quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Todos contra o Irã ou Como a mass media constrói (falsas) revoluções

Para entender a importância do que acontece no Irã atualmente é fundamental analisar o cenário mais amplo. No Oriente Médio duas grandes forças tradicionalmente se opõem. De um lado a Arábia Saudita, responsável pela difusão e proteção do salafismo mundo a fora. Do outro lado o Irã, celeiro ideológico e espiritual do xiismo mundial. Se a hegemonia do saudismo foi consequência da estratégica aliança costurada com britânicos e americanos, a ascensão iraniana cresceu na mesma proporção em que as populações xiitas marginalizadas se organizaram politicamente em países como Síria, Líbano, Bahrein e Iêmem. O cenário ainda se problematiza com a entrada dos EUA e da Rússia como atores importantes na construção das alianças regionais.

Os protestos no Irã só podem ser entendidos em três etapas:
  • Ressentimento das classes trabalhadoras mais pobres ao governo de Hassan Rohani, que apesar do acordo nuclear não conseguiu reverter a onda de desemprego e os efeitos do embargo internacional. Esses movimentos têm um outro discurso daquele de 2009, que foi encabeçado por uma classe média e por uma elite intelectual alinhada com o progressismo ocidental. É no contexto dessas marchas que deve ser entendida a crítica ao apoio financeiro dado ao Hezbollah e ao regime sírio.
  • Com o incremento do movimento, passam a eclodir protestos violentos, com destruição do patrimônio público e privado, principalmente na capital. Nessa segunda etapa, a marcha, que tinha um pleno caráter econômico, se volta à crítica ao regime. Já existem indícios de que, a partir daqui, agentes externos se envolveram como forma de capitalização da revolta nacional
  • Agora o Irã está na terceira etapa. A população recuperou as marchas e passaram a sair nas ruas em defesa da República e da estabilidade institucional. A bandeira iraniana foi içada e a violência foi combatida. Minorias religiosas, como sunitas e cristãos participaram dessa ação conjunta. Alguns meios de comunicação no Ocidente, incluindo o Brasil, já noticiaram vídeos desse movimento como se fossem protestos contra o "regime dos Ayatollahs", o que não é verdadeiro.

Os protestos estavam centrados nas discusões sobre as falsas promessas, as decisões ruins do governo e a má distribuição de riqueza, somado à crítica aos gastos com os aliados no exterior. Nunca foi uma marcha em defesa da rejeição do governo islâmico e da atual ordem política. No fundo, o Ocidente tem uma profunda dificuldade em entender que protestos podem ser feitos sem que tenham como linha de fundo a defesa dos "valores modernos". Trabalhadores marcham em busca de melhores salários, em crítica às falsas campanhas eleitorais e ao processo de crise econômica. Entretanto, os meios de comunicação imediatamente transformam a mais banal e corriqueira dinâmica republicana num movimento revolucionário em busca do estabelecimento de uma nova ordem.

Lidamos com o preconceito puro e simples, com a arrogância do Ocidente que é incapaz de entender que o Oriente geográfico e espiritual não enxerga a modernidade como um bem a ser alcançado ou sequer almejado. A forma como a mass media politizou os protestos é um sinal dessa presunção moral ocidental, que não entende como iranianos normais podem marchar nas ruas pedindo a redução do preço da gasolina sem criticar a República Islâmica ou sem uma clara articulação em prol da derrocada do Ayatollah Khamenei.

O Ocidente tem uma forte tendência a acreditar em movimentos de protesto por todo o Oriente Médio. Na Síria, ao início dos conflitos com Bashar Al-Assad, os "rebeldes", exaltados na mídia como as grandes vozes de crítica ao regime, foram explicitamente apoiados pelas grandes potências e se transformaram, algum tempo depois, nos promotores do Estado Islâmico no país. A tentativa atual de capitalizar protestos de cidadãos descontentes numa revolução anti-regime é mais um esforço em tirar do jogo internacional a esta força regional desalinhada. Assim foi feito desde o Afeganistão, na luta contra os soviéticos, e o mesno padrão foi repetido na Síria. O Irã, contudo, tem instituições muito mais fortes e uma população menos disposto a trabalhar em prol da “modernidade” ocidental. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Seria o fim da monarquia sunita no Bahrein?

O rei do Bahrein e o rei da Arábia Saudita
O Islamismo no Bahrein tem as suas origens marcadas ainda nos tempos do Profeta Muhammad. Al-Ala'a Al-Hadrami foi enviado para a região do Golfo Pérsico para islamizar a região e difundir a nova fé junto aos governantes pagãos. Neste processo, os soberanos do Bahrein se converteram ao Islamismo. Contudo, a região vai ser fortemente infuenciada, pouco tempo depois, pelo Xiismo Ismaelita. A seita dos carmatas, uma das tantas ramificações do ismaelismo, conseguiu fazer da ilha a sua mais importante fortificação. Ali eles mantiveram a Pedra Negra da Caaba por mais de 20 anos, depois que tomaram as cidades sagradas. A  sua hegemonia foi quebrada quando da tomada do Bahrein pelo Califado Abássida.

