quarta-feira, 13 de junho de 2018

Cronologia da história política Iraque


1534 - 1918 - Região faz parte do Império Otomano.
1917 - Grã-Bretanha toma Bagdá durante a Primeira Guerra Mundial.
1920 - Liga das Nações aprova o mandato britânico no Iraque, provocando revolta em todo o país.
1921 - Grã-Bretanha nomeia Feisal, filho de Hussein Bin Ali, como rei.
1932 - O mandato termina, o Iraque se torna independente. A Grã-Bretanha mantém bases militares.
1941 - A Grã-Bretanha reocupa o Iraque após o golpe pró-Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.
1958 - A monarquia é derrubada em um golpe militar de esquerda liderado por Abd-al-Karim Qasim e Abdul Salam Arif.
1963 - O primeiro-ministro Qasim é derrubado em um golpe liderado pelo partido pan-árabe Baath. O general Arif, que rompeu com Qasim quatro anos antes, torna-se presidente.
1963 - O governo baathista é derrubado pelo presidente Arif e por um grupo de oficiais.
1968 - Um golpe de Estado baathista coloca Ahmad Hasan al-Bakr no poder.
1972 - O Iraque nacionaliza a Companhia Petrolífera do Iraque.
1974 - O Iraque concede autonomia limitada à região curda.
1979 - Saddam Hussein sucede a Al-Bakr como presidente
1980-1988 - Guerra Irã-Iraque resulta em impasse.
1981 Junho - Ataque aéreo israelense destrói o reator nuclear iraquiano em Osirak, perto de Bagdá.
1988 Março - Iraque ataca a cidade curda de Halabjah com gás venenoso, matando milhares de pessoas.
1990 - O Iraque invade e anexa o Kuwait, provocando o que ficou conhecido como a primeira Guerra do Golfo. Uma campanha militar liderada pelos EUA força o Iraque a se retirar em fevereiro de 1991.
1991 Abril - Iraque submetido a programa de inspeção de armas.

1991 Meados de março/início de abril - populações xiitas do sul e curdas do norte, encorajadas pela derrota do Iraque no Kuwait, rebelam-se, o que levou a uma repressão brutal.
1995 Abril - ONU permite a retomada parcial das exportações de petróleo do Iraque para comprar alimentos e remédios em um programa de petróleo por alimentos.
1998 Outubro - O Iraque encerra a cooperação com a Comissão Especial da ONU para supervisionar a destruição do seu armamento nuclear/biológico
1998 Dezembro - A campanha Desert Fox, dos EUA e da Grã-Bretanha, visa destruir os programas de armas nucleares, químicas e biológicas do Iraque.
2001 Fevereiro - Grã-Bretanha e EUA realizam bombardeios para tentar desabilitar a rede de defesa aérea do Iraque.
2002 Novembro - Inspetores de armas da ONU retornam ao Iraque apoiados por uma resolução da ONU que ameaça haver sérias conseqüências se o Iraque violar o acordo.
2003 Março - A invasão liderada pelos EUA derruba o governo de Saddam Hussein, marca o início de anos de violentos conflitos com diferentes grupos que competem pelo poder.
2003 Julho - O Conselho de Governadores nomeado pelos EUA se reúne pela primeira vez.
2003 Agosto - O caminhão-bomba destrói a sede da ONU em Bagdá, matando o enviado da ONU, Sérgio Vieira de Mello. Um carro-bomba em Najaf mata 125 pessoas, incluindo o líder xiita, o Ayatollah Mohammed Baqr al-Hakim.
2003 Dezembro - Saddam Hussein capturado em Tikrit.
2004 Março - Atentados suicidas atacam as celebrações xiitas em Karbala e Bagdá, matando 140 pessoas.
2004 Abril-Maio - Evidência fotográfica emerge do abuso de prisioneiros iraquianos por tropas dos EUA na prisão de Abu Ghreib em Bagdá.
2004 Junho - Os EUA entregam a soberania ao governo interino liderado pelo primeiro-ministro Iyad Allawi.
2004 Agosto - Luta em Najaf entre as forças dos EUA e a milícia xiita do clérigo Moqtada Sadr.
2004 Novembro - Grande ofensiva liderada pelos EUA contra insurgentes em Falluja.
2005 Janeiro - Eleições para uma Assembléia Nacional de Transição.
2005 Abril - Em meio à crescente violência, o parlamento seleciona o líder curdo Jalal Talabani como presidente. Ibrahim Jaafari, um xiita, é nomeado primeiro-ministro.
2005 Maio em diante - Surto de carros-bomba, explosões e tiroteios
2005 Junho - Massoud Barzani é empossado como presidente regional do Curdistão iraquiano.
2005 Outubro - Os eleitores aprovam uma nova constituição, que visa criar uma democracia federal islâmica.
2005 Dezembro - Os iraquianos votam no primeiro governo e parlamento desde a invasão liderada pelos EUA.
2006 Fevereiro em diante - Um ataque a bomba em um importante santuário xiita em Samarra desencadeia uma onda de violência sectária na qual centenas de pessoas são mortas.
2006 Abril - O recém-reeleito presidente Talabani pede que o candidato xiita Nouri al-Maliki forme um novo governo, encerrando meses de impasse.
2006 Junho - O líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, é morto em um ataque aéreo.
2006 Novembro - Iraque e Síria baathista restauram relações diplomáticas depois de quase um quarto de século.
2006 Dezembro - Saddam Hussein é executado por crimes contra a humanidade.

2007 Janeiro - O presidente dos EUA, George W. Bush, anuncia uma nova estratégia para o Iraque. Milhares de soldados dos EUA serão enviados para reforçar a segurança em Bagdá.
2007 Agosto - Líderes curdos e xiitas formam uma aliança para apoiar o governo do primeiro-ministro Maliki, mas não conseguem atrair líderes sunitas.
2007 Setembro - Controvérsias sobre empresas de segurança privada depois que seguranças da Blackwater supostamente atiraram em civis em Bagdá, matando 17 pessoas.
2007 Outubro - O número de mortes violentas de civis e militares continua a cair, assim como a freqüência de ataques com mísseis
2007 Dezembro - A Grã-Bretanha entrega a segurança da província de Basra às forças iraquianas, marcando efetivamente o fim de quase cinco anos de controle britânico do sul do Iraque.
2008 Janeiro - O Parlamento aprova a legislação que permite que ex-funcionários do partido Baath de Saddam Hussein retornem à vida pública.
2008 Março - O primeiro-ministro Maliki ordena a repressão contra a milícia em Basra, provocando batalhas campais contra o Exército Mehdi de Moqtada Sadr.
2008 Setembro - Forças dos EUA entregam o controle da província de Anbar, no oeste do país - outrora reduto da Al-Qaeda - para o governo iraquiano. É a primeira província sunita a ser devolvida ao governo liderado pelos xiitas.
2008 Novembro - Parlamento aprova um pacto de segurança com os Estados Unidos, sob o qual todas as tropas americanas devem deixar o país até o final de 2011.
2009 Junho - As tropas dos EUA se retiram das cidades do Iraque, seis anos após a invasão, tendo formalmente transferido as tarefas de segurança para as novas forças iraquianas.
2010 março - Eleições parlamentares. Nove meses se passam antes que um novo governo seja aprovado.
2010 Agosto - Sete anos após a invasão liderada pelos EUA, a última brigada de combate dos EUA deixa o Iraque.

