quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Entrevista com Julien Cormier M.Afr.

Pe. Julien Cormier é o Provincial das Amérias da Sociedade dos Missionários da África. Os Padres Brancos, como também são conhecidos, sempre se destacaram pelo diálogo interreligioso. Fundados na Argélia em 1868, desde os seus primórdios foram marcados pelo contato com o mundo islâmico. Pe. Julien Cormier trabalhou em missões no Burundi e no Níger. 

Islamidades: Pe. Julien, o senhor, como Missionário da África, foi enviado para o Níger, país de majoritária presença muçulmana. Como se desenvolveu o seu contato com a população islâmica ? 

Pe. Julien: Estávamos em 1985, há 30 anos, num Níger bem diferente da situação atual, tanto em relação ao clima social como religioso.

Eu tinha acabado de sair do Burundi. Tinha sido expulso. Recebi, como centenas de missionários estrangeiros, párocos, enfermeiros e professores, a "permissão para deixar o Burundi". O Burundi era um país de maioria católica. O Presidente Bagaza era um católico que recebia diante dos fotógrafos oficiais a Madre Teresa de Calcutá. Ela ofereceu-lhe um rosário. Contudo, ele impediu os sacerdotes de celebrarem a Missa durante a semana, proibiu que religiosos nascidos no Burundi ensinassem na Universidade Nacional (fundada pelos jesuítas) e, sobretudo, a nós párocos e padres nas paróquias, ele nos proibiu de realizar reuniões com comunidades de base. Assim, em Gatara onde com outros três colegas eu era pároco, numa paróquia com 60.000 católicos, tínhamos uma centena de grupos organizados em comunidades eclesiais de base. Contato imediato com a opinião pública! Perigo para o regime presidencial que tinha acabado de se reeleger com 97% dos votos nas circunstâncias que imaginamos. Eis o país "cristão".

Três meses depois, em agosto de 1985, chego ao Níger, um país que pode ser chamado de "muçulmano" (90% da população é islâmica). No Níger, em 1985, a Igreja Católica era majoritariamente composta por estrangeiros, tanto em sacerdotes missionários, religiosos, leigos, como entre as famílias "fiéis" de países vizinhos, Benin, Burkina Faso, Nigéria, Togo. A senha para atravessar todas as barreiras da alfândega, de imigração, ou na estrada foi valer-se da "Missão Católica". Assim a Igreja é conhecida no Níger e tem uma boa reputação por causa das redes de escolas, clínicas, etc  ajudando às populações. Três dias depois da minha chegada eu já tinha a minha licença de residência e de condução.

Ao nível da população, meus primeiros contatos foram com pessoas da pequena cidade de Dogondoutchi, a missão onde fui enviado com dois colegas espanhóis, um catalão e um basco. Havia cinco freiras, canadenses, nesta missão. Exemplo: o diretor da Escola de Missão para meninas era uma freira, o diretor da para Escola de Missão para meninos era um tuaregue nigeriano  muçulmano e 95% dos alunos eram muçulmanos, 90% dos professores eram muçulmanos.

Através dos nossos antecessores Missionários Redentoristas, uma confiança foi desenvolvida entre muçulmanos e cristãos. Não, não havia catequese na escola primária e não havia nenhum crucifixo acima da lousa, mas em todas estas escolas os pais confiavam na educação dada por aqueles que seguiam o "caminho de Jesus", "Hanyai Yezu", em haúça. Isso significava que o Espírito de Jesus apoiava os professores e os alunos dessas escolas, que o testemunho do Evangelho foi vivida pelos missionários e recebido pelos muçulmanos que permaneceram fiéis à sua religião. Nos Evangelhos, não é muitas vezes que Jesus celebrou a Santa Missa como a conhecemos hoje. Mas com todos, Jesus sabe louvar a Deus na vida cotidiana. Jesus atende a todos, independentemente do sexo, religião, raça. Ele sempre fala a favor de uma vida em abundância, a favor de uma vida de qualidade, dum futuro onde todos crescem de acordo com o plano de Deus: "Eu vim para que tenham vida e vida em abundância" João 10:10

Em outras áreas, o encontro ocorreu com os refugiados da fome que se seguiu a seca de 1984. Havia em torno da missão centenas de tendas (famílias) de tuaregues que perderam seus rebanhos, o seu único meio de subsistência. Eles vieram em busca de água na missão católica. Às vezes milheto (o cereal de base). Estes serviços de emergência estavam a eles disponíveis através de doações da Secours Catholique, Caritas Internationalis, Catholic Relief Service. No local nós éramos intermediários. Visando esse trabalho, no mesmo sentido, fomos, por muitos anos, aqueles que ajudavam os moradores a cavar poços para encontrar água para a vida de homens, animais, colheitas. Esses aldeões muçulmanos, como os professores de nossas escolas, são grandes crentes. Deus é evidente para eles. Eles vivem na fé e na "religião" como um peixe vive na água. Deus ("Allah") está presente em cada momento da conversa. E estes são os muçulmanos, as pessoas "comuns" que falam sobre religião aos missionários do Evangelho de Jesus. O “Injila”, o Evangelho, assim como o "profeta" Isa (Jesus), são conhecidos pelos haúças, uma vez que é conteúdo do Alcorão.

Islamidades: O islamismo da África Ocidental é marcadamente influenciado pelo caráter místico, tolerante e em alguns aspectos até mesmo sincrético. No Níger, o islã também carrega essas notas de abertura? 

Pe. Julien: Esta questão já dá um juízo sobre o Islã na África Ocidental. Não cabe a nós, os estrangeiros e os cristãos, avaliar publicamente a religião das pessoas a quem somos enviados. Primeiro, vamos ao encontro dessas pessoas, dessas culturas impregnadas com sua religião, sabendo que, como diz o Papa Francisco, o "Espírito de Deus" precede os missionários. Extremistas muçulmanos (grupos terroristas fundamentalistas como Al Qaeda ou Boko Haram) fazem uma crítica aberta ao Islã tradicional (de acordo com a "tradição local") na África Ocidental, como, por exemplo, ao culto realizado entorno aos túmulos de seus líderes  ("imãs, marabus") em Timbuktu. Sabemos que esses lugares sagrados, parte do patrimônio da humanidade (UNESCO), foram arrasados por extremistas.

Sim, o Islã que encontrei no Níger, em 1985, era bem tolerante, sem sinais exteriores de extremismo. Era possível ver algumas meninas sem o véu, seja um pequeno lenço. Mais tarde, sob a influência dos wahhabitas, via Nigéria, uma certa radicalização foi se desenvolvendo. Jovens mulheres começaram a usar o lenço e em algumas cidadezinhas mulheres e até mesmo meninas passaram a se cobrir (livremente ou a força?) com grandes vestidos negros [niqab], que só deixava os olhos de fora. Em um país onde muitas vezes a temperatura na sombra é mais de 40C!

Outro exemplo das mudanças na prática da religião tradicional entre os tuaregues é em relação ao trato com a mulher, que sempre foi independente. O casamento é "matrilinear", portanto um homem não pode ser casado com duas mulheres ao mesmo tempo. Mas para alguns tuaregues que vivem fora de seu ambiente, no sul do Níger, em meio aos haúças e djermas, o regime matrimonial se tornou poligâmico. Essas mulheres terão perdido a sua independência, sua liberdade de costume. Uma vez estava conversando com um amigo tuaregue que escolheu tomar duas, três mulheres Ele as manteve trancadas em casa, no chamado harém. Justificou-se tomando como razão teórica a idéia de que o Islã assim ensina. Mil anos depois da sua conversão ao islamismo os tuaregues continuavam monogâmicos, com a "mulher que fala e canta em público, que sai quando quer". O homem tuaregue que se casa vai viver na casa ou na tenda (família) de sua esposa. Quando do divórcio é o homem que vai para "a rua" e a mulher conserva a casa, que no ambiente nômade não é nada mais que uma tenda de peles ou de esteiras.

Islamidades: O diálogo inter-religioso com o mundo islâmico é uma das marcas mais características da sua congregação. Hoje, diante do problema do fundamentalismo, como os católicos envolvidos nesse apostolado podem e devem se portar? 

Pe. Julien: Em nossa “Congregação”, como você diz, a nossa "Sociedade Missionária de Vida Apostólica" como dizemos, a Sociedade dos Missionários da África, Padres Brancos, uma experiência de 150 anos de vida nos leva a distinguir entre "diálogo" e "encontro".

"Diálogo com o mundo muçulmano", dizemos que os termos são demasiado vagos para existir esse diálogo. Há autoridades oficiais da Igreja Católica quem podem entrar em diálogo teológico com certas entidades qualificadas em tal mesquita ou em tal universidade muçulmana. Contudo, "dialogar com o MUNDO muçulmano", não, ele simplesmente não existe. Os muçulmanos não têm autoridade única no mundo. Sua única "autoridade” é o Alcorão e sabemos que várias escolas muçulmanas fazem interpretações distintas. É diferente no mundo cristão? Todo o mundo cristão se refere à Bíblia, mas os católicos fundam a unidade em torno do Papa (Roma), enquanto que os coptas têm unidade em torno do seu Papa (Egito). Alguns ortodoxos em torno do Patriarca de Constantinopla, outros com o Patriarca de Moscou. Entretanto, de fato, ainda hoje existem alguns poucos especialistas, incluindo nos Padres Brancos, que acreditam em "diálogo" com o "mundo muçulmano".