Ainda que os Abássidas fossem oficialmente sunitas, o xiismo era muito bem favorecido, principalmente pela tradicional relação da dinastia com a família de Muhammad, venerada pelos xiitas. Com a tomada do Bahrein, se possibilitou que o radicalismo dos carmatas fosse sistematicamente substituído pela espiritualidade mística dos xiitas ortodoxos. Deste processo surgirá a Escola do Bahrein, marcada pela forte reflexão filosófica e esotérica, enfatizando o racionalismo. Sheikh Maitham Al Bahran, um dos maiores teólogos xiitas, faz parte desta tradição bahreiniana. 

A hegemonia xiita começará  a ser sobrepujada quando da chegada da família Al-Khalifa à região no séc. XVIII. Oriundos do Nejed, o seu processo expansionista os levou até a costa do Golfo, onde conseguiram impor o controle sobre o Bahrein e o Qatar. Este último conquistou a sua separação durante os conflitos gerados pelo crescimento do sultanado da Casa Saud, através da ação da Casa Thani, que também aderiu ao wahhabismo. 

Apesar do xiismo sempre ser majoritário na região,  ainda hoje englobando a mais de 60-70% da população, a Casa Al Khalifa jamais concedeu espaço político ou representatividade social aos seus seguidores, temendo que uma articulação xiita poderia gerar o seu destronamento.  Ainda que a perseguição não tenha sido tão destrutiva como na Arábia Saudita,  o Bahrein impôs uma forte política de controle social. Por mais que a Casa Al Khalifa não seja oficialmente wahabita, a força política sunita do país ou abraça o salafismo ou constrói alianças estratégicas com o radicalismo sunita. Um dos maiores partidos do país, o Al Asalah, é salafista, enquanto a segunda maior força, o Al Menbar Sociedade Islâmica, apesar do seu discurso moderado, tem relações com a Irmandade Muçulmana e constrói coligações com o salafismo.

Ainda que o partido com maior número de cadeiras - em tese - no parlamento seja xiita, o Al Wefaq, este é alvo constante de perseguição, diretamente, por ação da Majlis al-shura, a Câmera Alta, com membros indicados pelo Rei, ou indiretamente, por ação da aliança sunita apoiada pela estrutura de poder mantida pela Casa Al Khalifa. Em 2016 o Al Wefaq foi dissolvido pelo governo do Bahrein e os seus fundos confiscados pelo Estado. A Monarquia sunita temia que o crescimento dos movimentos de libertação xiitas, que despontavam no Iêmen, no Iraque e na própria Arábia Saudita, fossem o estopim para uma revolução no país encabeçada pela esmagadora maioria da população. Como parte desse processo, o Ayatollah Isa Qassim teve a sua nacionalidade bahreiniana anulada pelo governo.

A perseguição no Bahrein nunca atingiu níveis explícitos de violência como na Arábia Saudita, onde mesquitas e centros eram destruídos. Não que houvesse algum respeito à liberdade religiosa, mas temia-se que ações mais contundentes levassem ao levantamento público. A política da monaquia sempre se centrou na criação de entraves para o exercício da cidadania, como na diminuição dos direitos civis, na proibição de articulação partidária e intelectual, na limitação dos clérigos etc.

O Bahrein já havia iniciado uma espiral de maior tolerância política em 2002, quando as primeiras eleições diretas ao parlamento foram convocadas. Apesar do boitcote do Al Wefaq, nas eleições seguintes de 2006 e 2010 o partido se tornou majoritário no Congresso. Esta rápida ascensão se incrementou ainda mais com os protestos que se seguiram aos levantes populares com a Primavera Árabe. A reação da Monarquia foi limitar a ação política xiita e retirar os direitos partidários. 

Desde então a justiça do país tem feito uso de acusações genéricas, como suposta ação terrorista, para justificar a prisão de clérigos e civis xiitas. Como parte do processo de limitação dos direitos, o Parlamento do país aprovou uma emenda na qual concedia à Corte Militar o poder de julgar a qualquer civil acusado de ações contra o Estado, que engloba suposto terrorismo. Isto se tornou na consolidação da perseguição, já que se fazia possível submeter a qualquer cidadão a um tipo de julgamento no qual a defesa se torna naturalmente difícil. Ainda nesta semana seis xiitas foram condenados à morte e tiveram as suas cidadanias retiradas em base a este tipo de acusação. Casos como estes se multiplicam na mesma proporção em que, como resultado da política oficial de perseguição, aumenta a ação política e popular.