2010 outubro - Igreja em Bagdá invadida por militantes. Mais de 50 pessoas morrem no que é descrito como o pior ataque a atingir os cristãos do Iraque nos tempos modernos.
2010 Novembro/Dezembro - O Parlamento se reune após um longo período de atraso, re-nomeia Jalal Talabani como presidente e Nouri al-Maliki como primeiro-ministro.
2011 Janeiro - O clérigo xiita Moqtada Sadr retorna depois de 4 anos de exílio auto-imposto no Irã.
2011 Dezembro - EUA conclui retirada de tropas. O governo da unidade enfrenta desafios. Mandado de prisão emitido contra o vice-presidente Tariq al-Hashemi, um importante político sunita. O bloco sunita boicota o parlamento e o gabinete.
2012 março - Cúpula da Liga Árabe em Bagdá. É a primeira grande cúpula a ser realizada no Iraque desde a queda de Saddam Hussein. Uma onda de ataques pré-cúpula mata dezenas de pessoas.
2012 Abril - As exportações de petróleo do Curdistão iraquiano foram suspensas pelo governo central por causa de contratos com empresas estrangeiras.
2012 - O Iraque cancela um acordo de US $ 4,2 bilhões para comprar armas da Rússia por causa de preocupações com a alegada corrupção dentro do governo iraquiano. A compra, assinada em outubro, teria feito da Rússia o segundo maior fornecedor de armas do país, depois dos EUA. Moscou foi o principal fornecedor de armas nos tempos de Saddam.
2012 Dezembro - Presidente Jalal Talabani sofre um derrame. Ele é tratado na Alemanha.
2013 Abril - A insurgência sunita se intensifica, com níveis de violência que coincidem com os de 2008. 
2013 Setembro - Uma série de bombardeios atinge a capital do Curdistão, Irbil, no primeiro ataque deste tipo desde 2007. O grupo do Estado Islâmico do Iraque diz que está respondendo ao apoio dos curdos iraquianos à ofensiva antijihadista promovida pelos curdos sírios.
2013 Outubro - Governo diz que outubro é o mês mais mortífero desde abril de 2008, com 900 mortos. Até o final do ano, a ONU estima que o número de mortos civis em 2013 seja de 7,157 - um aumento dramático.
2014 Janeiro - Combatentes islâmicos se infiltram em Falluja e Ramadi depois de meses de violência crescente na província de Anbar, principalmente sunita. Forças do governo recapturam Ramadi, mas enfrentam rebeldes entrincheirados em Falluja.
2014 abril - A coalizão do primeiro-ministro Al-Maliki ganha nas primeiras eleições parlamentares desde 2011, mas fica aquém da maioria.
2014 Junho-setembro - O Estado islâmico do Iraque e do Levante deixa a província de Anbar para tomar a segunda cidade de Mossul e outras cidades-chave do Iraque. Dezenas de milhares fogem em meio a atrocidades. Forças curdas, dos EUA e do Irã ajudam o governo a repelir ataques.
2014 Setembro - O político xiita Haider al-Abad forma um governo de base ampla, incluindo árabes sunitas e curdos. A liderança curda concorda em colocar o referendo da independência em espera.
2014 Dezembro - O governo iraquiano e a liderança da região curda assinam um acordo sobre a partilha da riqueza petrolífera e dos recursos militares do Iraque, em meio a esperanças de que o acordo ajude a reunir o país diante da ameaça comum representada pelo Estado Islâmico.
2015 Março - Estado Islâmico destrói sítios arqueológicos assírios de Nimrud e Hatra.
2015-2016 - O governo e as forças do Estado Islâmico lutam pelo controle da província de Tikrit e Anbar.
2016 Abril - Os partidários do clérigo Moqtada al-Sadr atacam o edifício do parlamento exigindo novo governo para combater a corrupção e acabar com a alocação de postos do governo ao longo de linhas sectárias.
2016 novembro - O Parlamento reconhece a milícia das Unidades de Mobilização Popular xiita (UGP) como parte das forças armadas com pleno status legal.
2017 Setembro - Recupera a independência em referendo ilegal encenado pelo governo regional curdo. Bagdá impõe medidas punitivas.
2017 Novembro - Forças do governo com aliados xiitas e curdos expulsam o Estado Islâmico do Iraque, exceto alguns poucos redutos. A ofensiva do exército rechaça as forças curdas em um movimento que visa deter o governo regional em direção a um Curdistão independente.
2018 maio - Eleições parlamentares. O bloco político do clérigo xiita Moqtada al-Sadr ganha mais votos.
2018 Junho - Irã e Turquia cortaram a água do Iraque.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Isma'ilism and the belief in the superiority of the Imamate

Aga Khan IV
By Pedro Ravazzano

Shi'ism is divided into two branches, which, in turn, differ in profound theological questions. The main point of distinction is in the balance (or not) maintained between shari'ah and haqiqah, prophecy and imamate. When one conceives of an associated and consequent relationship between the zahir and the batin, between exoterism and esoterism, what we have is the Duodeciman Shi'ism, which represents almost the whole. However, if the batin is raised to the point where it obliterates the zahir, and as a result, the imamate takes precedence over prophecy, Isma'ilism arises, especially in its reformed ramifications, giving rise to a multiplicity of sects.

Isma'ilism grew to such a degree that it became the largest branch of Shiite, culminating as a political power with the Fatimid Caliphate in the tenth and twelfth centuries. They believed in the unity of God, as well as at the end of the divine revelation with Muhammad. Ismaelites and Duodecimans (orthodox Shiites) accept the same initial Imams as the descendants of Muhammad through their daughter Fatimah and therefore share much of their history. Both groups see the family of Muhammad (Ahl al-Bayt) as divinely chosen, infallible (ismah) and led by God to lead the Islamic community (Ummah), a belief that sets them apart from most of Sunni Islam.

After the death of Muhammad ibn Isma'il in the 8th century AD, the teachings of Isma'ilism were further transformed into the belief system as it is known today, with an explicit focus on the deeper and esoteric meaning of the Islamic religion. With the eventual development of the Duodeciman Shiism, Isma'ilism dedicated itself to the mystical path and the nature of God, with the "Imam of Time", representing the manifestation of esoteric truth and intelligible reality, in a mixture of Neoplatonism and Islamic mysticism. Unlike the Duodeciman Shiism, however, who understood the dual relationship between the exoteric and the esoteric, the Ismailites, in the end, emphasized the superiority of the occult over the apparent. As a consequence, Imam Ali was raised to a higher status than Prophet Muhammad.

Thus, since walayah is above the prophecy from which it originates, it is concluded that the person of Wali - ie the Imam - takes precedence over the prophet, and the imamate always has and always takes precedence over the prophetic mission. What Duodeciman Shiism sees as the outcome of an eschatological perspective is realized "in the present" by Isma'ilism, through an anticipation of eschatology, which is a revolt of the Spirit against all slavery, since the Imam of Time, as an entity superior to prophecy, is alive. For Isma'ilism, the door of prophecy is always open, so it is understood its rapid process of metamorphosis throughout history.

Ja'far al-Sadiq, Sixth Imam, was a direct descendant of the Messenger of Islam. Isma'ilism arises through the followers of his son, Isma'il ibn Jafar and his successors, reaching to Ḥussein ibn Amad, father of Abdullah al-Mahdi Billah, founder of the Fatimid Caliphate. After the death of the eighth Caliph Fatimid, Al-Mustansir Billah, a complicated succession crisis sets in. His eldest son, Nizar, was deposed by his brother Al-Musta'li. From these conflicts will arise two divisions that still exist in Isma'ilism: Nizarian Isma'ilism and Mustalism Isma'ilism, the latter divided again with the succession of Al-Musta'li, between the followers of Al-Hafiz and At-Tayyib. The followers of Nizar took refuge within the empire and from this exodus came the Assassin sect (al-Ḥashashin), founded by Hassan-i Sabbah, a Nizarian missionary.

Nizarian Isma'ilism, born with the followers of Nizar, son of the Fatimid Caliph, descendants of Imam Isma'il, the fifth generation of descendants of the Prophet Muhammad through his daughter Fatima, has in its maximum leader the Aga Khan IV. The major difference from Nizarian Isma'ilism to other shia ramifications, such as the Druzes, Alawites, and even the Baha'i Faith, for example, is that they do not yet believe in the existence of the occult Imam. The succession remains alive, now incarnated in Aga Khan IV, the current Imam of Nizarian Isma'ilism.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Wait and Mystic: The esoteric meaning of Mahdist belief in Shi'ism

By Pedro Ravazzano

To reflect on the return of Imam al-Mahdi is to speak about the outcome of the revelatory dynamic in its deepest mystical sense. The End of Time, with the manifestation of the Expected, is also formed by those two dimensions that are present throughout the Shiite religious and spiritual structure: the apparent-exoteric (zahir) and the occult-esoteric (batin). On the one hand, the collective plan, universal and external, that will be seen in historical movements and, on the other, the internal dimension, interpersonally individual, acting in the hearts of the faithful. It is noted that just as the cycle of prophecy culminates in the Seal of the Prophets, Walayah, which runs parallel to the prophecy from period to period, has a double seal in the Muhammadan revelation: the seal of the general Walayah in the person of the first Imam Ali ibn Abu Talib and the Seal of Muhammadian, Walayah the esoteric aspect of earlier esotericism, in the person of the twelfth Imam, Muhammad ibn Hasan al-Mahdi.