Mas nós, os Padres Brancos, de todo o modo, acreditamos firmemente na possibilidade e interesse no "encontro" com os muçulmanos, as pessoas, o homem (masculino e feminino) muçulmano. Isto é o que nós praticamos há quase 150 anos, começando na Argélia, onde fomos fundados e mesmo nos países da África subsaariana, onde também nos encontramos com os povos islâmicos. Não devemos acreditar que isto já estava claro em nossas mentes desde a nossa fundação, em Argel, em 1868. Temos cometido erros. Após algum constrangimento com o proselitismo, alguns muçulmanos não são se sentiram respeitados em seus valores, com a sua identidade. Mas na maioria dos casos, usando o bom senso, temos nos encontrado com os muçulmanos entre os quais vivemos . Nas sociedades tradicionais, apenas as Irmãs Brancas, nossas irmãs missionárias, poderiam atender às mulheres. Às vezes nas escolas, muitas vezes em torno dos teares, em sua vida diária.

Islamidades: O Níger é um estado secular onde o islamismo não é imposto. A sociedade civil goza de relativa liberdade e ainda com pontuais presenças do wahhabismo pouco se percebe do aumento da influência integrista. Contudo, com o fortalecimento do fundamentalismo na região, o que já é perceptível no Mali, existe um risco iminente de que esse cenário de tranquilidade política e social seja quebrado? 

Pe. Julien: A pergunta acima já não está de acordo com a realidade. Chegando ao Níger, em 1985, a Constituição do país, influenciada pela Constituição da França, afirmava que o Níger era um estado secular. Depois disso, os grandes imãs da nação têm pedido a mudança desse artigo da Constituição de modo a reconhecer a importância do Islã. Foi dito que o Níger é parte da Ummah e que a religião da maioria dos nigerianos é o Islã. Mas também é reconhecido na Constituição que os nigerianos são cristãos, adeptos da religião tradicional africana ou de outras crenças.

E, como eu disse acima, a paisagem social mudou. Milhares de pequenas mesquitas têm surgido desde 1985 e, sob a influência dos wahabitas, as práticas tornaram-se mais radicais. Por quê? Em parte, tal como percebido nos meus encontros com alguns nigerianos, porque o modelo ocidental de desenvolvimento falhou, como em outros países. Um homem ou uma mulher pode, de bom grado, abraçar os valores da "liberdade, fraternidade, igualdade" do Ocidente, e até mesmo os chamados valores cristãos. Mas quando a vida de um graduado, de um intelectual, torna-se num fracasso econômico, este homem, esta mulher, pode desistir e buscar outro modelo. Ataques à Europa. Milhões de migrantes. Outros, como a juventude francesa ou canadense, seguem para o fundamentalismo islâmico e até mesmo para a participação de movimentos terroristas. Do nosso ponto de vista, é um triste revés para o povo do Níger. Do ponto de vista do Boko Haram ou da Al Qaeda, o retorno ao fundamentalismo, seja no Níger como na Nigéria, está longe do suficiente.

Islamidades:  Em muitas regiões da África Ocidental o islamismo não é majoritário, dividindo espaço com as religiões tradicionais. Como é esse intercâmbio cultural entre crenças tão distintas? O sincretismo é uma realidade viva?

Pe. Julien: A proeminente personalidade africana, que agora vive em Roma, o Cardeal Arinze, 82, um igbo da Nigéria, já fez o seguinte gracejo: "Na Nigéria, há 50% de cristãos, 50% muçulmanos e 100% da religião tradicional”. Será que vamos falar então do sincretismo e da discriminação entre as religiões? E o que significa a palavra "sincretismo"? Eu ouvi um brasileiro, sobre o mesmo assunto, falar de “comunhão espiritual profunda" entre o cristianismo e a religião tradicional africana.

Quando o cristianismo se tornou a religião oficial de Roma, no século 4 d.C, os cristãos, influente minoria, praticavam o seu cristianismo incorporando gradualmente muitos costumes romanos e celebrações (pagãs?) como o Natal (festa da luz) e Todos os Santos (festa de todos os deuses honrados no Panteão construído pelo Imperador Adriano). A Missa era celebrada tomando costumes romanos, como fazer uma refeição em memória de uma pessoa falecida em seu túmulo (a Eucaristia celebrada sobre o túmulo da Basílica de São Pedro), a transformação dos antigos templos do Hermes grego,  ou seu correspondente latino, Mercúrio, em santuários dos Santos Anjos, e especialmente São Miguel. como no Mont Saint Michel, na França.  As estátuas de Hermes e Mercúrio como as estátuas dos anjos, portando asas, como aqueles que estão no Arco de Tito (85 d.C).

Assim, pois, sincretismo (uso aprovado) na religião católica de Roma no século 4 d.C? E sincretismo (teoricamente proibido) na religião católica na Nigéria? O que acha? Será que tudo isso vale a pena? São Paulo, em sua carta aos Coríntios, faz uma afirmação bem atual. Mesmo que seja muito grande, devo citá-lo. Inteligente, concreto e prático, Paulo nos desafia na Primeira Carta aos Coríntios 8: 1-13:

“Quanto às carnes oferecidas aos ídolos, somos esclarecidos, possuímos todos a ciência... Porém, a ciência incha, a caridade constrói. Se alguém pensa que sabe alguma coisa, ainda não conhece nada como convém conhecer. Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido por ele. Assim, pois, quanto ao comer das carnes imoladas aos ídolos, sabemos que não existem realmente ídolos no mundo e que não há outro Deus, senão um só. Pretende-se, é verdade, que existam outros deuses, quer no céu quer na terra (e há um bom número desses deuses e senhores). Mas, para nós, há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também. Todavia, nem todos têm esse conhecimento. Alguns, habituados ao modo antigo de considerar o ídolo, comem a carne como sacrificada ao ídolo; e sua consciência, por ser débil, se mancha. Não é, entretanto, a comida que nos torna agradáveis a Deus: comendo, não ganhamos nada; e não comendo, nada perdemos. Atenção, porém: que essa vossa liberdade não venha a ser ocasião de queda aos fracos. Se alguém te vir, a ti que és instruído, sentado à mesa no templo dos ídolos, não se sentirá, por fraqueza de consciência, também autorizado a comer do sacrifício aos ídolos? E assim por tua ciência vai se perder quem é fraco, um irmão, pelo qual Cristo morreu! Assim, pecando vós contra os irmãos e ferindo sua débil consciência, pecais contra Cristo. Pelo que, se a comida serve de ocasião de queda a meu irmão, jamais comerei carne, a fim de que eu não me torne ocasião de queda para o meu irmão.”

domingo, 16 de novembro de 2014

Como funciona o sistema político da República Islâmica do Irã?

A República Islâmica do Irã, criada com a Revolução Iraniana em 1979, é uma complexa instituição republicana. Mesclando aspectos democráticos comuns nas nações ocidentais com parâmetros políticos próprios da tradição muçulmana, o regime iraniano é bem estruturado e constitucionalmente alicerçado. 

Para a manutenção de um Estado islâmico baseado na "Sharia", a Constituição do Irã, de 1979, desenvolveu diversas instituições políticas que unem a eleição democrática com o poder teocrático.

Poder legislativo:


Parlamento

O Irã é um regime unicameral, com parlamentares eleitos pelo povo para um mandato de quatro anos. As minorias religiosas (judeus, cristãos e zoroastros) estão representadas, como definição constitucional. Ademais, 8% do Parlamento é composto por mulheres, número muito similar à representação feminina no Congresso do Brasil. Todos os candidatos devem ter a sua candidatura aprovada pelo Conselho dos Guardiões.


Conselho dos Guardiões

O Conselho dos Guardiões é composto por dozes juristas: seis nomeados pelo Supremo Líder e seis nomeados pelo Parlamento a partir de uma lista proposta pelo sistema judiciário. O Conselho tem o poder de revisar as leis aprovadas pelo Parlamento e de vetar o nome de candidatos.


Conselho do Discernimento

O Conselho do Discernimento é composto por membros dos três braços do governo e outros indicados pelo Supremo Líder para um mandato de três anos. Tem como função mediar os conflitos entre o Parlamento e o Conselho dos Guardiões e serve como órgão consultivo para o Supremo Líder.


Poder judiciário:

O Supremo Líder aponta o presidente do sistema judiciário, que por sua vez indica o presidente da Suprema Corte e o Procurador da República. Também existe uma corte especial para clérigos, que julga os crimes cometidos pelos religiosos e é independente do sistema judiciário regular.