O futuro do Bahrein é cada vez mais incerto. A pressão internacional em defesa dos Direitos Humanos se intesifica. Ao mesmo tempo, as ações políticas organizadas da comunidade xiita se tornam ainda mais apuradas. A população se movimenta nas ruas e protestos explodem pelo país. Esta dinâmica empurra a Casa Al Khalifa a um radicalismo sunita e a uma aliança estratégica com a Arábia Saudita. O aumento da influência wahhabita, por sua vez, intensifica ainda mais as lutas contrárias à perseguição. A Monarquia sabe que o seu poder está em risco e que uma vitória xiita representaria a instauração da democracia e o fim dramático do tribalismo coroado. 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Os movimentos babistas e o surgimento da Fé Bahá'í

Siyyid Ali Muhammad Shirazi
Muitos foram os movimentos “babistas” que utilizaram da teologia heterodoxa xiita como fonte de inspiração para a estruturação de novas crenças. O bahaísmo é um deles. No seu lugar  histórico, o Oriente Médio vivia sob a égide do Império Otomano que, mal ou bem, mantinha a unidade política-religiosa da comunidade islâmica. A Pérsia estava sob a Dinastia Qajar, que já entrava num processo de decadência e enfraquecimento da sua força simbólica. É neste cenário que surge a emblemática figura de Ali Muhammad, que se auto-proclamou o Mahdi e o Portão ("Bab").

Primeiramente, é importante entender o contexto espiritual do Xiismo. Esta vertente do Islamismo se diferenciava pela crença na Ahl al-Bayt, isto é, a Casa do Profeta: uma sucessão de doze imames, descendentes diretos do Profeta Muhammad a partir da união do seu primo, Ali, com a sua filha, Fátima. Diferentemente do sunismo, que não tinha uma autoridade espiritual objetiva, esta realidade xiita deu margem a uma riqueza mística singular. Entretanto, ao mesmo tempo, a elevada relevância espiritual dos Imames muitas vezes se degenerou em concepçõe estranhas.

Vale destacar que, dentro do Xiismo, o 12º Imam, o Mahdi, o Esperado, carregava uma função escatológica única. Também é importante frisar que uma parte considerável da mística xiita nasce a partir da própria tradição oral, na qual Muhammad teria dito: "Eu sou a cidade do conhecimento e Ali é o seu portão; então, quem quiser conhecimento, deve entrar através do portão - Ana madinatu’l-ilm wa Ali babuha; Fa-man arada’l-ilm fal-ya til-bab". A partir deste dito se inicia a importância simbólica da idéia de "Bab". Contudo, ao logo do desenvolvimento histórico do Xiismo, muitos foram os luminares que se proclamaram "Portão do Conhecimento". 

Abu l-Khattab foi um deles. Próximo a Ja'far b. Muhammad al-Sadiq, o 6º Imam, ele, após a sua morte, passou a defender algumas novidades doutrinais e teológicas. A sua maior contribuição foi estruturar o processo de divinização do Imam, uma inovação que surtirá efeitos, a partir de então, numa série de desenvolvimentos heréticos xiitas, como o ismaelismo - que passou a considerá-lo "Portão" - e no alauísmo. A dinâmica era simples, com a morte do Imam, alguns dos seus seguidores radicais passavam a defender a sua divinização e um deles se proclamava o "Bab" para este novo status ontológico. Asssim ocorreu com a morte de Hassan al-Askari, o 11º Imam. Ibn Nusayr afirmou ser o seu "bab" e mais tarde seria reconhecido como o fundador do movimento Nusayri, os alauítas.  Acreditavam, através da permissividade doutrinal ismaelita, que o divino se manifestou em numerosas emanações ao longo da história, cada uma como uma espécie de trindade de Maana-Ism-Bab ou Significado-Nome-Portão. O Portão é o nível iniciático, o Nome a manifestação externa e o Significado a manifestação mais interior da divindade. Na era Muhammadiana, como é denominado na literatura alawita, o Portal é Salman al-Farsi, o Nome é Muhammad, que é de fato subordinado ao Significado, que é Ali ibn Abi Talib. Muitos foram os movimentos que direta e indiretamente beberam da mística babista do xiismo heterodoxo, entre eles os Musta'li, os Dawoodi Bohra, os Sulaymani, os Alavi Bohras, os Hebtiahs Bohra, os Atba-i-Malak, os Satpanth, os Drusos e os Ismaelitas Nazaris, que muito se assemelham à Fé Bahaí em sua concepção social.

