imam e uma verdadeira Ummah. A questão era saber quem este seria, ou o Imam Ali e os seus sucessores, ou os Omíadas, “herdeiros” do Califado Rashidun. Parece, portanto, que a diferença entre sunitas, xiitas e kharijitas seria menos por conta da concepção do califado/imamato e mais por distintos discursos de legitimidade.

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