Assembleia dos Peritos

Com reuniões pouco periódicas, a Assembleia dos Peritos é composta por 86 membros eleitos democraticamente. O Conselho dos Guardiões aprova os nomes dos candidatos. A sua função é eleger o Supremo Líder e tem o poder constitucional de tirá-lo do poder ainda durante o seu mandato, caso necessário.

Poder executivo:


Presidente da República

O Presidente é eleito democraticamente para um mandato de quatro anos. A sua candidatura deve ser aprovada pelo Conselho dos Guardiões e a sua tomada de poder ratificada pelo Supremo Líder. Algumas funções próprias da presidência são exercidas pelo Supremo Líder. Contudo, o Presidente governa com certa liberdade, nomeando ministros e aplicando a Constituição, ainda que haja um constante esforço de se conciliar com as posições do Supremo Líder.


Supremo Líder:

O Supremo Líder é a autoridade máxima da República Islâmica. O seu nome é indicado e supervisionado pela Assembleia dos Peritos. Sua função abarca alguns aspectos do poder executivo.  O Supremo Líder também nomeia o comandante das Forças Armadas, o diretor do sistema nacional de rádio e televisão, Também aponta os imames das mesquitas, o presidente do sistema judiciário, o procurador-geral e metade dos membros do Conselho dos Guardiões. O Supremo Líder também ratifica a eleição do Presidente e a ele cabe a declaração de guerra ou paz contanto que acompanhado por  2/3 do Parlamento. 


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Teerã e Washington: o futuro do Oriente Médio

Quando o Estado Islâmico iniciou o seu projeto expansionista no Oriente Médio o “Islamidades” anunciou: a aliança dos EUA com o Irã se tornaria fundamental. Meses se passaram e o que parecia um delírio vem se tornando em realidade. A “profecia” não era desprovida de sentido racional. O Irã é um dos mais ricos países da região, com uma sociedade materialmente moderna. Ademais, a sua importância geopolítica ultrapassava os seus limites geográficos. Como a maior nação xiita do mundo islâmico, o Irã desponta como referência para todas as lutas travadas pelo xiismo no mundo árabe: Líbano, Bahrein, Iêmen, Arábia Saudita, Iraque. 

O xiismo é o grande propulsor da força política iraniana, ainda que não seja a única. Em diversos países árabes a comunidade xiita sofre com processos sistemáticos de discriminação, reflexo da difusão do fundamentalismo wahhabita que tem em sua origem um forte espírito anti-shia.  No Líbano a situação é um tanto mais pacífica, graças aos fortes vínculos entre o xiismo e as comunidades cristãs, ajudando na manutenção de uma política estatal não discriminatória. No Iraque, os xiitas sempre foram alvos tradicionais de violência, desde o governo de Saddam Hussein. Com a queda do ditador e representando mais da metade da população, os fiéis shias foram capazes ascender politicamente. 

Em ambos os casos a ingerência iraniana era indireta. No Líbano o apoio de Teerã se concretizava via Hezbollah, o partido xiita libanês. No Iraque a influência do Irã era mais espiritual que política. Sem se interessar em anexar territórios iraquianos, temendo o caos consequente da entrada de milhões de árabes na nação persa, o “país dos Ayatollahs” se restringiu a manter uma relação cordial com os seus vizinhos. Em outros contextos, como no Iêmen, no Bahrein e na Arábia Saudita as comunidades xiitas são alvos de dura opressão. 

No Bahrein, onde 70% da população é xiita, o governo é encabeçado por uma monarquia sunita. Até recentemente os cidadãos shias não tinham plenos direitos. Com a “Primavera Árabe” um levante popular contrário à família Al-Khalifa foi organizado, mas poucas mudanças concretas foram alcançadas. O Bahrein tem uma importância estratégica por ser a sede da quinta frota da marinha dos EUA. Já no Iêmen, país onde 50% da população é adepta do xiismo, os Estados Unidos curiosamente ajudaram no fortalecimento do grupo insurgente xiita “Houthis”. Com o assassinato do líder da Al-Qaeda no país pela inteligência americana, a facção shia se fortaleceu principalmente no controle da capital iememita. 

Na Arábia Saudita, onde o xiismo é ilegal, a situação tende a se complicar com o incremento das lutas de libertação. A comunidade xiita está concentrada na Província Oriental, que é também a grande responsável pela produção de petróleo no país. Isso faz do problema shia um ponto fundamental para a manutenção da indústria petrolífera. A ingerência iraniana em todos esses casos é discreta, não necessariamente feita de modo militarizado, mas através da liderança espiritual.  O Irã é o coração do islamismo xiita e a cidade de Qom, juntamente com Najaf, no Iraque, é o grande centro de formação do clero shia em todo o mundo. 

A recente carta enviada por Obama ao Ayatollah Khamenei, Líder Supremo do Irã, revela uma mudança de postura. A aliança com a nação iraniana é mais eficiente tanto pela extensão da influência de Teerã, como através da sua força retórica. A Arábia Saudita, criadora e exportadora do wahhabismo, tem poucos motivos para combater os efeitos colaterais do fundamentalismo que se desenvolveu graças ao suporte da família Saud. Já o xiismo, alvo constante do radicalismo sunita, é capaz de responder com eloquência às atrocidades perpetradas pelo Estado Islâmico.  

O fortalecimento do papel do Irã vai refletir no crescimento das lutas xiitas no mundo árabe. A emancipação dos shias no Bahrein é inevitável, assim como a ascensão política dos insurgentes no Iêmen. No Iraque os xiitas já despontam como as vozes mais equilibradas na manutenção da ordem institucional. E na Arábia Saudita, caso a comunidade xiita se organize politicamente, um futuro de tensões se torna cada vez real. Uma mudança de parceiros no Oriente Médio iria além do combate ao Estado Islâmico. Já prepararia Washington para uma radical mudança geopolítica em toda a região: Teerã superando Ryad em primazia. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A Grande Mesquita de Paris e os judeus na II Guerra Mundial

A Grande Mesquita de Paris, inaugurada em 1926, é considerada o mais belo templo islâmico da Europa. Sua construção foi o reconhecimento do governo francês aos muçulmanos do norte da África que lutaram na I Guerra Mundial sob a bandeira tricolor. A sua abertura foi um evento de grande solenidade, com a presença do Presidente Gaston Doumergue e do santo sufi Ahmad al-Alawi, que liderou as primeiras orações. Contudo, ignorado durante décadas foi o papel que a Mesquita exerceu na administração de Si Kaddour Benghabrit, durante a II Guerra Mundial, salvando milhares de judeus perseguidos e dando refúgio aos membros da resistência antinazista.

Com a tomada de Paris pelo exército alemão em 1940 todos os judeus que habitavam a capital francesa estavam expostos ao perigo. Uma parcela considerável da comunidade judaica era de israelitas orientais (mizrahim), que emigraram, juntamente com os seus conterrâneos de fé islâmica, buscando melhores condições de vida. Culturalmente não se diferenciavam muito dos muçulmanos; compartiam da mesma língua árabe e tinham traços étnicos similares. Ademais, com o incremento das lutas de resistência e anticolonialistas, o fator de unificação não estava na fé, mas na nacionalidade. Antes do islamismo ou do judaísmo estava o ser marroquino ou argelino. 

Si Kaddour Benghabrit, responsável pela Grande Mesquita de Paris, exerceu um papel fundamental. Procurado pelos nazistas, que se interessavam em captar a comunidade muçulmana e usá-la como instrumento antissemita, o religioso publicamente mostrava interesse na construção de uma aliança com os alemães. Entretanto, escondidos nos túneis da mesquita parisiense estavam centenas de famílias judaicas e diversos militantes da resistência. Benghabrit forjava documentos para atestar que os judeus vindos do norte da África eram membros da comunidade muçulmana. Acredita-se que cerca de dois mil israelitas foram salvos graças às ações do líder islâmico. O número é impreciso principalmente porque grande parte desse capítulo da II Guerra Mundial só foi descoberto após a sua morte. 


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Al-Quds X Yerushaláyim: a identidade religiosa de Jerusalém

Um conflito de dimensões desastrosas já se anuncia na Terra Santa. O aumento das tensões entre muçulmanos e judeus em relação ao status da Esplanada das Mesquitas (ou Monte do Templo) tem tornado cada vez mais real a Terceira Intifada. Ainda que o Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tenha negado a existência de qualquer projeto buscando mudar a administração do local sagrado, o seu Ministro da Habitação, Uri Ariel, declarou que o governo israelense não pode manter o status intocável de Al-Aqsa simplesmente porque a mesquita “foi construída no lugar mais sagrado para Israel”

Israel é um estado confessional, em sua essência mesma está a identidade judaica, o que faz das minorias religiosas no país verdadeiras anomalias culturais. Ademais, é governado por um partido que tem em sua origem mais primitiva o expansionismo geográfico. Ainda que o sionismo revisionista, criado por Ze'ev Jabotinsky (1880 – 1940), seja tão ateu quanto o sionismo socialista, tem como bandeira basilar o incremento da identidade judaica e o reavivamento da glória da antiga Israel. Contudo, até recentemente as pretensões de Israel pelo controle da Esplanada das Mesquitas estiveram controladas. 