Imam al-Mahdi, son of Imam Hassan al-Askari, from birth and childhood, had a life surrounded by miraculous and fantastic events. One of the most interesting symbolic aspects in his family history, which often goes unnoticed, is about the origin of his mother. According to some reports, she would have been a black slave, probably from Nubia. Other references, however, present her as the granddaughter of the Byzantine emperor, descendant of the apostle Simon. According to this version, the Byzantine princess was captured and sold as a slave in Baghdad, arriving at the entourage of Hakimah Khatun, daughter of the ninth Imam, Muhammad al- Jawad. Tradition says that shortly before being captured, the princess, whose name at the time was Maliki Bash Yashika, found herself in a dream with Mary, the mother of Jesus, and with the Lady Fatima. They both urged her to convert to Islam and allow herself to be captured by Muslim troops, for she was destined for a glorious life.

The most interesting points in the maternal origin of Imam al-Mahdi are those that seem to highlight a symbolic substrate of unequaled weight. As part of the dual structure of Shiism, it is possible to see these characteristic notes in Lady Narjis as part of a referential framework. She, while Greek (or Roman) and Christian, before her conversion, grants a character of full universality to her son. He, as the Expected of all peoples, has already overcome the ethnic and religious barriers of his family origin, carrying the blood of the Messenger of Islam and the Apostles of Jesus, the Arabs of the deserts and the Byzantines of the cities. This generational duality is of singular symbolic relevance and connects deeply with the Mahdi's charism in its restorative mission.

In Shiite perspective, the term "Imam" refers to the person who contains within himself the "Muhammadan Light" (al-nur al-mahammadi) which was transmitted through Fatima, the daughter of the Prophet, and Ali the first Imam, to their offspring, ending with the Hidden Imam, end and completeness of the Cosmic Imam in its integral revelatory manifestation. As a result of the presence of this light, the Imam is considered "sinless" (ma'sum) and possesses perfect knowledge of the esoteric and exoteric order. The Imam, as the vehicle of the revelation of God, is the mystical perpetuation of the Divine Being on earth. Therefore, commenting on verse 39:69 - "And the earth shall shine with the light of his Lord" - Imam Ja'far as-Sadiq said, "the Lord of the Earth is the Imam of the Earth." The existence of Imam al-Mahdi is the validation, on the part of Shi'ism, of the spiritual heart of the world. Allamah Tabataba'i, in "Shi'ite Islam," recalled that even before its eschatological appearance, the Imam Expected already exerts this mystical force on the life of the believers, acting as the transcendent pole to which all those who seek God converge.
"The duty of the Imam is not only the formal explanation of the religious sciences and exoteric guidance of the people. In the same way that he has the duty of guiding men outwardly, the Imam also bears the function of walayat and the esoteric guidance of men. It is he who directs man’s spiritual life and orients the inner aspect of human action toward God. Clearly, his physical presence or absence has no effecting this matter. The Imam watches over men inwardly and is in communion with the soul and spirit of men even if he be hidden from their physical eyes. His existence is always necessary even if the time has not yet arrived for his outward appearance and the universal reconstruction that he is to bring about."
The advent of the Imam presupposes the elevation of the hearts of men. In one respect, the faith of his followers depends on the progressive fulfillment of this personal Parousia, through its own act of being. The believer who discovers the Light of the Imam of Time and the initiation he bestows also returns to the origin, given that, in a mystical sense, he remakes the primordial initiation when, in the World of Particles, his preexisting entity was initiated in the divine secrets by the luminous form of the archetypal Imam. In this sense, the collective dimension of Mahdi's messianism, emphatically marked by violence and the battle against evil, actualizes the primordial battle between the forces of intelligence and ignorance. Trapped since the dawn of creation, this struggle writes the history of humanity, since it has repercussions from time to time in the conflict that places the Imams and his initiates against the forces of darkness and counter-initiation.

Through spiritual restoration, through a universal initiation, lifting the veil that separates the exoteric from the esoteric, the Qa'im cyclically rescues the world, returning to this original "moment" when only those full of wisdom inhabited the universe. In this context, the Mahdi eschatological battle is the ultimate in this endless cosmic war that will seal the ultimate victory of the Intelligence forces over those of Ignorance. This victory thus constitutes the return to the origin, since overcoming the Ignorance and its Armies, the Mahdi recovers the world to its original state. In this sense, Islamic eschatology departs from the Christian notion, for example. While in the Muslim worldview there is a cyclical process of resumption of the original sense of creation and existence, Christianity understands the end of time within an evolutionary and progressive framework.

The universal sign of the return of the Expected is the widespread invasion of the earth by Evil and victory over the Good, thus requiring in some way the manifestation of the eschatological Savior, the source of hope and redemption. Obviously, what characterizes the world immediately before the coming of the Mahdi is the loss of the meaning of the sacred, the obliteration of everything that connects man to God and his neighbor, a general failure to observe religious precepts and moral duties, human values. As a historical reason, it may be pointed out that, first, the Expected returns to revenge for the death of Imam Hussein.

As Henry Corbin observes, there is a curious convergence between the way Shi'ism conceives of Imam al-Mahdi and how the action of the Christian Paraclete is especially understood by some movements, such as the Joaquimites of the 16th century, followers of the heretical monk Joachim of Fiore. Within both notions, the story was directed by a paracletical idea, inspiring modes of thought and dialectical dynamics with views to the kingdom of the "Holy Spirit". Islam along with other religions, especially Judaism and Christianity, distorted and abandoned by their followers, will be graced with the reestablishment of their original integrity. Men will recover their Sacred Intelligence, the "inner imam" that dwells within human beings. As the light of the Imam is the heart of believers, the light of al-Mahdi will resonate directly in this luminous organ of sacred perception reigning in the heart. Thus, as a result of the awakening of spiritual consciousness, religions will be restored and freed from their imperfections. They will no longer be mere exoteric structures, but esoteric spiritual teachings. This universal initiation of the Pole of the Poles is the liberation of the hearts and the bridge by which of all the human beings will reach the fullness of the Truth.

The Mahdi will provide the believers of each religion with the hermeneutics of the occult meaning of their Sacred Scripture. The fundamental idea is that the expected Imam will bring with it neither a new revealed Book nor a new Law, but will reveal the hidden meaning of all Revelations. He, as the Integral Man, the esoteric aspect of eternal reality, is the revelation of the Revelations. The Parousia of the Imam Expected means a full anthropological revelation that unfolds within the man who lives in the Spirit. The Qa'im returns to restore the lost meaning of the sacred, first rescuing Islam in its original purity and integrity. It is understood, therefore, that without an Imam there is no religion and no esotericism, exoterism loses its direction, its purpose, as well as its meaning. That is why, in the end, the battle will mark the ultimate victory of the "believers" against their "enemies" and the definitive and universal establishment of the full religion.