Ali Muhamad, na Pérsia do séc. XIX, uniu em si duas das crenças mais potencializadas do xiismo herético: o Bab e o Mahdi. Ele se proclamou o Portão, e já entendemos o que significa dentro do desenvolvimento mísitico xiita, e o Mahdi, o Imam esperado, o grande guia espiritual. Os movimentos mahdistas, diferentemente dos movimentos babistas, tinham maior conotação política, já que a figura do 12º Imam trazia consigo a autoridade escatalógica do fim dos tempos. Com a sua morte pelo estado persa, o então "babismo" se transmutou oficialmente em bahaísmo, com o seguimento de Husayn Ali Núri, seguidor de Ali Muhammad que se proclamou Bahá'u'lláh, a grande figura messiânica profetizada por todas as religiões. Ele foi expulso da Pérsia e tampouco foi querido no Império Otomano, onde viveu sob contstante perseguição, aprisionamento e observação por parte das autoridades turcas. Após a sua morte, a comunidade passou a ser liderada por seu filho, Abdu'l-Bahá, que era muito próximo aos ingleses, inclusive transformado em Cavaleiro do Império Britânico. Ele foi o responsável pelo processo de internacionalização do bahaísmo e de abertura às pautas Ilustradas do Ocidente.

Uma série de movimentos inovadores surgiram nesta mesma época. Além da Fé Bahai na Pérsia, os movimentos Ahmadiyya e Deobandi na Índia e o Salafismo no mundo árabe. Os Bahai e os Ahmadiyya defendiam o fim das Guerras Santas, acreditavam na origem divina de todas as religiões e nutriam esta crença no Mahdi como fim e destino de todas as crenças. Ao fim, as duas novas confissões foram perseguidas, em parte porque nutriam uma relação pacífica com os britânicos. Já os Deobandis e os Salafis conseguiram se impor pela sua capacidade de capilarizar o ódio anti-otomano numa doutrina teológica na qual a unidade política da comunidade islâmica era colocada em discussão. Se os movimentos liberais-pacifistas, como o bahaísmo, não conseguiram transformar a mentalidade islâmica, a dissensão seria o discurso mais eloquente e apropriado. Surge, então, a aliança Saud-Wahhab que dará forma ao Emirado/Sultanado do Nejed, que se transformará, depois do fim do Império Otomano e com a anexação do Reino do Hijaz, em Reino da Arábia Saudita. Um processo político que contou com o apoio às vezes ativo e às vezes discreto da Inglaterra.

O cenário do Oriente Médio, assediado pelo imperialismo ocidental e resguarado pela sua unidade religiosa, era naturalmente propício ao surgimento de movimentos queridos pelas nações européias. As tentativas de domínio regional por parte das potências ocidentais, sempre se chocavam com a coesão espiritual dos muçulmanos. Do mesmo modo, a existência de uma perspectiva política fundamentada na Sharia, inibia qualquer possibilidade de estruturação de movimentos liberais. No mundo islâmico sequer existia uma distinção conceitual entre o secular e o profano. Tal estruturação de governo, fazia de qualquer mandato britânico um sacrilégio religioso. O Islamismo era o maior inimigo, já que a sua cosmovisão naturalmente se opunha a uma abertura aos novos valores ocidentais. O processo de aliciamento do mundo islâmico pelas nações imperialistas trará consequências nefastas algumas décadas depois, com o surgimento do nacionalismo e do socialismo árabes. 

O bahaísmo serviu aos interesses imperialistas na medida em que, ao reproduzir axiomas liberais tão caros para a Europa pós-revolucionária, colocava em cheque a estabilidade institucional e religiosa de um Oriente Médio construído sobre a identidade islâmica. Concepções como direito individual, liberdade religiosa, Nova Ordem Mundial etc, sequer eram conceitos imagináveis para o muçulmano do séc. XIX que jamais passou pela Ilustração. O bahaísmo deu um salto epistemológico de dimensões seculares, defendendo um modelo social fiel às mais caras bandeiras ocidentais numa Pérsia ainda teocrática e feudal. Contudo, a sua incapacidade de atingir a consciência das massas foi o sinal de alerta para os britânicos, que perceberam que a mentalidade reformista liberal não teria a mesma capacidade expansionista do reformismo purista do recente movimento wahhabita que crescia na península arábica.

Se Bab e Bahá'u'lláh eram ou não inspirados por Deus e possuidores de uma verdade revelada, não cabe reflexão, já que entra-se no espectro da crença. Contudo, o que foi aqui posto é a contextualição do surgimento do bahaísmo dentro do cenário mais amplo do desenvolvimento das heresias xiitas e como, esta nova crença, respondeu às necessidades estratégicas da Inglaterra imperialista. Apesar disso, a fé tem a capacidade de ressignificar a realidade, dando um valor transcendente a atos ordinários e banais. Assim sendo, nada na história do bahaísmo nascente poderia desabonar a crença do seu fiel quando interpretada como ação providencial de Deus.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A paz islâmica é xiita?