Em 1967 com a Guerra dos Seis Dias e a tomada da Cidade Antiga de Jerusalém pelo exército israelense, a Esplanada das Mesquitas, pela primeira vez desde os períodos das Cruzadas, caia em mãos de um regime não muçulmano. Não obstante um período de crescente tensão, no mesmo ano o seu controle foi repassado para um conselho islâmico encabeçado pelo Grão-Mufti de Jerusalém: o seu status de inviolabilidade foi mantido e ratificado pelo estado de Israel. 

A Esplanada das Mesquitas tem um valor religioso muito singular para o islamismo. Nela se encontram a Mesquita do Domo da Rocha, local da ascensão de Muhammad aos céus, sendo elevado da mesma pedra que para os judeus era o “Santo dos Santos” do Templo de Jerusalém, e a Mesquita de Al-Aqsa, a segunda mesquita construída por Abraão e a terceira em importância simbólica, depois de Meca e Medina. Ademais, a fé islâmica se reconhece como a verdadeira religião abraâmica. O judaísmo e o cristianismo, como revelações anteriores, apontavam para a plenitude: o último livro, o Corão, e o último profeta, Maomé. Assim, os verdadeiros herdeiros do Deus de Abraão, Isaac e Jacó seriam os próprios muçulmanos.
“E, quando lhes chegou um Livro da parte de Allah, confirmando o que estava com eles - e eles, antes buscavam a vitória sobre os que renegavam a Fé - quando, pois, lhes chegou o que já conheciam, renegaram-no. Então, que a maldição de Allah seja sobre os renegadores da Fé!” (2:89) 
“E Abraão recomendou-a a seus filhos - e, assim também Jacó - dizendo: ‘Ó filhos meus! Por certo, Allah escolheu para vós a religião; então, não morrais senão enquanto muçulmanos’” (2:132) 
“Por certo, Nós te fizemos revelações, Muhammad, como fizemos a Noé e aos profetas depois dele. E fizemos revelações a Abraão e a Ismael, e a Isaac e a Jacó, e às tribos e a Jesus, e a Jó e a Jonas, e a Aarão e a Salomão; e concedemos os Salmos a Davi” (4:163)
A cidade de Jerusalém sempre gozou de um status especial dentro do islamismo. Por mais de treze anos a direção (“qibla”) da oração islâmica apontava para Al-Quds. Com o estabelecimento da comunidade islâmica em Medina, Muhammad teria recebido a revelação para a mudança da posição geográfica - “orienta teu rosto para a Sagrada Mesquita” - quando conduzia a oração no templo que mais tarde se tornaria conhecido como Masjisd al-Qiblatain (Mesquia das duas Qiblas). Contudo, mais do que um rompimento com a tradição abraâmica, a centralidade de Mecca significava o fortalecimento desta identidade. A islamização da tradição pagã da Caaba, que muito antes do advento do islã já era um famoso destino de peregrinação entre os "idólatras", a transformou na “primeira casa de oração”, construída por Abraão e seu filho Ismael:
"E quando Abraão e Ismael levantaram os alicerces da Casa [Caaba], exclamaram: 'Ó Senhor nosso, aceita-a de nós pois Tu és Oniouvinte, Sapientíssimo" (2:127)
O islamismo, portanto, enxergando-se como desenvolvimento e plenitude da revelação monoteísta, entende que os seus direitos pelo controle da Esplanada das Mesquitas vão além dos eventos que envolvem Jerusalém e Muhammad. Abraão, Isaac, Jacó e as Tribos eram muçulmanos, verdadeiros crentes, filhos de Israel que adoravam ao Deus único. Os judeus poderiam contra-argumentar, dizendo que formam o Povo Escolhido. Até mesmo haveria espaço para os cristãos, afirmando que o islamismo não passa de uma heresia e que o judaísmo já foi ab-rogado com o advento de Cristo. Qual autoridade política poderia legislar sobre discussões teológicas?

Em Jerusalém há o encontro de três grandes tradições. Na Cidade Santa estão os mais importantes templos destas crenças. A convivência pacífica, muito além da mais ordinária civilidade, deveria ser entendida como um expressão da própria fé que professam. Além disso, qualquer tentativa de aplicar argumentos religiosos para a resolução de problemas políticos, principalmente na Terra Santa, sempre transformará questões pragmáticas em apaixonados debates ideologizados onde a religião se converte em pretexto para o uso da violência. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O que é a Ashura?

Encenação da Ashura
A comemoração da Ashura - décimo dia do Muharram no calendário muçulmano – será celebrada em 2014 no dia 3 de novembro. É uma dos maiores festejos do islamismo xiita. O xiismo recorda o martírio do Imam Hussein, filho do Imam Ali e neto do Profeta Muhammad, quando foi cruelmente assassinado na Batalha de Karbala, no atual Iraque, pelas mãos de Yazid, filho de Muawiyah I, fundador da dinastia omíada. Ademais, a Ashura, no calendário islâmico, é também o dia da saída de Noé da arca e da fuga dos judeus do Egito.

É um tempo onde os xiitas fazem orações, jejuns e vivem um espírito de luto e pesar. Contudo, a Ashura se tornou conhecida pelas práticas de auto-flagelação, comuns no Iraque e no Paquistão. Contudo, esses rituais não são defendidos pelas maiores autoridades clericais. No Irã o Ayatollah Khomeini proibiu estas práticas e no Iraque, o mais importante Ayatollah do país, Ali al-Sistani, emitiu uma fatwa as desaconselhando duramente:
"O principal objetivo de luto durante Ashura é respeitar e reviver os símbolos da religião e lembrar o sofrimento do Imam Hussain, seus companheiros, e sua revolta em defesa do Islã e para impedir a destruição da religião pela dinastia Omíada. Estes ritos devem ser realizados de tal forma que, além de servirem a esse propósito, chamem a atenção para esses objetivos elevados.Também seu aspecto ritual deve ser preservado. Assim, as ações que não são compreensíveis aos inimigos do Islã e aos muçulmanos não-xiitas [auto-flagelação], sendo causa de mal-entendidos e desprezo pela religião, devem ser evitadas"
A Ashura pode ser entendida como o epicentro da espiritualidade xiita. O seu caráter político e sacrificial marcou todas as lutas do xiismo ao longo da sua história. Imam Hussein, como o Príncipe dos Mártires, encarna as mais elevadas virtudes islâmicas, sendo alvo de reverente veneração. Ademais, esta comemoração tem como carga teológica a crença no sofrimento do Justo, e como através de sua morte a religião encontra a sua plenitude, um conceito estranho ao islamismo sunita. Em geral os sunitas atribuem o sofrimento à providência divina. É inegável o paralelo entre o valor simbólico da morte de Hussein e do calvário de Jesus Cristo. Alguns muçulmanos fundamentalistas acusam o xiismo de sincretismo, ao adotar uma certa noção cristã a respeito do sacrifício. 

A Ashura também foi fator fundamental no incremento cultural dos povos xiitas, como no desenvolvimento da “ta’zieh”, uma encenação do martírio de Hussein, espécie de Via-Crucis, e das “hussainias”, centros de encontro especialmente construídos para as comemorações. Politicamente o seu valor libertador foi usado como força dialética para diversas lutas xiitas ao longo dos séculos. O embate entre Hussein, neto de Muhammad e verdadeiro herdeiro do califado, contra Muawiyah I, o tirano e ímpio usurpador, criou o cenário mais eloquente para as revoltadas de libertação. De modo muito claro encontramos esse caráter dialético nas palavras do Ayatollah Khomeini:
“The month of Muharram is the month of epic action, the month in which blood triumphed over the sword; the month in which the power of Truth forever condemned falsehood and stamped the faces of tyrants and wicked government with the brand of vanity and falsehood; the month that teaches all generations throughout history, the way to victory over bayonet point; the month that registered, the defeat of the arrogant powers vis-à-vis the Word of Truth; the month in which the Imam of the Muslims taught us how to fight history’s tyrants; the month in which the clenched fists of the rightful, the seekers of freedom and independence must overcome the tanks, the machine-guns and the forces of the devil and the Word of Truth expurgate falsehood”.
A Ashura, portanto, é uma comemoração que abarca uma multiplicidade de facetas: teológica, política, cultural. Cristãos em países de maioria xiita, ainda que não participem dos festejos, também se deixam tomar pelos sentimentos de luto. O massacre em Karbala, com o extermínio de mulheres e crianças, criou no imaginário popular uma força de penitência que extrapola os limites do xiismo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A conversão dos cristãos durante o expansionismo islâmico

O expansionismo do Império Árabe-Islâmico está intimamente associado com o fim da hegemonia cristã no Oriente Médio e no Norte da África. Contudo, o processo de islamização de populações não-muçulmanas se desenvolveu de modo distinto em diferentes regiões. Dentre os vários fatores está a característica da igreja local: quanto mais autóctone mais complexo foi o seu enfraquecimento. Isso explica a razão pela qual o cristianismo africano rapidamente sucumbiu ao islamismo e o porquê da Igreja ter se mantido durante séculos no Egito e no Levante. Ademais, o modo como os cristãos foram tratados sob a lei islâmica também não foi homogêneo: da coexistência pacífica até à agressiva perseguição.