Another unique aspect of the Mahdist Shia belief is that this, unlike the traditional eschatological "waiting" of the most varied religions, is not done on an absent expectation. The Expected, al-Mahdi, is already known and ceased to be a theological doctrine, as the Jewish Messiah. He exists and is loved by his followers. The Shiite expectation thus becomes something full of life. The Mahdi share the hopes of which believers already participate. As a witness, the Expect becomes a real force of spiritual vivacity for the faithful. This belief makes Shi'ism a unique religious notion among the most varied manifestations of the experience of faith. Ayatollah Muhammad Baqir al-Sadr, in his text "An Inquiry Concerning", states:
"Thus, al-Mahdi (peace be upon him) is no longer an idea waiting to be materialized nor a prophecy that needs to be substantiated, but a living reality and a particular person, living among us in flesh and blood, who is sharing our hopes, suffering, sorrows and joys, actually witnessing all the sufferings, sadness and transgression that exist on the surface of the earth, who is affected with all this from near or far, who is waiting for the appropriate moment when he can stretch his hands to every oppressed and needy person and eradicate the tyrants."
Shiite theology is the only one that recognizes the preservation, maintenance and perpetuation of the spiritual direction between man and God, through the charismatic force of the Imamate. For Catholics, for example, magisterial authority is an institution wanted by God, but not an emanation of His Being. However, for the Shiites, the eternal Walayah incarnated in the figure of the Twelve Imams is the continuation of the esoteric dynamics of Muhammadan prophetism, in a spiritual dimension far beyond institutional stability. It may be said in conclusion that Shiite Islam is the only religion that recognizes that the heart of its mystical tenacity still beats a carnal breast in this God-created land. Ayatollah Mohammad Sadeqi Tehrani, commenting on Henry Corbin's relationship with Allamah Tabataba'i in "80 Stories from the Life of Allama Tabatabai," said:
“Corbin was of the opinion that because Shī’ism believes in the existence of a living Imām, it is the only religious sect that it is still alive. This is because the belief and reliance on Hazrat Mahdī (a) will always remain established. The Jewish faith died with the death of Hazrat Mūsa (a), the Christian one with the ascension of Hazrat Isa (a). All other sects of Islām also came to a dead-end with the death of Hazrat Muhammad (s), whereas Shī’ism maintained that the authority, Imām and possessor of Wilāyat who is connected with the spiritual world and receives Divine guidance is alive, and therefore Shī’ism itself remained alive as a religion”
Just as Prophet Muhammad, as the Seal of Prophecy, was the "mazhar" (epiphany) of prophecy in the absolute sense, the first Imam, the "wasi" or heir of Muhammad, was the "mazhar" and seal of "walayah" also in its absolute sense. The partial manifestations of the "walayah" began with Seth, son of Adam, and will culminate with the Madhi - in the present, the hidden Imam - as Seal of the particular walayah during the final period of prophecy. It is worth mentioning that the twelve imams, as a pleromatic unity, form the same light and the same essence. It is understood, therefore, that the Muhammadan Imamate is the manifestation of the esoteric aspect of the eternal prophetic Reality. Thus, the belief in this eschatological return has a historical dimension, of restructuring justice and order. On the other hand, the reappearance of the Mahdi carries in its essence the ransom of the mystical sense of human existence itself. The Expected will bring with him universal initiation, capable of reviving spiritual consciousness. The Mahdi belief is what makes the hope of the future throb in the heart of Shi'ism. Not just a wait for human and earthly redemption, but rather the expectation of the resumption of creational integrity in its original depth.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O Islamismo indígena do México


O México tem sido um lugar de destaque no desenvolvimento de uma experiência comunitária islâmica em um contexto autóctone. Vinte anos atrás, um grupo de famílias de tzotziles chamulas, que moravam na cidade de San Cristóbal de Las Casas, em Chiapas, abraçou o Islamismo. A nação mexicana tem profundos vínculos históricos com o Cristianismo, de uma forma muito mais acentuada que o Brasil. A devoção mariana e a piedade popular são partes integrais da identidade do seu povo. Fazer-se muçulmano é deixar o seu lugar cultural e reconstruir a sua existência identitária. O que se vê em Chiapas é um islamismo quase exclusivamente "indígena", que nos últimos vinte anos foi integrado ao tecido sociocultural das comunidades tzotzil e tzeltal. A origem da presença islâmica, no entanto, é uma intervenção vinda do exterior, em 1994. Ao que parece, apesar de todas as adversidades, alguns padrões históricos se mantêm.

A chegada do Islã em Chiapas está associado ao início da revolta indígena zapatista. O EZLN ganhou fama internacional e logo se transformou em modelo para os movimentos de libertação e para o progressismo europeu. Nesse contexto, o Movimento Mundial Murabitun (MMM), um grupo de muçulmanos ocidentais fundado pelo sheik Abdalqadir as-Sufi, envia missionários para o sul do México, com o objetivo de fazer contato com os rebeldes zapatistas e em seguida direcioná-los ao Islã. Da Espanha veio Aureliano Pérez Yruela, acompanhado pelo mexicano Sidi Ahmed.

Inicialmente focados nos líderes zapatistas, os missionários muçulmanos tiveram encontros privados com alguns membros do movimento e enviaram mensagens ao Subcomandante Marcos, líder da guerrilha. O conteúdo era explícito: o Islã é a religião que permite a verdadeira e única libertação. Também chegaram a oferecer dinheiro e armas caso os zapatistas se levantassem contra o estado mexicano ao nome da fé muçulmana.
"Nós, o Movimento Mundial Murabitun, convidamos a se sentarem com representantes dos grandes povos da Chechênia, Caxemira, Euzkalherria, que hoje estão na vanguarda da luta contra a tirânica ordem bancária mundial (...) a luta pela libertação dos povos deve ser feita sob a bandeira do Islã transformador, seguindo a mensagem revelada que Muhammad nos trouxe, o último dos profetas, o libertador da humanidade (...) Vitória ou Morte "
Os missionários se confrotraram com o pouco interesse dos guerrilheiros. Neste cenário de desilusão, encontraram uma resposta espontânea junto aos indígenas, que se abriram ao Islamismo de uma maneira natural. As conversões surgiam entre aqueles povos mais simples e iletrados. Qual a surpresa dos espanhóis ao notar que não seriam os zapatistas os grandes promotores do Islamismo, mas os índios de Chiapas.

Os missionários logo organizaram um pequeno grupo e nomeou a um nativo como o Imam do recém criado núcleo islâmico, assentando as bases para a construção da comunidade Murabitun em San Cristóbal de Las Casas. Em 1998, havia muçulmanos em vários bairros, La Hormiga, Nueva Esperanza, Palestina, Revolução Mexicana, La Selva Natividad e El Molino de los Arcos. A partir desse grupo original, fundado pelo Movimento Mundial Murabitun (MMM), mais três comunidades foram criadas. A comunidade sunita Al Kautzar e a Comunidade Ahmadiyya. Na cidade de Teopisca, se estabelece uma comunidade vinculada à escola sufi Naqsbandi.

Nota-se, portanto, que o Islamismo desenvolvido em Chiapas, inicialmente sob a experiência do Movimento Murabitun, tomou proporções ainda maiores. Aquela comunidade inicial se fragmentou em outros grupos sunitas cada vez mais organizados. A identidade indígena é mantida e o Islã toma feições autóctones, sem abrir mão de sua identidade tradicional.  O crescimento do Islamismo nestes grupos indígenas também deve-se às condições de insegurança, pobreza e marginalização em que vivem muitos nativos, que vêem no Islã uma forma de resgate social e a possibilidade de um futuro melhor para si e para seus povos. Apesar da recusa dos Zapatistas, a fé muçulmana encontrou nos índios de Chiapas a melhor e mais bela resposta.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Herdeiros do Imamato: Sobre a função do clero após a Grande Ocultação do Imam al-Mahdi

Hedeiros do Imamato: Sobre a função do clero após a Grande Ocultação do Imam al-Mahdi

Por Pedro Ravazzano

O Xiismo, ao longo do seu processo histórico de desenvolvimento como realidade social, sempre foi uma vertente minoritária no mundo islâmico. Isto, em certo aspecto, refletia a própria auto-compreensão teológica, que entendia que os verdadeiros crentes eram aqueles que compunham um grupo de verdadeiros iniciados. Contudo, desde o alvorecer do Império Safávida, na Pérsia, no séc. XVI, os xiitas deixaram de ser uma comunidade periférica e perseguida, como ocorria dentro dos califados Omíada e Abássida, para se transformar em uma religião institucional. Esta estabilidade política permitiu um florescimento inigualável de sua teologia e a possibilidade de refletir sobre o papel do clero na estruturação da organização social. Ao fundo, estava uma reflexão doutrinal extremamente sensível ao xiismo: a autoridade religiosa no vazio deixado após a Grande Oculturação do Imam al-Mahdi.