Seria o Xiismo o grande aliado para o desenvolvimento de uma relação pacífica entre o mundo islâmico e o Ocidente? Ao que tudo indica, sim. O Islamismo Xiita é um aliado histórico dos Cristãos no Oriente Médio. O contexto de opressão e perseguição aproximou ambas as tradições religiosas e fomentou uma relação pacífica entre os respectivos cleros. Inclusive, as semelhanças tradicionais entre o Crisitianismo e o Xiismo foram usadas como acusações de sincrentismo por parte das seitas wahabitas. Também vale destacar que os tradicionais redutos xiitas, como o Irã, o Líbano e o Iraque, sempre foram lugares de liberdade de culto, com representatividade institucional cristã.

Desde o surgimento do wahabismo, no séc. XVIII, o xiismo tem sido alvo sistemático de perseguição. Já em 1802, os exércitos da aliança Saud-Wahhabi, tomaram a cidade de Karbala, sagrada para o xiismo, e destruíram a Mesquita do Imam Hussein. Na Arábia Saudita, a comunidade xiita, que representa 20% da população, foi lançada na ilegalidade, suas mesquitas foram confiscadas e os seus centros destruídos. Em 1988, o principal clérigo do país, Abdul-Aziz ibn Baz, emitiu uma fatwa na qual denunciava os xiitas como apóstatas. Em 1994, Abdul-Rahman al-Jibrin, membro do Conselho Supremo dos Ulemas, sancionou o assassinato dos xiitas. 

De acordo com um relatório de 2009 da Human Rights Watch, os cidadãos xiitas na Arábia Saudita "enfrentam discriminação sistemática na religião, educação, justiça e emprego". Livros oficiais do governo saudita, utilizados em todas as escolas, são hostis ao xiismo, muitas vezes caracterizando a fé como uma forma de heresia pior do que o cristianismo e o judaísmo. Ano passado, o Aytollah Nimr al-Nimr foi executado pelo governo saudita, por fazer uma forte oposição à perseguição perpetrada pelo Estado wahhabita.

No Bahrein, os xiitas, que representam mais de 50% da população, ainda lutam pela total condição de cidadãos, já que têm os seus direitos civis diminuídos por parte da monarquia sunita. No Iêmen, os xiitas, que compõem 40% da população, se opuseram a um governo alinhado com a Arábia Saudita. No Iraque e na Síria, os xiitas foram os primeiros alvos do Estado Islâmico, assim como no Paquistão a forte infuência da seita Deobandi, criada pelos missionários wahhabitas que foram para a região, alimentou o espírito bélico direcionado à comunidade xiita local. Até mesmo na Nigéria, o Movimento Islâmico, criado e liderado pelo Sheikh Ibrahim Zakzaky, que propaga o Xiismo pelo país, tem sido alvo de perseguição.

Já nos países onde o xiismo tem liberdade religiosa, como o Iraque, o Irã, o Líbano e o Azerbaijão, existe uma relação de cordialidade entre as mais variadas denominações religiosas. No Líbano, os xiitas são aliados tradicionais dos cristãos. No Iraque, o Patriarcado Caldeu tem sido uma voz de apoio à estabilidade institucional de maioria xiita. No Irã, as comunidades cristãs e judaicas têm liberdade de culto e presença parlamentar, apesar das particularidades do Estado. Inclusive, vale destacar como a aliança Cristã-xiita foi fundamental na luta contra o avanço do Estado Islâmico. O apoio iraniano às tropas iraquianas e a ajuda libanesa aos sírios foi de vital importância no enfraquecimento do ISIS. Até mesmo as liderenças xiitas no Ocidente, como o Imam Tawhid, na Austrália, e o Islamic Center of America, nos EUA, são duros críticos do terrorismo islâmico e também alvos do fundamentalismo, como na tentativa de ataque em 2011 feita por um radical wahabita, em Michigan.

O que se nota é que o histórico de perseguição passada e presente possibilitou uma abertura estratégica do Xiismo às ações ocidentais na luta contra o fundamentalismo. Xiitas, judeus e cristãos são os alvos preferenciais do terrorismo perpetrado no Oriente Médio e a já tradicional associação do xiismo à apostasia o coloca dentro da concepção wahabita do "assassinato legal". É justamente neste cenário de perseguição ampla e irrestrita no qual se faz atual uma percepção mais concreta por parte do Ocidente. Algumas décadas atrás os EUA apoiaram os movimentos de guerrilha ideologicamente alinhados com o saudismo, como forma de enfraquecer o nacionalismo árabe, dando forma ao terrorismo atual. Entretanto, chegou o momento de construir uma associação mais realista com o desenvolvimento religioso da mentalidade islâmcia, optando por aqueles que, historicamente, sempre se mostraram abertos à tolerância: os xiitas. 