A “Constituição de Medina” é um documento atribuído ao Profeta do Islã, escrito depois da Hégira. Nessa carta Muhammad (570 – 632) regula os direitos dos pagãos, judeus e cristãos que viviam na cidade. Foi considerado um escrito de grande valor jurídico, principalmente pelo seu tom progressista, garantindo a liberdade e reconhecendo os não-muçulmanos como membros da sociedade política. Contudo, para muitos estudiosos esta liberalidade refletia a esperança nutrida por Maomé no reconhecimento do seu profetismo pelas outras comunidades religiosas. É neste período que as passagens corânicas mais simpáticas aos cristãos são reveladas:
“Constatarás que os piores inimigos dos fiéis, entre os humanos, são os judeus e os idólatras. Constatarás que aqueles que estão mais próximos do afeto dos fiéis são os que dizem: Somos cristãos!, porque possuem sacerdotes e não ensoberbecem de coisa alguma.” (5:82)
Com o rechaço da condição profética de Muhammad por parte dos cristãos, o que já havia passado com a comunidade judaica, é possível falar de uma radical mudança de perspectiva, através da qual os "nazarenos" passam a ser vistos de modo mais antagônico. O Corão reflete as relações entre as comunidades na Arábia e deve ser interpretado tendo em vista o correto contexto histórico. Contudo, é inegável que com a morte de Muhammad e com expansionismo islâmico para fora da península, onde o cristianismo era diminuto, o trato dado aos cristãos durante grande parte do Califado Omíada foi negativo, excluindo qualquer referência às positivas afirmações corânicas:
“Os fiéis, os judeus, os cristãos, e os sabeus, enfim todos os que crêem em Deus, no Dia do Juízo Final, e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não serão presas do temor, nem se atribuirão” (2:62)
No norte da África, analisando de modo concreto o expansionismo islâmico, as conversões começaram relativamente cedo e em poucos séculos já não existia vestígio da presença cristã. Aquela que no passado foi a Igreja de Tertuliano, Cipriano, Agostinho perdeu o seu completo espaço social frente ao islã. Alguns fatores explicam essa rápida islamização. A cultura islâmica da África foi fortemente marca pela escola Malik de jurisprudência, que era a mais tolerante das escolas sunitas e que fundamentava a relação com os cristãos na “Constituição de Medina”. Ademais, quando os árabes chegaram à região encontraram um cristianismo dividido em facções heréticas, sem coesão interna. A Igreja tinha poucas características locais, o que transformava o cristianismo na religião “dos romanos”. Com a invasão de Roma pelos vândalos em 429 todo o sistema imperial entra em colpaso. Consequentemente a Igreja no Norte da África também inicia a sua degeneração. Os muçulmanos, portanto, não encontram um cristianismo vigoroso, mas sim uma crença doutrinalmente destroçada e estruturalmente em declínio.

No Egito, contudo, o processo de conversão foi distinto. Existia, primeiramente, uma forte unidade doutrinal em torno da doutrina monofisista professada pela Igreja Copta. Além disso, o cristianismo era autóctone e substrato da cultura local. O próprio termo “copto” tem em sua raiz a palavra grega “aigýptios” (egípcio). Assim, os conquistadores não encontraram um cristianismo estrangeiro e fragmentado, mas sim uma Igreja organizada e unida. A conquista consolidada em 642 não significou a hegemonia islâmica, que durante um século representou uma minoria religiosa. Apenas cem anos depois, com o uso da pressão econômica, é iniciado o processo de dominação religiosa. O aumento da taxação de impostos sobre os cristãos foi o estopim para revoltas ao longo de todo o Egito. Todas duramente massacradas. Muitos coptas encontraram na conversão ao islamismo uma forma de aliviar o peso da opressão social. No séc. X a maioria da população já era majoritariamente muçulmana, com uma parcela significativa, aproximadamente 30%, continuando fiel ao cristianismo.

O processo de islamização da Grande Síria (região que engloba os territórios da Síria, Líbano, Jordânia e Palestina/Israel) foi ainda mais complexo. A presença cristã era milenar e profundamente enraizada. Os cristãos formavam uma elite política e cultural, inclusive colocados em postos da administração nos primórdios do Califado Omíada. O islamismo, durante séculos, foi uma realidade minoritária, ainda sendo a religião oficial do Império. Em certa medida um dois fatores mais relevantes na manutenção do cristianismo foi a fragmentação política e doutrinal dos muçulmanos. No Líbano e na Síria a presença de um grande número de xiitas se mostrou essencial para a sobrevivência dos maronitas, que foram capazes de criar uma aliança pela proteção das suas respectivas comunidades. Contudo, a fragmentação do cristianismo no Oriente Médio em diversas denominações foi basilar para a expansão islâmica. Para muitas igrejas a solução encontrada foi o isolamento geográfico.

No Iraque e no Irã, onde a Igreja Nestoriana ou Caldeia era mais influente, o processo de conversão foi quase irrisório. Protegidos pelo Império Sassânida, os cristãos foram acolhidos pelos conquistadores árabes, principalmente por ser uma comunidade de pouca expressão. Com a chegada dos mongóis havia a esperança no estabelecimento do cristianismo nestoriano como religião oficial. Alguns dos “Khans” eram próximos ao nestorianismo e muitos membros da corte eram convertidos a esse ramo do cristianismo, como a nora de Gengis Khan (1162 – 1227), mãe de quatro “Grandes Khans”. A presença cristã entre os mongóis foi fundamental para a aliança franco-mongol contra os muçulmanos durante as Cruzadas. Entretanto, a conversão de Mahmud Ghazan (1271 – 1304) ao islamismo consolida o poder muçulmano e gera o medo nas comunidades minoritárias. Amin Maalouf, em “Las Cruzadas vistas por los árabes”, assim descreve a esperança cristã apostada nos mongóis:
“A impressão que prevalece, tanto no Oriente como no Ocidente, é que a campanha mongol é uma espécie de guerra santa contra o Islã do mesmo tipo que as experiências francas. Esta impressão a reforça o fato de que o principal Lugar-tenente de Hulagu [Imperador Mongol] na Síria, o general Kitbuka, é um cristão nestoriano. Com a tomada de Damasco, em 1 de março de 1260, os que entram como vencedores,, com grande escândalo dos árabes, são três príncipes cristãos, Boemundo [Príncipe de Antioquia], Hetum [Rei da Armênia] e Kitbuka”
Na Anatólia a islamização também foi gradual e garantiu que a presença cristã continuasse até o fim da I Guerra Mundial, quando a Grécia e a Turquia realizaram uma transferência populacional. Ainda sendo conhecidos como os conquistadores de Constantinopla em 1453, os turcos desenvolveram uma relação dialética com os bizantinos. O Imperador Manuel I (1118 - 1180) criticou duramente o Patriarca de Constantinopla por conta do procedimento adotado para o batismo de muçulmanos. O religioso defendia que os islâmicos deveriam anatemizar o Deus de Maomé, enquanto o Basileu dizia que essa posição partia da errônea concepção de que o Deus dos muçulmanos e dos cristãos não era o mesmo. O seu posicionamento seguia a tradição do Imperador Leão III (717–741), que em carta ao Califa Omar II (682 – 720) afirmou que cristãos e muçulmanos acreditavam no mesmo Deus. Foi na época deste Basileu que a primeira mesquita de Constantinopla foi construída, séculos antes da sua conquista. As relações foram ainda mais concretas. O Imperador Justiniano II (669 - 711) enviou artistas e materiais para ajudar na decoração da Grande Mesquita de Damasco e da Mesquita do Profeta, em Medina.

Pode-se dizer, portanto, que a islamização dos povos cristãos não transcorreu de modo homogêneo e instantâneo. Ademais, se a pressão social e política foi um fator importante no expansionismo religioso muçulmano, o enfraquecimento e as divisões internas do cristianismo criaram um cenário propício para a consolidação do poder dos conquistadores. As comunidades cristãs que resistem no Egito, no Líbano, na Síria, no Iraque e no Irã são remanescentes de uma rica presença da Igreja no Oriente Médio, mantendo vivas as memórias da história do cristianismo. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A influência cristã na península arábica pré-islâmica

Recentes descobertas arqueológicas atestam a presença cristã nos arredores de Mecca
O contato do islamismo nascente com as comunidades cristãs da região arábica é alvo de constantes controvérsias entre os estudiosos. Para alguns a crença islâmica seria nada mais que uma heresia judaico-cristã, tese defendida por São João Damasceno (676 – 749) e mais recentemente por John Wansbrough (1928 – 2002). Para outra leva de pesquisadores, em sua maioria muçulmana, o islamismo não sofreu nenhum tipo de influência do cristianismo ou do judaísmo. Contudo, é inegável a interação entre Muhammad (570 – 632) e os cristãos, inclusive documentada pela mais tradicional biografia do Profeta do Islã, escrita por Ibn Ishaq (704 – 770). 