Neste contexto, inicia-se a compreensão de que os jurisprudentes xiitas (fuqaha, plural de faqih) são os verdadeiros sucessores do Imam al-Mahdi, após o seu desaparecimento, em 941. Assim, o clero seria uma realidade estrutural querida por Deus, na medida em que, por meio de uma linha descendente, iniciada com o Profeta Muhammad e transmitida ao Imam Ali, se trasformam em receptores do saber revelado. Séculos depois, Imam Khomeini, tendo como base este pressuposto teológico, afirmará que além de interpretar a fé e emendar as leis, ao clero também se incluía o papel de manter o poder executivo em uma sociedade muçulmana. A natureza do argumento é muito semelhante à justificativa de Platão para o domínio do Filósofo-Rei na República. Um Estado Islâmico, concluiu ele, deve ser governado pela “tutela do jurisprudente” (welayat-e faqih)

Após a “Gayba”, termo utilizado para se referir à ocultação do Imam al-Mahdi, a questão da legitimidade do poder político e da orientação espiritual da comunidade de crentes na ausência imâmica passou a implicar, sistematicamente, em um papel gradualmente crescente do clero. Estes, com a fundamentação reflexiva-teológica, passaram a, de facto, assumir as prerrogativas do Imam Oculto. Historicamente, a consolidação da instituição religiosa iniciou com a ascensão do regime safávida (1501-1732), dando forma a uma relação simbiótica entre a coroa e o clero. Enquanto os Xás se beneficiavam do apoio dos ulemás como meio para legitimar o seu governo, em troca, o clero fortaleceu a sua posição religiosa e social sob o patrocínio dos Xás. O fim da dinastia safávida se transformou na grande libertação teológica xiita, permitindo um novo florescimento doutrinal através de uma dialética doutrinal viva.

Com a ausência do Imam – gayba – após a Grande Oculturação, iniciou-se um processo de reflexão que entendia que  os juristas foram delegados  - niyaba - como uma classe, para executar certas funções normalmente reservadas ao Imamato.  Antes da Grande Ocultação, houve um período de cerca de 70 anos nos quais quatro deputados agiram consecutivamente como representantes do Imam al-Mahdi, atuando como intermediários entre ele e a comunidade de devotos. Essa designação, somada aos relatos do Profeta Muhammad e dos Imames precedentes, reforçaram a noção de que os ulemás formam um corpo identitário. No livro "Islam and Revolution: Writings and Declarations of Imam Khomeini", Ayatollah Khomeini comenta:
"O faqih é, por definição, letrado em questões relativas à função do juiz, uma vez que o termo faqih é aplicado àquele que é instruído não apenas nas leis e procedimentos judiciais do Islã, mas também nas doutrinas, instituições e ética da fé - o faqih é, em suma, uma especialista religioso no sentido pleno da palavra. Se, além disso, o faqih for justo, ele terá duas das qualificações necessárias. A terceira qualificação é que ele deve ser imam, no sentido de líder. (...) Já que os fuqaha não são Profetas, eles devem ser os legatários ou sucessores dos Profetas. Portanto, chegamos à conclusão de que o faqih é o legatário do Mensageiro Mais Nobre, e além disso, durante a Ocultação do Imam, ele é o líder dos muçulmanos e o chefe do comunidade."
Estas discussões teológicas já estavam nos textos de teólogos medievais, como Muhaqqiq al –Hilli (1205 – 1277), que em seu Ma'arij ul-Usul, escrito no campo de usul al-fiqh (metodologia jurisprudencial), enfatizava a centralidade do jurista – mujtahid - durante a ausência do Imam al-Mahdi, como o único e exclusivo meio para obter uma compreensão adequada do Alcorão, da Tradição e da Lei.  A aportação teológica feita por Al-Muhaqqiq al-Karaki (1534) e Al-Shahid al-Thani (1505 - 1559) também compõe esse movimento de desenvolvimento doutrinal. O amadurecimento reflexivo, principalmente nos séculos seguintes, gerará a consolidação de linhas de pensamento com características e posicionamentos distintos.

Duas correntes teológicas se opuseram no tocante ao papel do clero após a Grande Ocultução do Imam al-Mahdi. A escola Akhbari considerava que, de fato, o fim da autoridade visível do Imamato era de pouca ou nenhuma importância, já que havia um conhecimento legado à comunidade suficientemente rico para manter a vivacidade da Religião. Segundo os seus adeptos, o itjihad, isto é, a inferência de normas religiosas, deveria ser feito tendo como base o Alcorão, por um lado, e as declarações do Profeta e dos Imams, por outro. Em oposição, a corrente Usuli entendia que, tendo em vista a complexidade da história, essas duas fontes deveriam ser interpretadas e compreendias à luz do raciocínio especulativo – aql – e do consenso religioso, para que, assim, pudessem elaborar a lei islâmica. Ainda que não buscasse nenhum respaldo de infalibilidade, como outorgado aos Imames, a vertente Usuli afirmava que o clero, como parte de um só corpo institucional, agia como figuração legítima do Imam Oculto, formulando a doutrina da representação geral - niyaba amma. Reivindicavam, pois, uma autoridade carismática herdada e exercida em nome do Imam al-Mahdi, culminando com o total estabelecimento do Usulismo no séc. XVIII. Ayatollah Amuli, em seu livro “The Regency of the Magisterium”, considerado um dos melhores comentários à teoria de Imam Khomeini, diz:
“No tempo da Ocultação do Senhor da Era, durante a qual à comunidade de muçulmanos é negada a baraka de sua presença física, a necessidade da perpetuidade do Islã exige a elucidação das ordenanças sagradas de nossa fé e sua efetiva implementação e desempenho asseguradas durante a Ocultação. Esses dois deveres são da responsabilidade dos Delegados do Senhor da Era e dos justos e sábios foqaha que, por um lado, explicam as ordenanças gerais da lei sagrada com seus árduos e constantes esforços de itjihad em todos os assuntos possíveis, inclusive nas questões maiss emergentes para as quais não há precedentes na lei e, por outro, continuar as funções proféticas e imâmicas de governança e administração da comunidade de muçulmanos, implementando essas mesmas ordenanças deduzidas.”
Com a ascensão do Império Afshárida e em seguida com a dinastia Qajar, o xiismo se enriqueceu com a renovação do clero. As discussões teológicas eram efervescentes, destacando a consolidação dos ulemás como um bloco sólido e coeso no exercício do papel institucional, agindo como representantes do Imam Oculto. A nova reflexão teológica, feita por nomes que conseguiram aproveitar o vazio de orfandade deixado pela queda imperial, foi de importância crucial para o amadurecimento do xiismo. Destaca-se, por exemplo, a Muhammad Baqir Behbahani (1706–1791), amplamente considerado como o fundador ou restaurador da escola Usuli, tendo um papel fundamental no estabelecimento do ordenamento doutrinal. Mulla Ahmad Naraqi (1771-1829), seu discípulo, desenvolveu a teoria que assentou o papel dos fuqaha (juristas) como os soberanos e guardiões atuantes da religião e da comunidade durante a ocultação do Imam al-Mahdi. A sua audaciosa novidade foi estenteder essa autoridade clerical até o ponto de abarcar a esfera política, partindo de um silogismo relativamente simples: o governante tinha autoridade sobre o povo e o faqih tinha autoridade sobre o governante.

Sheik Murtaza Ansari (1799-1864), por sua vez, é reconhecido como o primeiro marja'e-taqlid-e-kull, isto é, a fonte suprema de emulação. Ele foi o responsável pela organização de uma liderança clerical centralizada dentro do xiismo. Também se tornou célebre por introduzir o conceito de Welayat-e-Faqih (tutela do jurista), embora distintamente da forma coroada, século depois, por Imam Khomeini. A enorme pluralidade clerical xiita, através da evolução teológica, passou por uma profunda transformação. De uma autoridade coletiva e, em certo aspecto, difusa, para regências centralizadas com um profundo carisma pessoal de antiguidade. Entretanto, como destaca Ayatollah Khomeini, a função é distinta do status:
"Quando dizemos que depois da Ocultação, o justo faqih tem a mesma autoridade que o mais Nobre Mensageiro e os Imames, não suponha que o status do faqih é idêntico ao dos Imames e ao do Profeta. Aqui não estamos falando de status, mas sim de função."
A centralidade clerical do xiismo permite com que muitos estudiosos façam um paralelo com a estrutura hierárquica católica. Dentro da comosvisão tradicional cristã, com a ascensão de Cristo, a Igreja, por meio da sucessão apostólica encarnada no episcopado, assume a autoridade de mando e ensinamento. Já no Islamismo xiita, depois da Grande Ocultução do Imam al-Mahdi, que continuava o ministério carismático do Profeta Muhammad,  a autoridade é consolidada no já existente Corão e na Tradição profética e imânica. No catolicismo, a autoridade divinamente apontado é o Bispo e os sacerdotes em comunhão com ele. No xiismo, os Imames são uma extensão da profecia em sua dimensão esotérica e o clero, ainda não sendo diretamente eleito por Deus, emerge como poder magisterial capaz de interpretar as fontes de autoridade.          