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O "coração" em São João da Cruz e na Mística Islâmica

A mística religiosa, apesar de sua “desconexão” com a mundo, é feita através de uma linguagem humana. Neste sentido, todos os místicos das mais variadas tradições utilizaram da realidade dada como meio de entendimento do Sagrado. Assim, o símbolo tem um claro substrato cultural que é ressignificado para dar vazão à experiência de união com o divino. Isto posto, é possível refletir como a mística de São João da Cruz representa um marco epistemológico singular. Ele rompe com a concepção católica clássica da simbologia “cardíaca” e entende o “coração” de um modo curiosamente idêntico ao como entendido pelos mais variados ramos do misticismo islâmico.

Ainda que na experiência monástica cristã oriental, especialmente com os Padres do Deserto, São Gregório Palamas e com o Hesicasmo, o “coração” seja um órgão de percepção mística, no mundo latino o foco foi invertido. O coração não mais era um instrumento de disciplina espiritual, mas sim uma representação do próprio Coração de Cristo. Esta mudança, que foi amplamente difundida por grandes santos, como São Bernardo, Santa Angela e Santa Catarina de Sena, representa uma inversão da dinâmica: não mais a elevação do crente em direção a Deus, mas o próprio Deus que entrega o Seu Coração. Obviamente que não cabe um juízo de valor, já que ambas as espiritualidades são fontes inesgotáveis de santidade.

Contudo, o que se viu em São João da Cruz foi uma novidade sem precedentes dentro dos ensinamentos místicos latinos. O seu coração não é uma expressão “passiva” do coração tradicional, mas um lugar ontológico, um coração metafórico que reflete a imagem dos atributos divinos na alma. Este coração, que não se assemelha ao Sagrado Coração sofredor, está muito mais próxima do órgão da percepção mística, como pensado pelos orientais, e mais precisamente ao “qalb”, coração interior, dos místicos muçulmanos.

O “qalb” e o coração de São João da Cruz são receptáculos de Deus: o coração se torna infinito ao receber os atributos infinitos de Deus. Do mesmo modo, o coração exerce uma função de atração e repulsão que faz parte da dinâmica de reconhecimento da vocação divina do homem em si mesmo e no outro. Este processo, que pode ser encontrado nas inúmeras obras de São João da Cruz, é construído simbolicamente através da imagem do espelho ou do reflexo na água, dois simbolismos recorrentes tanto na mística do Carmelita Descalço como nos escritos de inúmeros místicos muçulmanos, como Ibn Arabi. O movimento, como característica do coração, talvez seja o ponto mais consonante entre ambas as tradições.

Ao mesmo tempo, o coração-qalb é ponto de convergência de Deus com a sua criação. Novamente São João da Cruz e os místicos islâmicos reproduzem a mesma ideia, na qual a comunhão de amor com Deus conduz invevitalmente a uma ressignificação do modo com o qual o homem contempla o criado. É uma jornada do coração (safar al-qalb) para o Coração, do coração do místico para a realidade do Coração. É um movimento, portanto, longe das considerações do "eu", longe do usurpador para o verdadeiro Proprietário, da ignorância ao Conhecimento. Também pode ser descrito como uma jornada na qual o coração se volta para Deus em memória. Qalb é, portanto, o centro de toda a experiência de divinização do homem, ou, como colocado por Ibn Arabi, “quando Deus criou seu corpo, Ele colocou dentro dele uma Ka'ba, que é seu coração.”

Também é importante destacar outro ponto de profunda semelhança. Tanto no pensamento de São João da Cruz e principalmente em Santa Teresa de Jesus, a alma é protegida por fortalezas. No caso da mística espanhola, esses castelos representam o processo de elevação espiritual interior que culmina na união com Deus. Místicos islâmicos, como Al-Hakim al-Tirmidhi, também refletiram de modo absolutamente idêntico, chegando este último a definir em sete a quantidade de “medinas” -  fu'ad (coração interior), damīr (consciência), gilāf (revestimento exterior), qalb (coração interior), shagāf (cobertura interior), habba (parte inferior do coração) e lubāb (quitessencia do coração) - tal como descrito pela reformadora do Carmelo.