Em “Sirat Rasul Allah” (A Vida do Profeta de Deus), Ibn Ishaq apresenta alguns encontros de Muhammad, ou da comunidade islâmica nascente, com o mundo cristão. A primeira interação, antes mesmo da vocação profética de Maomé, teria sido o seu contato com o monge Bahira. Acompanhando o seu tio Abu Taleb em direção aos mercados da Síria, Muhammad, numa parada de descanso perto de um mosteiro, foi reconhecido pelo asceta cristão, provavelmente adepto da heresia monofisista, como detentor do “selo da profecia”. O segundo contato com o cristianismo ocorreu através do primo de sua primeira esposa. Waraqa ibn Nawfal é descrito por Ibn Ishaq como um estudioso das Escrituras, conhecedor dos Evangelhos e da Torá. Confuso a respeito das primeiras revelações recebidas, Muhammad foi chamado de “profeta dos árabes” pelo parente de Khadija.

O terceiro contato não envolve o Profeta do Islã, mas um dos primeiros grupos de convertidos. Com a dura perseguição promovida pelos habitantes de Mecca, os muçulmanos fogem para a Abissínia, buscando proteção na corte do Reino de Axum, governado por um soberano cristão monofisista, numa dinastia que de acordo com a tradição teria sido fundada pelo filho do Rei Salomão com a Rainha de Sabá.  Os mequenses enviaram uma delegação pedindo a deportação dos muçulmanos. Entretanto, os fiéis islâmicos interviram na corte e apresentaram a sua crença diante dos nobres e bispos do séquito real. Nesse colóquio, como descrito por Ibn Ishaq, os muçulmanos destacam a unicidade da sua religião e leem trechos do Corão que se assemelhavam às passagens bíblicas, como a Anunciação de São Lucas. Impressionado com a aparente comunhão entre a doutrina cristã e muçulmana o rei reafirma a garantia da proteção aos fiéis islâmicos. Um dos emigrados, Ubayd-Allah ibn Jahsh, que era conhecido por ser um “hanif”, isto é, um crente que professava o monoteísmo abraâmico nos tempos pré-islâmicos, se converteu ao cristianismo. Ibn Ishaq assim relata:
“Ubaydullah went on searching until Islam came; then he migrated with the Muslims to Abyssinia taking with him his wife who was a Muslim, Umm Habiba bint Abu Sufyan. When he arrived there he adopted Christianity, parted from Islam, and died a Christian in Abyssinia. Muhammad bin Jafar al-Zubayr told me that when he had become a Christian 'Ubaydullah as he passed the prophet's companions who were there used to say: 'We see clearly, but your eyes are only half open', i.e. 'We see, but you are only trying to see and cannot see yet.”
O quarto contato com a comunidade cristã se desenvolveu em Yatrhib/Medina, depois do estabelecimento de Muhammad naquela que seria a sua cidade. O Profeta do Islã recebeu uma delegação de cristãos da cidade de Najran, um importante centro do cristianismo monofisista. O grupo era liderado por um Bispo, e buscava realizar algum tipo de pacto com os muçulmanos. Num gesto de proximidade, Maomé permitiu que os cristãos usassem a mesquita para as suas orações. Após uma discussão cristológica, a delegação voltou para casa, recusando-se à conversão ao islamismo. Ibn Ishaq também relata que o Profeta do Islã escreveu diversas cartas para os governantes dos estados vizinhos da Arábia clamando pela conversão. Muhammad inclusive chegou a ter como concubina uma jovem copta chamada Maria.

A influência cristã na Arábia era difusa e pouco organizada. A maioria das comunidades era herética: monofisista e nestoriana, e se encontrava nas regiões limítrofes da península. Politicamente o cristianismo se fazia influente através da tribo dos Banu Ghassan, no noroeste da região, que se converteu e gozou de certo amparo dos bizantinos. Nessa época o avanço das fronteiras do cristianismo estava intimamente associado com o aumento da influência de Constantinopla. Outra tribo que também  abraçou a fé cristã foi a dos Banu Lakhm, no nordeste da península, fazendo da sua capital, Al-Hira, no centro-sul do atual Iraque, um polo do nestorianismo, estendendo sua influência ao longo da costa arábica. Outra zona com certa presença cristã era o sudoeste da Arábia, no moderno Iêmen, que refletia a presença de reinos vassalos ao reino de Axum. 

No centro da península é conhecida a adesão de algumas tribos ao cristianismo, como os Banu Taghlib. Na região do Hijaz, onde se encontrava Mecca, a presença da fé cristã não era autóctone e se fazia através de emigrantes vindos do sudoeste. Contudo, é notório que a doutrina cristã que mais se difundia era de claro conteúdo herético. Monofisistas e nestorianos encontraram proteção em dois grandes reinos que se chocavam com a Arábia: o reino de Axum e o império Sassânida. Em espaços fora da influência de Constantinopla buscavam liberdade para professar as suas crenças. Assim, é possível afirmar com clara segurança que o cristianismo conhecido por Muhammad, seja através de textos ou de contatos pessoais, foi de caráter heterodoxo.  J. Spencer Trimingham (1904 – 1987), em “Christianity Among The Arabs In Pre Islamic Times” desenvolve um rigoroso estudo histórico a respeito dessa presença cristã na península arábica. Ademais, Theodor Nöldeke (1836 – 1930), orientalista alemão e maior estudioso do Corão no Ocidente, em seu livro “The History of the Qu’ran” afirma:
“There can thus be no doubt that Muhammad’s prime source of information was not the Bible but uncanonical liturgical and dogmatic literature. For this reason the Old Testament stories in the Koran are much closer to Haggadic embellishments than their original; the New Testament stories are totally legendary and display some common features with the reports of the apocryphal Gospels”
Recentes descobertas arqueológicas apontam para essa teoria a respeito da presença cristã na região. Em Zafar, cerca de 930 km ao sul de Mecca, o arqueólogo alemão Paul Yule descobriu uma pedra com a imagem de um santo rei copta, o que apontaria para a existência de uma forte área sob o poder cristão que chegava até os limites da Cidade Sagrada. Zafar seria o centro de uma confederação tribal com muita influência. Como um reino vassalo dos soberanos abissínios, o Iêmen se tornou numa potência regional. No ano do nascimento de Muhammad Meca foi atacada pelos exércitos dos cristãos iemenitas que queriam destruir o culto pagão na Caaba. 

Essa descoberta, somada aos estudos de destacados islamólogos e historiadores, abre uma nova etapa na pesquisa a respeito da presença cristã na Arábia islâmica e pré-islâmica. Contudo, desde já é de conhecimento notório que o cristianismo não era um fator coadjuvante no contexto do desenvolvimento da religião muçulmana, por mais que a sua organização institucional fosse precária. Até que ponto a doutrina cristã herética influenciou diretamente a doutrina islâmica apenas os recentes estudos poderão responder.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A libanização (ou balcanização) da Europa

A "libanização" (ou "balcanização") da Europa parece ser uma realidade não muito futura. É inegável que o alto número de imigrantes muçulmanos cria um contexto multicultural, contudo por si só não explica o atual cenário. Os outros dois fatores fundamentais para entender esse processo são a descristianização do Velho Mundo, criando um vácuo espiritual, e a desconstrução das identidades nacionais depois da II Guerra Mundial. A consequência mais imediata é a omissão dos Estados, em nome da “diversidade”, em relação à criação de sistemas paralelos de governo dentro das suas próprias cidades. 

O secularismo europeu transformou o cristianismo numa peça de museu. Em seguida, com a criação da União Europeia as características nacionais foram esvaziadas e transformadas em caricaturas fascistas. O islamismo de imigração ao chegar na Europa encontra um abismo espiritual e cultural e, ao mesmo tempo, não se vê cobrado pela própria realidade social à adaptação. O esvaziamento da religiosidade e o relativismo moral despontam, aos olhos dos muçulmanos, como sintomas da enfermidade e da decadência do Velho Mundo. A integração cultural passa a ser evitada como meio de sobrevivência da espécie.  
“Uma razão pela qual os imigrantes muçulmanos não querem se tornar britânicos é que tornar-se britânico significa perder a sua fé, seu senso de propósito e identidade (...) É possível tornar-se britânico sem abandonar o Islã em suas formas mais conservadoras - em outras palavras, abraçando um Islã diluído que não é mais convincente que o diluído cristianismo da Grã-Bretanha. Talvez seja por isso que muitos imigrantes entendem a assimilação como algo literalmente pior do que a morte” Claire Berlinski em “Menace in Europe: Why the Continent's Crisis Is America's, Too”
Outro fator que se sobressai no isolamento das comunidades islâmicas é o paternalismo do Estado de bem-estar social. Além de toda a estrutura assistencialista, que garante uma renda fixa sem a necessidade de grande esforço, o oferecimento de serviços nas línguas maternas diminui enormemente o interesse na aprendizagem do idioma do país para onde emigraram. Os muçulmanos constituem metade da população desempregada da França e não ocupam nenhuma cadeira da Assembleia Nacional. Na Inglaterra a situação é similar, onde também estão pouco inseridos no corpo de governo e detêm oito cadeiras da Câmara dos Comuns, pela proporção demográfica deveriam estar representados com pelo menos vinte assentos. Para o fortalecimento do isolamento cultural muitos ainda enviam os seus filhos para as suas nações de origem, evitando a educação local, meio mais eficiente para a integração.