Com a consolidação do Usilismo, surge uma segunda reflexão, também confrotada com duas alas distintas. Por um lado, os tradicionalistas, que, ao mesmo tempo em que admitiam a autoridade clerical, colocavam limites práticos na implementação de ensinamentos sociais e políticos na ausência do Imam. Foram muitas vezes acusados de apatia e aliança com o establishment imperial, já que atuaram em prol da estabilidade institucional durante a Revolução Constitucional do Irã, em 1905, e com a ascensão da Dinastia Pahlevi. Os seus críticos, por outro lado, enfatizavam o papel do clero como instrumento de mudança social em uma sociedade islâmica, dando forma às teorias revolucionária de Imam Khomeini em sua concepção do “wilayat al faqih”.

Concluí-se, portanto, que ao crer no caráter sucessório do clero, os teológos xiitas respaldaram a autoridade religiosa de uma forma muito mais centralizado do que, por exemplo, os muçulmanos sunitas.  Imam Khomeini, tendo como base este pressuposto usilista, desenvolverá o argumento para afirmar que estes mesmos fuqaha são qualificados e têm o direito de formar, estabelecer e administrar o governo como reflexo da incumbência representativa deixada pelo Imam al-Mahdi. Na ausência dos imames infalíveis, o conhecimento e o julgamento são considerados como as duas funções essenciais de um ulemá. Este espírito mahdiano, encarnado na missão profética do corpo religioso institucional, assentará as bases teóricas sobre as quais se fundará a República Islâmica do Irã.

sábado, 14 de abril de 2018

Introdução teológica à doutrina alauíta (nusairita)

Por Rafael Daher
1. Introdução

Para que o sistema religioso Nusairita seja tratado de forma correta, é preciso que primeiro tenhamos em mente alguns pontos fundamentais. Em primeiro lugar, é preciso saber que o sistema religioso nusairita é sincrético. Desta forma, não é apenas um cisma xiita ocasionado quando Abu Shuayb Moḥammed ibn Nuṣayr al-Numayr se proclamou o Bab (Porta) de Al-Askari. Além disso, ao longo do tempo, vários grupos nusairitas passaram a formar suas próprias doutrinas, todas também sincréticas, que absorveram diversas formas religiosas da região e também da Grécia e da Índia. Portanto, não é possível tratá-los como um mero cisma do xiismo, mas como grupos separados do Islam.

Entretanto, apesar do caráter sincrético em doutrina, o modo de vida dos grupos nusairitas é o antigo modo de vida dos Patriarcas e antigos povos da região. Pelo isolacionismo de seus grupos, acabaram retendo antigas práticas e costumes, sendo mais puros em costumes que todos os outros habitantes da região. Nusairitas, que evitam o uso deste termo, afirmam que são “sur”, ou seja, da raça síria, que aparece na Torá em Deuteronômio 3,8: “Assim naquele tempo tomamos a terra das mãos daqueles dois reis dos amorreus, que estavam além do Jordão; desde o rio de Arnom, até ao monte de Hermom (A Hermom os sidônios chamam Siriom; porém os amorreus o chamam Senir)”. Deuteronômio 3:8,9

Desta forma, são povos que não foram conquistados pelos hebreus, durante as guerras judaicas contra os povos de Canaã, pois os heveus não foram removidos ou conquistados pelos judeus. Os heveus estenderam sua influência até o Monte Líbano, onde um subgrupo heveu, os cadmeus, fundaram o templo de Baal Hermon. Os cadmeus diziam-se descendentes do deus egípcio Taut, conhecido como Toth, e eram conhecidos pelo domínio da astronomia, música, arquitetura e magia. Tanto heveus como cadmeus possuíam uma doutrina iniciática que era passada de geração em geração, o que influencia até hoje os nusairitas, pois o sistema nusairita é baseado em uma transmissão iniciática de poucos livros sagrados, mas de muita transmissão dos mistérios iniciáticos de geração em geração de forma oral.

Mas como mencionado anteriormente, o sistema religioso dos nusairitas foi desenvolvido ao longo do tempo, sob influências externas que eram abarcadas no sistema original, mas a forma oral de transmissão permitiu que a essência da doutrina fosse preservada e não é nenhum absurdo afirmar que, apesar do sincretismo, os nusairitas são verdadeiras testemunhas das antigas religiões étnicas da região.

2. Maaanah Ism Bab – A Essência do Nusairismo

Sabemos que as antigas tradições do Oriente e da África traçam suas origens em uma figura psicopompa, isto é, uma figura divina-humana que conduz os homens à iluminação. Na Babilônia, Beroso relata a crença em Oannes, uma figura metade homem e metade peixe, que surgiu para conduzir os seres das trevas das águas até a sabedoria que formou a civilização. No renascimento mágico ocorrido na Renascença, magos e hermetistas traçavam suas origens nos antigos ensinamentos de Hermes Trismegisto, fonte da sabedoria divina e mestre das ciências. Na Sura Al-Baqara (A Vaca), o Quran menciona também menciona dois anjos, Harut e Marut:
E seguiram o que os demônios apregoavam, acerca do Reinado de Salomão. Porém, Salomão nunca foi incrédulo, outrossim foram os demônios que incorreram na incredulidade. Ensinaram aos homens a magia e o que foi revelado aos dois anjos, Harut e Marut(34), na Babilônia. Ambos, a ninguém instruíram, se quem dissessem: Somos tão somente uma prova; não vos torneis incrédulos! Porém, os homens aprendiam de ambos como desunir o marido da sua esposa. Mas, com isso não podiam prejudicar ninguém, a não ser com a anuência de Deus. Os homens aprendiam o que lhes era prejudicial e não o que lhes era benéfico, sabendo que aquele que assim agisse, jamais participaria da ventura da outra vida. A que vil preço se venderam! Se soubessem...”(2,102)
Harut e Marut são dois anjos caídos que ensinaram as artes arcanas aos homens. Não é estranho ao pensamento oriental a ideia das ciências naturais e sobrenaturais como uma transmissão iniciada numa figura psicopompa – uma ideia que também faz parte do nusairismo, na doutrina do Maanah Ism Bab. Nusairitas não contestam o fato de Allah ser o único eterno, pré-existente e uno, mas que esta figura é Ali. Também afirmam que Sua manifestação ocorre no mundo através de sete Maanah Ism Bab, de Abel a Ali Ibn Abu Talib. Estas sete manifestações são descritas em três conceitos: Maanah, que é o significado, a divindade enquanto a realidade, Ism, isto é, nome, em árabe, o véu que oculta o aspecto do Maanah, e Bab, porta, que é a plena revelação de Maanah e Ism. Temos, portanto, sete trindades Maanah Ism Bab:

  1. Abel Adão Gabriel
  2. Sete Noé Ibn Al-Fatin
  3. José Jacó Ibn Qush
  4. Josué Moisés Ibn Usbaut
  5. Asaf Salomão  Ibn Siman
  6. Pedro Jesus Ibn Al Merzaban
  7. Ali Mohamed Salman al Farisee

Da mesma forma que o conceito de trindade do Cristianismo afirma que há 3 pessoas em um só Deus, a doutrina nusairita também afirma que a manifestação em Maanah Ism Bab é de 3 pessoas em uma só manifestação da revelação divina. Desta forma, todos os homens mencionados como partes da trindade nusairita eram deuses psicopompos, figuras humanas-divinas que vieram para revelar a doutrina secreta. Um exemplo: Salman Al Farisee, o primeiro persa convertido ao Islam e um dos companheiros do Profeta Mohammed, é a porta da trindade Ali Mohamed Salman al Farisee. Pedro, chamado pelos nusairitas de Kephas, é o Ism de Jesus e Al Merzaban, o “companheiro da caverna”, amigo de Ali, zoroastra convertido ao Cristianismo e depois ao Islam e que, segundo a tradição nusairita, foi chamado pelo próprio Profeta Mohammed como “a reencarnação de Jesus, filho de Maria”, é seu Bab.