Ainda que não exista uma comprovação objetiva da influência da percepção mística islâmica junto aos místicos espanhóis, não seria absurdo pensar que após séculos de domínio político mouro e de imersão espiritual numa cosmovisão muçulmana, depois da Reconquista os cristãos ibéricos continuaram reproduzindo uma perspectiva espiritual de profunda consonância com o Islamismo de outrora.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O que esperar do novo Rei da Arábia Saudita?

O Rei está morto! Vida longa ao Rei! A Arábia Saudita vive a sua continuidade monárquica com a ascensão do Rei Salman ao trono depois da morte do seu irmão. Ryad tem uma importância geopolítica privilegiada, seja pela liderança ideológica que extrapola os limites do Oriente Médio, como pela sua aliança com os EUA. O falecido rei Abdullah foi incensado pela comunidade internacional. Obama destacou a “genuína e calorosa amizade” que nutria com o monarca saudita e ainda pontuou que “valorizava a [sua] perspectiva”. Dentro das contradições do saudismo, numa mescla de anacronismo religioso com progressismo material, a parceria com Washington desponta como a sua pedra fundamental. O Rei Salman já aparece como um renovador da ortodoxia moral e doutrinal do país e novo articulador político, a exemplo do seu irmão Rei Faisal, que reinou entre 1964 – 1975.

As primeiras decisões do Rei Salman foram voltadas para a renovação da elite política e administrativa da Arábia Saudita. Os dois filhos do Rei Abdullah, Príncipe Mishaal e Príncipe Turki, respectivamente governador de Meca e de Ryad, foram retirados de suas funções. Salman ainda escolheu como o seu conselheiro privado o clérigo conservador Sheikh Saad al-Shethri, conhecido pelas suas críticas a qualquer movimento reformista no país. Como já é usual, diversas outras posições foram ocupadas pelos filhos do monarca. 

Ainda sendo menos dogmático que o Rei Abdullah, Salman parece despontar como um grande articulador político. A sua amizade com o Emir do Qatar, Sheikh Tamin bin Hamad, já está influenciando na reaproximação da Arábia Saudita com o seu vizinho. Ambos os países têm o wahhabismo como seita oficial e a própria história do Qatar moderno se confunde com a expansão wahhabita na região. Outra estratégia geopolítica parece ser a reconstrução das relações com a Turquia, numa tentativa de minar a crescente influência do Irã no Oriente Médio. Os sauditas temem que a ascensão do xiismo no Bahrein e no Iêmen estimule a revolta da comunidade xiita no reino, historicamente oprimida e perseguida. 

Com o Rei Salman a Arábia Saudita buscará retomar a sua liderança ideológica na região. O seu papel mediador entre o Fatah e o Hamas, que décadas passadas foi de crucial importância, já está sendo retomado. Contudo, é com a Irmandade Muçulmana, no Egito, que a situação é mais complexa. Nas décadas de 50-60, com a perseguição promovida por Gamal Abdel Nasser, milhares de militantes da Irmandade buscaram proteção na Arábia Saudita, sendo bem recebidos pela família real. Todos tinham como ponto de convergência a cosmovisão wahhabita, ainda que a Irmandade Muçulmana adotasse uma perspectiva mais politizada do discurso religioso. No reino, os “Irmãos” se tornaram numa grande força ideológica. Fundaram em 1972 a Assembleia Mundial da Juventude Islâmica e tomaram diversos espaços ocupados pelo discurso wahhabita tradicional. Outros atritos levaram à sua expulsão da Arábia Saudita e após o apoio saudita à deposição de Morsi a Irmandade Muçulmana foi classificada como terrorista por Ryad. 

Contudo, o Rei Salman parece um crítico dessa posição tomada pelo seu antecessor. A demissão de um dos maiores críticos da Irmandade Muçulmana no governo saudita, Suleiman Ab Al-Khail, Ministro dos Assuntos Islâmicos, é um sinal de mudança. Ademais, a ausência do Presidente do Egito no funeral do Rei Abdullah, justamente quando Cairo mais necessita do apoio financeiro de Ryad, já aponta uma mudança no nível das relações. Salman ainda recebeu a visita do Sheikh Rached Ghannouch, o líder do Ennahda, o braço da Irmandade Muçulmana na Tunísia.

A Arábia Saudita do Rei Salman tentará reconstruir os dois radicais paradoxos do wahhabismo: liderança ideológica e progressismo material. Manter boas relações com o ocidente é vital para a conservação de uma economia aquecida. Ao mesmo tempo, reconstruir a sua hegemonia religiosa é resgatar a importância de Ryad como farol do wahhabismo. A aproximação com a Turquia, Qatar e Irmandade Muçulmana, assim como o afastamento dos Emirados Árabes, são sinais de que o novo monarca saudita não pretende ser uma figura secundária no jogo geopolítico e religioso do Oriente Médio e de todo o mundo. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O atentado em Paris e o sequestro do Islã

O atentado em Paris, com a morte dos cartunistas do Charlie Hebdo, reacendeu a discussão sobre o fundamentalismo no Islã. Ainda sendo notório que grande parte da violência religiosa moderna se origina no discurso radical muçulmano, a realidade é mais complexa do que uma rápida tentativa de simplificação. O islamismo é hoje refém do terrorismo e a relação entre a secularização e o fundamentalismo é proporcional. 