O repúdio à assimilação estimula a criação de ilhas de pureza religiosa, incitando a segregação e o preconceito. Na prática, a Sharia já foi parcialmente imposta por fundamentalistas islâmicos nos subúrbios de Londres, Paris e Estocolmo. Nesses “guetos” os não-muçulmanos são alvos de insultos e até mesmo as mulheres que não professam a fé islâmica buscam usar o véu como forma de proteção. Em Bruxelas a população islâmica representa aproximadamente 30% da população, fazendo da cidade belga a capital mais islamizada da Europa. 

Com uma grande massa muçulmana em sua maioria pobre e com pouca escolaridade e residindo em guetos suburbanos com altos índices de violência cria-se um cenário com uma enorme tensão dialética pronta para se converter em conflito. A revolta de jovens dos subúrbios da França em 2005 e os motins na Inglaterra em 2001 são expressões claras do poder de uma parcela significativa da população que vive à margem do sistema legal e que não se reconhece como parte plena da sociedade. Para as novas gerações já nascidas na Europa o islamismo radical surge como único sentido de esperança diante de uma realidade social-econômica com pouca perspectiva de mudança. O terrorismo cresce no Velho Continente juntamente com o espírito de frustração e desencantamento entre os jovens islâmicos.

Ainda que grupos fascistas culpem a imigração pela "degeneração" da Europa, a sua decadência antecede os fluxos migratórios. Exemplos bem sucedidos de adaptação, como dos hindus na Inglaterra ou dos armênios na França, são sinais de que é possível uma assimilação sem perda de identidade. Entretanto, assim como os muçulmanos necessitam encontrar um justo equilíbrio entre o ser fiel islâmico e o ser europeu, a Europa necessita redescobrir as bases da sua própria identidade, hoje tão ofuscada em meio ao relativismo agressivo e à ideologia secularista.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O "takfirismo" do Estado Islâmico

Um dos mais graves efeitos colaterais do caráter midiático do "Estado Islâmico" (EI) é o modo como a violência é banalizada nas redes sociais. Publicar vídeos de assassinatos em massa e decapitações apenas ajuda no anestesiamento da sensibilidade moral. Contudo, o blog Islamidades, abrindo uma exceção, publica esta filmagem com uma finalidade prática. O que aqui podemos ver é um exemplo do "takfir" (i.e. acusação de blasfêmia ou descrença) do islamismo wahhabita posto em prática.

Shaker Wahib, um dos líderes do EI, intercepta três motoristas nas estradas da Síria. Como já é praxe eles são questionados a respeito da sua adesão ao islamismo. No território sírio o "Estado Islâmico" dedica grande parte do seu aparato militar no combate ao xiismo. Os três contestam e afirmam que são muçulmanos sunitas. Wahib novamente os questiona, agora indagados a respeito do número de "rak'ahs" (prostrações) que os muçulmanos fazem durante as suas orações. Os caminhoneiros respondem com imprecisão e em seguida são assinados enquanto os seus executores gritam "Allahu Akbar!".

Esse tipo de precedimento apresenta uma série de anomalias doutrinais e jurídicas. No islamismo tradicional a simples profissão de fé ("Não outra divindade além de Deus; Muhammad é o seu profeta") é testemunho de pertença à comunidade islâmica. O julgamento da sinceridade da fé pessoal não é aceito pela ortodoxia e os atos de adoração imperfeitos são no máximo considerados "idolatrias menores", longe de uma pena capital. 
O Profeta do Islã disse: "O tipo de pessoa que eu mais temo por vocês é o homem que lê o Corão, lançá-lo fora e o deixa para trás e que em seguida levanta a sua espada contra o seu próximo e o acusa de politeísmo".
E numa outra tradição se diz:
"Usamah Ibn Zayd  narrou que, após matar um homem que havia ditio 'não há deus além de Deus', o Profeta lhe perguntou: 'Ele disse: não deus além de Deus e você o matou?' Eu respondi: 'Ó Mensageiro de Deus, ele apenas disse isso por medo de nossas armas.' Muhammad contestou: 'Você enxergou o seu coração para saber se isso era verdade ou não?"
O renomado teólogo muçulmano Ibn Taymiyyah (1263 - 1328), um dos mais importantes pensadores da escola salafista no séc. XIV, disse: 
"Todos os imames muçulmanos concordam unanimemente que nem todo aquele que que diz algo errado, mesmo contradizendo a Sunnah, deve necessariamente ser julgado incrédulo. Assim, realizar takfir contra alguém que tem uma opinião errada é contra o consenso. Takfir é uma questão controversa, que é discutida em detalhe em diversos lugares. O que se quer dizer aqui é que nenhum seguidor de um certo Sheikh ou Imam têm direito de fazer takfir contra os outros. É narrado com autenticidade que o Profeta disse: 'Se um homem disser a seu irmão: 'Ó Descrente", deve definitivamente ser um deles'"
A ortodoxia islâmica sempre rejeitou a banalização do "takfir". As acusações de "idolatria" e "heresia" sempre dependeram do consenso dos ulemás, que debatiam antes que uma "fatwa" fosse emitida. Entretanto, com a ascensão do wahhabismo o "takfirismo" se tornou em práxis, elevado ao status de política expansionista e respaldando a limpeza religiosa na península arábica. Contudo, com exceção dos clérigos wahhabitas, a declaração de excomunhão nunca obteve o apoio teológico de nenhuma das escolas sunitas ou xiitas. Entretanto, com a sua exportação para outros países islâmicos e a perda de controle da Casa Saud sobre sua própria cria, o "takfir" se converteu em terrorismo ad intra: muçulmanos assassinando muçulmanos em nome da pureza da fé. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dilma não é do ISIL mas também é fundamentalista

A Presidente Dilma, em recente pronunciamento em Nova Iorque, afirmou ser contrária à coalizão encabeçada pelos EUA em resposta ao terrorismo do "Estado Islâmico". Ainda que seja criticável a política externa americana, principalmente se recordamos que Washington apoiou os grupos "rebeldes" sírios dentre eles o ISIL, a intervenção militar, com um atraso de meses, busca solucionar a carnificina que atingiu níveis epidêmicos. Por mais que confusas alianças dos EUA tenham prejudicado os cristãos e as minorias e fortalecido o terrorismo, é incontestável que sem a liderança americana uma eficiente resposta de força nunca sairia do papel. 

Contudo, Dilma parece viver num mundo político paralelo. A comparação do atual contexto do Oriente Médio com o Iraque de 2003 é completamente desprovida de sentido. Realidades distintas, inimigos com métodos diferenciados e uma brutalidade presente que faz a Al-Qaeda parecer um grupo "humanitário". Ademais, a Presidente do Brasil, partindo da cosmovisão petista, prefere partidarizar problemas que resolvê-los. Criticar a ação dos EUA, com apoio de dezenas de nações, inclusive árabes e muçulmanas, é colocar os pressupostos ideológicas como norteadores do bom senso.

Os EUA estão realizando ações conjuntas com o Irã em território iraquiano e já se esboça uma aliança com o Hezbollah para enfrentar o "Estado Islâmico" na fronteira com o Líbano. Entretanto, é mais fácil tecer uma parceira entre Washington e Teerã, superando décadas de rancor mútuo, que uma aliança entre Washington e Brasília. O Brasil do PT abraça com um fundamentalismo digno do ISIL as suas posições partidárias. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Salvar o Islã para salvar o Ocidente


Duas recentes notícias parecem endossar aquilo que pode ser visto como o momento da virada islâmica. Na Alemanha duzentas mesquitas se uniram contra o ISIL e na Síria o Conselho Islâmico emitiu uma “fatwa” com a mesma condenação.  As afirmações foram contundentes:  “eles são verdadeiros terroristas e assassinos”, “fontes de sectarismo, morte e destruição”.  Estes não são os primeiros líderes que se pronunciam. Recentemente o Ayatollah Sistani, no Iraque, e o Ayatollah Khamenei, Líder Supremo do Irã, criticaram abertamente o ISIL. Contudo, o que está em risco é a própria consciência dos muçulmanos na Europa e até mesmo a "salvação" do islã. O islamismo de imigração no Ocidente já está em sua terceira geração. O momento atual também é decisivo para a formação de uma identidade islâmica europeia, livre da influência fundamentalista. 