Aqui, é importante relacionar outro ponto importante: todas as trindades Maanah Ism Bab possuem uma morada ou templo no mundo celeste, formando sete hierarquias celestes, com o templo do ahl al-bayt como superior, relatado no Kitab Al Madjmou, escritura sagrada alauíta, da seguinte forma: Mohammed como a fundação, Ali como a abóboda, Fátima como o chão e como pilares: Mohammed, Fatih, Hassan e Hussein.

Deste templo misterioso, Abu Adh-Dahrr é mestre ao lado de Hassan e Hussein, e velam outros dois mestres secretos: Naufal Ibn Harithah e Abu Barzah: Adh-Dharr foi um grande asceta da primeira geração, Harithah e Barzah, que na verdade são "reencarnações de estrelas": eram estrelas que tomaram formas humanas para o bem da revelação. Aqui, a doutrina nusairita é bem semelhante à Kabbalah judaica: o nome (Ism) é um aspecto terreno do Ism nas moradas lunares. Apenas para citar en passant, esta cosmologia nusairita, com suas moradas estelares, lunares e planetárias influenciaram de forma significativa a doutrina do sábio G. Gurdjieff, conforme veremos adiante.

3. O Mundo da Luz: Morte, Renascimento, Iniciação e Realização Nusairita

Já tratamos da questão da revelação na doutrina nusairita e, agora é importante que lidemos com um outro ponto chave: se os profetas são revelações de uma só divindade, então qual é o destino do homem? Qual o significado da revelação? Na cosmologia nusairita, o mundo manifestado é visto como uma manifestação oculta da essência divina. Todas as coisas criadas são, de forma mais próxima ou mais distante, esta mesma essência divina em um estado de ocultação. O objetivo da revelação é fornecer ao adepto a revelação a revelação do véu, o acesso à própria Nur, isto é, a Luz primordial e divina.

Neste estágio, o adepto é chamado de Abd En-Nur, escravo da luz. Este estágio se dá no mundo sempre em um número pequeno e limitado (outro aspecto que influenciou a doutrina Gurdjieff). As almas do mundo passam por um processo de sucessivos renascimentos (taknys, para os nusairitas), para que atinjam este estágio. Como a doutrina cabalista do guilgoul (a reencarnação na Cabala), a reencarnação nusairita não é um “processo evolutivo das almas”, mas um processo da própria divindade para restaurar a sua unidade que está em ocultação na forma manifestada. Esta realidade é percebida até no título que Ali recebe: Amir An-Nahal, “O Príncipe das Abelhas”. No simbolismo oriental, os anjos são muitas vezes representados como abelhas, pois levam o mundo externo ao divino, para extrair o mel, e suas individualidades são totalmente relegadas quando dentro da colmeia, não passam de incansáveis operários do sistema divino – e os nahal, isto é, as abelhas de Ali, são como anjos, manifestações no mundo da ocultação divina que buscam extrair o mel através do néctar. Temos, portanto, o mundo externo que deve servir como uma fonte para extração do néctar, que será transformado em mel através da Nur, a luz divina. 

Mas nem tudo é luz: ímpios e principalmente inimigos de Ali reencarnam em bestas e elementos impuros. Os sheikhs sunitas reencarnam como asnos, os padres cristãos em porcos, os rabinos como macacos e maus nusairitas em animais de quatro patas que servirão de alimento nas refeições dos próprios nusairitas. Para evitar ser contado entre os ímpios e seguir o ciclo de reencarnação até ser um Abd En-Nur e voltar à forma primordial humana, isto é, de estrela nos céus, é necessário escalar os graus da religião até conseguir participar do Qurban (sacramento), um consumo sacramental de pão e vinho, além de doar 1/5 de seus lucros para a caridade, deve também fazer as cinco orações diárias, praticar dhikr (lembrança do nome de Allah). Para ser apto a participar do Qurban, o adepto passa por vários estágios que, para alguns, inspiraram os condenados rituais Templários, mais tarde notórias influências nos ritos maçônicos: há testes iniciáticos, um deles muito parecido com o ritual de iniciação maçônico:
Imam: - O que desejas?
Candidato a adepto: - Busco o mistério da nossa fé, para participar da multidão de crentes!
Imam: - Como deseja tais mistérios, suportáveis apenas por anjos e profetas? [...] saibas que há muitos crentes, mas poucos capazes a este mistério! Saibas que terás as mãos e a cabeça cortadas caso nossos mistérios sejam profanados ou revelados.”
O postulante a adepto deve ser apresentado por dois padrinhos, um deles levará o adepto para sua própria casa, onde fará sua iniciação aos Capítulos, compostos por orações e práticas secretas, até que o já então adepto possa estar preparado para o Qurban.

O Qurban é uma entrada para outros aspectos do culto, como o de adoração à Lua. Novamente, podemos notar outra influência nusairita no sistema Gurdjieff: a nossa Lua é uma “falsa lua”, um aspecto oculto comparado ao corpo físico de Ali. Como o aspecto físico de Ali era apenas uma ocultação da sua trindade Maanah Ism Bab, a Lua da terra é um lado obscuro que representa a ignorância da visão física. Há, portanto, uma iniciação para a verdadeira adoração à Lua. 

Através dos processos iniciáticos e da prática dos pilares da religião, o adepto é protegido dos sete graus de degradação. O Alcorão menciona sete moradas ou pisos infernais, para os nusairitas, estes pisos são sete formas de reencarnar como bestas, vegetais ou minerais. É o caso de Abu Bakr, Uthman, Omar e outros impiedosos que combateram a casa de Ali, além dos que condenam o vinho e visitam Meca no Haji, a peregrinação ritual. A peregrinação à Meca é vista como uma blasfêmia e é vedada aos nusairitas.

4. Ali e Ibn Nusayr na Doutrina Nusairita

Conforme mencionado anteriormente, a figura de Ali faz parte da trindade Ali Mohammed Salman. Mas como a trindade derradeira e última. Entretanto, Ali está presente em todas as outras manifestações Maanah Ism Bab, algo inspirado na antiga lenda zoroastra. É dito que Zoroastro viu uma árvore de sete ramos: um de ferro, outro de aço, um de estanho, um de cobre, um de bronze, um de prata e um de ouro. A árvore representa o mundo disposto nos elementos que representam as suas eras, e Zoroastro passa pelos sete ramos como um profeta para cada elemento. Na doutrina nusairita, isto pode ser visto em como os profetas são interpretados enquanto senhores de eras: Moisés, profeta da era dos magos, Jesus Cristo, profeta da cura, e Mohammed, profeta da poesia e da espada. Como nas lendas babilônicas, zoroastras e cabalistas, a doutrina nusairita também reconhece um mundo pré-adâmico, onde Ali ocupa o papel do Ein Soph cabalístico: no princípio, havia ali em forma de uma safira, contemplado pelas estrelas. Até que, certo dia, pela manifestação de seu próprio poder, Ali lançou um véu sobre sua verdadeira natureza cósmica e as estrelas, através do véu, passaram a enxergar a si mesmas e ao mundo como criaturas e natureza.

Ali é o Pai, Mohammed o Filho e Salman o Espírito Santo. Ali e Mohammed, enquanto em forma humana, eram separados apenas durante o dia – ao cair do sol, eram unidos em uma só forma física, segundo a crença nusairita. A Trindade Ali Mohammed Salman não é apenas final, mas também a primeira, pois sua mensagem é a última e a necessária para o retorno às estrelas. Desta forma, crê-se entre os nusairitas que Ali Mohammed Salman criaram os “Cinco Incomparáveis”: Al Miqdad, companheiro do Profeta em forma humana e na forma celeste controlador dos raios e trovões, Abu Dharr, em forma humana opositor do califa Uthman e um dos quatro sahaba venerados pelos xiitas, e na forma celeste responsável pela rotação dos planetas e estrelas, Abdallah Ibn Rawahah, na forma humana um dos sahaba do Profeta e, na forma celeste, controlador dos ventos, Uthman, que por sua usurpação na forma humana foi no mundo celeste relegado a controlador do das pragas e pestes, e Khanbar, outro inimigo do ahl al-bayt, relegado a introduzir os espíritos nos corpos. Aqui, encontramos algo em comum com a Qabbalah judaica: Uthman e Khanbar, impiedosos na terra, são formas celestiais do lado negativo, e são controlados por Ali, a Divindade Suprema. 