O fanatismo islâmico como hoje é conhecido tem a sua origem no wahhabismo, isto é, a reforma concebida por Abd Al-Wahhab no séc. XVIII e que foi transformada em bandeira política pela família Saud. Com o surgimento da Arábia Saudita, a seita wahhabita inicia a sua expansão missionária em todo o mundo muçulmano e também no Ocidente. Mesquitas e centros islâmicos são construídos com a generosidade dos reis da família Saud e se tornam em faróis do anacronismo. Entretanto, este fundamentalismo reformado, que durante o seu surgimento foi condenado como heresia pelas grandes escolas de jurisprudência sunitas, se tornou na força ideológica dos mais variados movimentos terroristas, da Al-Qaeda ao Estado Islâmico. 

O mundo muçulmano, além disso, também se viu invadido pelo secularismo ocidental. Em países como Turquia, por exemplo, o aumento do pensamento liberal europeu fomentou o fortalecimento do discurso radical. Nesse sentido secularistas e fundamentalistas vivem numa relação de retroalimentação. A forte presença política dos wahhabitas – ou “salafistas”, como preferem ser chamados em referência aos “salafis”, as três primeiras gerações de muçulmanos – incrementa a bandeira liberal. Ademais, o crescente apogeu do liberalismo também revigora a paixão pela pureza religiosa “primitiva”.

Na Europa a comunidade islâmica inglesa e francesa tem uma história já secular. A imigração de muçulmanos para esses países tem o seu início durante a conquista das novas colônias. Paquistaneses na Inglaterra e argelinos na França. Contudo, o aumento de imigrantes nas últimas décadas e a expansão do discurso fundamentalista no Ocidente criou o meio mais eficiente para a radicalização dos muçulmanos europeus. Além disso, a secularização cada vez crescente do islamismo ocidental, um fenômeno vivido pelo cristianismo em décadas passadas, reforça a fanatização da identidade do fiel islâmico.

O atentado de Paris possibilita uma dupla reflexão. Por um lado é necessário reconhecer como o sunismo se tornou em refém do discurso wahhabita. A força retórica do fundamentalismo destruiu de modo avassalador as heranças milenares da Civilização Islâmica. Até mesmo o Islã africano, conhecido pelo seu caráter místico, pela simplicidade e pela tolerância, é hoje um epicentro do fanatismo, seja com o Boko Haram na Nigéria ou com a “circuncisão” feminina na Somália. A escola Maliki de jurisprudência, amplamente estabelecida na África, vem sendo sistematicamente substituída pela cosmovisão “salafista”, abrindo as portas para o terror.

Por outro lado, a relação entre a secularização e o Islã é complexa. Na perspectiva muçulmana não existe uma distinção entre o secular e o profano. Muhammad era o Profeta e o líder político. Os seus sucessores detinham a autoridade militar e religiosa. A tentativa de reproduzir no mundo islâmico o ideário político ocidental possibilita um rompimento radical de mentalidade, o que se torna, por sua vez, em combustível para o fundamentalismo. A secularização forçada da Turquia com Attaturk ou da Pérsia com Pahlevi criou mais ressentimento do que unidade social. Os muçulmanos europeus se tornam em alvos privilegiados da sedução terrorista sempre que se veem expostos à desconstrução identitária.

Uma cortina de fumaça é agora lançada. O Islã se torna em alvo principal de análises de conjuntura, mas os verdadeiros responsáveis pela disseminação ideológica do terror, os sauditas, continuam encarnando o papel de aliados no Oriente Médio. A Arábia Saudita acolheu a Irmandade Muçulmana, ajudou na fundação do Talebã. O Catar, que também é wahhabita, recentemente acenou uma aliança com o Hamas. O Rei Faisal foi o grande missionário, construindo mesquitas e enviando sheikhs wahhabitas para todos os cantos do globo. Contudo, a criatura saiu do controle e a própria Arábia Saudita se viu como alvo da Al-Qaeda e pouco querida pelo Estado Islâmico. O estrago já estava feito. O sunismo foi sequestrado e o Islã tradicional se tornou numa caricatura obscena que não foi feita por Charles Hebdo, mas por Wahhab e por Saud.