Multiplicam-se nas redes sociais acusações que generalizam o islamismo, tornando a postura do ISIL em paradigma de toda a fé muçulmana. Entretanto, se queremos fazer uma análise honesta é necessário destacar alguns pontos. O “Califado Islâmico”, como filho legítimo do wahhabismo, tem como ideologia e práxis o “takfirismo”, ou seja, a declaração de excomunhão. Esta prática, de complexo fundamento teológico, sempre foi vista com desconfiança dentro do islamismo e esteve restrita aos altos membros do clero. Com a ascensão do wahhabismo no séc XVIII e sua consolidação no séc. XIX e XX, o “takfir” se estruturou como prática banal: qualquer um poderia julgar a credulidade alheia. O rigorismo anacrônico deste discurso simplesmente considerava todos os muçulmanos incrédulos. Até mesmo viajar para nações fora da península era visto como um ato ímpio. Agravando um cenário já doutrinariamente caótico, os clérigos do wahhabismo desenvolveram uma exegese ainda mais radical ao dizer que tais “incrédulos” deveriam ser punidos com a morte.

Por mais que o wahhabismo tenha sido condenado como heresia pelos ulemás da época e definido como neo-kharijismo (primeiro cisma do islamismo), definição retomada pela fatwa do Conselho Islâmico Sírio, a sua aliança com a Casa Saud possibilitou a tomada prática do poder. Com a máquina de takfir ligada e tendo o fundamento de clérigos que endossavam a pena capital para os “incrédulos” o terrorismo galgou o status de teologia. Portanto, o que  é praticado pelo ISIL é o subproduto de uma seita fundamentalista surgida no deserto arábico. 

Entretanto, o que hoje está em risco é a própria identidade islâmica. Durante séculos o islamismo conviveu com a ascensão do wahhabismo, que entrava nos mais variados países muçulmanos para construir mesquitas e centros culturais. Atualmente os grandes templos edificados em diversos países, da Burkina Faso ao Paquistão, da Nigéria até a Indonésia, continuam sendo custeados pela Casa Saud. Alguns filhos legítimos do wahhabismo atingiram fama global, como a Al-Qaeda e o Talibã. Contudo, agora que estes grupos se proliferam de modo mitótico o Oriente Médio e os muçulmanos na Europa se encontram desafiados a tomar uma posição contundente contra o sequestro do islamismo que perdura desde o séc. XIX. Até quando o wahhabismo poderá ser a mais eloquente voz dos muçulmanos? Por quanto tempo mais a “Ummah” vai permitir que os anacronismos dos ulemás wahhabitas ocupem o minbar das mesquitas? 

Os muçulmanos da Alemanha responderam com um contundente rechaço ao ISIL e ao discurso fundamentalista. Outros fiéis islâmicos da Europa também precisam se posicionar, e de modo definitivo, nessa luta contra o horror. Se o terrorismo, para o Ocidente, atinge proporções avassaladoras depois do 11 de Setembro, para os muçulmanos a sua gênese começa com a sistemática destruição do legado cultural e civilizacional perpetrada pelo wahhabismo séculos passados. No atual contexto, ocidentais e islâmicos unem forças para guerrear com palavras e ações contra esse segmento bárbaro que se estabeleceu pela força como discurso dominante.  

Para salvar o Oriente Médio e para consolidar a identidade dos muçulmanos europeus é mais do que necessária uma tomada de consciência. O islamismo foi sequestrado pela retórica wahhabita e hoje as nações muçulmanas choram com a desgraça dos seus filhos. Salvar o islã não é apenas proteger o Ocidente de uma ameaça iminente, mas também reestabelecer uma rica tradição civilizacional que sofre com uma “sífilis” que agora atinge proporções epidêmicas. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Príncipe Charles e o Islã

O Príncipe Charles da Inglaterra é conhecido pela sua proximidade com o mundo islâmico. Além das suas constantes viagens aos países de maioria muçulmana, especialmente Turquia, encontra-se a sua intimidade com autores da filosofia perene, como Fritjof Schuon, Martin Lings e Seyyed Hussein Nasr, os dois primeiros convertidos ao islamismo. Também já declarou que estudou o árabe buscando ler o Corão em sua língua original, o que não é, de fato, comprovação de conversão ao islã. Contudo, o que soa mais estranho é o modo como compartilha dos axiomas do perenialismo, ou seja, que a restauração do Ocidente se encontra na adesão aos fundamentos místicos, espirituais e humanos da religião fundada por Muhammad. Ainda que não seja um convertido ao islã, e qualquer afirmação sobre isso entraria no campo da suposição, é incontestável que a sua cosmovisão está amplamente fundamentada nos pressupostos da gnose muçulmana.

O filho da Rainha Elisabeth, em diversas declarações públicas, coloca-se como o mais importante difusor das ideias da filosofia perene. O islamismo, dentro dos ensinamentos de Guénon e Schuon, seria a resposta mais eloquente aos males espirituais e culturais do Ocidente. Tanto como uma resposta ao secularismo, como também ao próprio cristianismo “caduco”, incapaz de conduzir a uma experiência de transcendência. Essa “restauração”, ponto fundamental do pensamento perenialista, encontra-se na reconstrução da elite espiritual, fundamentada nos pressupostos da gnose islâmica. Grande parte do ideário da filosofia perene está baseado na mística muçulmana, seja no seu aspecto estrutural-hierárquico como a respeito do "conhecimento" de Deus. O Príncipe Charles, ao que parece, endossa partes desses ensinamentos.
“Islam can teach us today a way of understanding and living in the world which Christianity itself is poorer for having lost. At the heart of Islam is its preservation of an integral view of the Universe. Islam-like Buddhism and Hinduism-refuses to separate man and nature, religion and science, mind and matter, and has preserved a metaphysical and unified view of ourselves and the world around us.”
Além desses aspectos filosóficos-gnósticos, o futuro Charles III demonstrou a sua proximidade com o mundo islâmico em realidades mais concretas. Em 1989, quando Ayatollah Khomeini emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie, por conta do seu livro “Versos Satânicos”, o Príncipe inglês se recusou a interceder pelo escritor indiano, alegando que a sua obra atacava as profundas convicções dos muçulmanos. Contudo, em visita aos EUA depois do “11 de setembro”, foi ele o intercessor do mundo islâmico junto ao Presidente Bush, numa tentativa de fazê-lo compreender a riqueza cultura e humana dessa Civilização. 

Obviamente que um interesse intelectual não é atestado de conversão. Muitos são os estudiosos do mundo islâmico – islamólogos – que não professam a fé muçulmana. O cerne da questão não está em reconhecer a riqueza cultural e espiritual do islã. Apenas islamofóbicos enxergam dificuldades em afirmações como esta. Tampouco há grandes problemas em entender o esforço do Príncipe em propiciar uma maior integração entre os imigrantes muçulmanos e a sociedade britânica. Alguns encontram provas da conversão do Príncipe Charles na fundação do Centro de Estudos Islâmicos, na Universidade de Oxford, em 1985. Contudo, todas as grandes universidades têm centros dedicados a esta temática, dentre os quais se encontra o Centro de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, fundado em 1916 e por onde passaram muitos dos grandes islamólogos contemporâneos. No Brasil existem centros similares, como Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia. A Igreja Católica também mantém um instituto exclusivamente dedicado ao estudo do islamismo, o Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos

O interesse acadêmico pelo islamismo, portanto, não é prova de adesão de consciência à fé islâmica. Contudo, o Príncipe Charles, conhecedor da filosofia perene, parece ter encontrado na religião muçulmana um substrato teórico para grande parte dos axiomas modernos, como o ambientalismo e o multiculturalismo. A origem da crise moderna, seja no campo ambiental como social, é uma crise espiritual, de desintegração da unidade pisco-espiritual do homem contemporâneo. Assim, a solução estaria na recuperação do sentido transcendente, da integração do homem consigo mesmo e com a natureza. Ainda que a leitura seja feita de modo correto, a resposta encontrada pelo Príncipe Charles está na experiência esotérica islâmica. 
“The inconvenient truth is that we share this planet with the rest of creation for a very good reason - and that is, we cannot exist on our own without the intricately balanced web of life around us (...) Islam has always taught this and to ignore that lesson is to default on our contract with creation.”
Por mais que a proximidade do futuro Rei da Inglaterra com o islamismo seja notória, e mais do que um interesse intelectual, nunca saberemos se de fato o seu coração e os seus lábios professam a “shahada”. Ao ver na fé islâmica a chave de transformação da realidade corrente britânica, o filho da Rainha Elisabeth fortalece os teóricos da conspiração que afirmam que a sua conversão é um fato. Contudo, o que é facilmente detectável é que o Príncipe Charles, em grande medida, endossa e fortalece o coro de agentes culturais promotores do islamismo no Ocidente. Entretanto, nunca saberemos se a sua atuação é fruto de um esforço orquestrado ou apenas reflexo da típica inocência de um homem educado sob os paradigmas do relativismo europeu.