É a questão do Maanah Ism Bab que forneceu a Nusayr a fundação de sua doutrina: como o Imam Al-Askari morreu sem deixar sucessor, e Nusayr acabou com suas pretensões a Imam rejeitadas pela comunidade xiita, sua solução foi se proclamar como Bab de Al-Hadi, quando Al-Hadi era vivo, e o Ism de Al-Askari. Al-Hadi foi o décimo Imam e pai de Al-Askari. Al-Hadi foi um grande teólogo e morreu envenenado a mando do califado abássida. Nusayr, então, continuou sua reivindicação da divindade do Imam. Com isso, os nusairitas formularam a consagração do Qurban amaldiçoando todas as quatro escolas do Islam sunita (hanafitas, shafitas, malikitas e hanbalitas), além do Patriarca João Maroun, da Igreja Maronita, como negadores da trindade Ain Mim Sin, as iniciais árabes de Ali Mohammed e Salman. 

Agora, entraremos no aspecto metafísico da divindade de Ali. A doutrina nusairita bebeu do emanacionismo neoplatonista, elevando cada profeta ao estado de Al-Insan Al-Kamil, isto é, homem perfeito. Mas este não é um estado de perfeição moral ou de perfeição gerada pela prática. O profeta é a própria emanação terrena do Homem Perfeito Universal, dentro de cada ciclo cósmico que necessita de um mensageiro. E isto fica ainda mais claro em outro ponto da doutrina: todo mensageiro é acompanhado pelo seu Samyt, isto é, um reflexo da alma universal no mundo manifestado. Maanah Ism Bab é manifestado de forma oculta no basmallah “bismillah al rahman al rahim”, “em nome de Allah, o Clemente, o misericordioso”. É uma consequência da teologia ortodoxa xiita, que coloca vários mundos internos para diferentes níveis de realidade, formando mundos de matéria, alma e intelecto. Na teologia de Suhrawardi, o mundo do verdadeiro conhecimento está acima do mundo do intelecto e para conquista-lo é necessário ultrapassar todas as barreiras físicas através do conhecimento puro. É neste mundo que o Al-Insan Al-Kamil habita. Ao mesmo tempo, também é inspirado na doutrina de Sadra sobre a ressurreição, pois Sadra dizia que a ressurreição, embora física, se dará num estado físico completamente depurado, em um corpo diferente do corpo terreno, que não poderia sobreviver no Paraíso. Então, é neste estado que Ali está em sua divindade, enquanto o Imam Ali manifestado na terra, em um mundo transmaterial, chamado hurqaliah. Ali seria, o mesmo tempo, o ordenador demiúrgico e o próprio princípio. 

5. Conclusão

Obviamente, não é possível alocar os grupos nusairitas no xiismo. E isso não se dá pelo refinamento neoplatônico, já que o neoplatonismo foi muito bem aproveitado e utilizado pelos filósofos xiitas clássicos, mas sim pelo próprio abandono da doutrina infalível dos imãs. Há uma certa deturpação das doutrinas xiitas, como é o caso do rajah. O rajah, que significa “retorno”, é uma doutrina presente no Quran e na interpretação dos sábios, sobre o retorno à terra de antes da reunião global no Dia do Juízo. Os nusairitas, por outro lado, afirmam com ênfase o tanasukh (reencarnação), que é a volta das almas ao mundo de forma cíclica. 

Além do mais, a divinização de Ali através de um sistema neoplatônico afasta por completo o nusairismo do Islam. A questão não é de influência externa, mas sim de doutrinas que foram geradas e requentadas para fundamentar a autoproclamação de Ibn Nusayr como o Grande Imam. 

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O Reino da Arábia já não tão Saudita

Príncipe Muhammad bin Salman e Muqtada al-Sadr 
A Arábia Saudita tem feito um verdadeiro esforço em transformar a sua conflituosa relação com o Irã em uma questão geopolítica. Busca-se, com isso, o mitigamento das tensões religiosas, apesar da origem estar no anti-xiismo do wahhabismo. O Príncipe Muhammad bin Salman está encabeçando uma amenização do discurso saudita almejando a retomada da liderança no Oriente Médio. Para tanto, já desenha uma aproximação com o Iraque xiita, como um sinal de mudança de postura por parte do regime monárquico.

A relação de Ryad com Bagdá tem sido encorajada por potências ocidentais, particularmente os EUA. Esses intentos foram reforçados no ano passado pelas visitas de dois influentes líderes xiitas iraquianos, Muqtada al-Sadr, um clérigo popular e líder político, e Haider al-Abadi, primeiro-ministro. Agora, o príncipe Muhammad parece ter adotado essa estratégia como uma forma de desafiar a influência regional crescente do Irã, enquanto embarca em uma revisão radical da economia de seu próprio país.

Durante décadas, a Arábia Saudita e seu rival, o Irã, exploraram o cisma secular entre xiitas e sunitas como parte das lutas regionais. Entretanto, as autoridades sauditas estão enviando discretamente mensagens aos principais clérigos xiitas de Najaf, que, embora tenham receio de serem arrastados para uma disputa por procuração, parecem dispostos a pacificar a região. No ano passado, o ministro das Relações Exteriores, Adel al-Jubeir, fez a primeira visita oficial ao Iraque encabeçada por um alto funcionário do governo, desde 1990. Também existem indícios de que o príncipe Mohammed bin Salman poderia visitar o país em breve, inclusive à Najaf, cidade sagrada xiita.

Outro sinal da mudança de postura saudita foi a reabertura da sua embaixada em Bagdá, em 2015, depois de 25 anos de relações interrompidas. Com a liderança do Príncipe Muhammad, nota-se um esforço em tornar o processo de revolução geopolítica ainda mais rápido.  Caso isso ocorra, será a mais radical transformarção no regime, muito além de permitir que mulheres possam dirigir. Os exércitos sauditas já destruíram a cidade de Karbala em 1801 e exterminaram toda e qualquer influência xiita do seu próprio país, assassinando ao Ayatollah Nimr al-Nimr em 2016. Uma visita oficial de Muhammad bin Salman à cidade de Najaf representaria uma - estratégica - mudança de postura.

Relações políticas com o Iraque xiita, relaxamento das leis morais no contexto interno, redução das narrativas anti-Israel. Esse tripé tem sido a nova base na qual o Príncipe Muhammad pretende estruturar uma refundação de fato do reino da Arábia Saudita. Desde o seu surgimento, após a I Guerra Mundial, e ainda em seu processo de formação histórica, no séc. XVIII, a Casa Saud foi sinônimo da escola wahhabita. Hoje, entretanto, o esforço em dissociar-se do puritanismo reformado é a força motriz da nova monarquia. Talvez, em um futuro hipotético, vejamos ao regime saudita, em seu afã de modernização, reconhecer-se culpado pela difusão do anacronismo em todo o mundo islâmico. 

Entretato, cabe aqui uma prudência consciente e uma espera por um câmbio de narrativas também no contexto formativo e institucional. A Arábia Saudita, através da fundação de mesquitas e manutenção de organizações missionárias, ainda sustenta uma complexa estrutura na qual se difunde o wahhabismo. Suas universidades, especialmente a de Medina, são responsáveis pela formação de milhares de clérigos que, espalhados pelo mundo, reproduzem o discurso religioso oficial da monarquia. Qualquer mudança almejada pelo Príncipe Muhammad nesse setor, naturalmente se chocaria com as posições das mais importantes autoridades do país, como a do Grã-Mufti Abdul-Aziz ibn Abdullah Al ash-Sheikh, descendente direto de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, o fundador do wahhabismo