quarta-feira, 20 de junho de 2018

A ocupação da Argélia e o uso político do Catolicismo

"Nossa Senhora da África, rogai por nós e pelos muçulmanos"
Quando o primeiro soldado francês desembarcou em Sidi-Ferruch, próximo a Argel, encontrou uma população muçulmana devota, que visitava a lugares sagrados, seguia aos marabouts, realizavam longos jejuns e piedosas peregrinações. Não imaginavam estes que aqueles militares europeus que ali aportavam lutaram por uma revolução liberal ao lado de Napoleão, contra a influência clerical e a "superstição religiosa". A França nascida da Revolução gerou um marco sociológico na mudança da mentalidade europeia através do ódio à religião. A criação do estado inimigo da Igreja e da fé popular talvez seja o grande "legado" francês no mundo moderno. 

A ocupação da Argélia em 1830 foi acompanhada na França pela derrubada da dinastia Bourbon, que havia chegado ao trono novamente após a crise do regime napoleônico em 1814. Os Bourbons restauraram o regime confessional, derrubaram as leis anti-clericais, devolveram os templos para as suas finalidades de culto e até aprovaram os atos anti-sacrilégio. A Restauração foi destituída pela Revolução de Julho que encabeçada por banqueiros, sociedades republicanas e liberais, colocou a Luís Felipe, o "rei burguês" da Casa da Orleães, no trono. Este imediatamente retomou o espírito anti-clerical iluminista, abolindo leis e reocupando templos. O que se viu a partir de então foi uma sucessão de governos e regimes, todos alinhados com o liberalismo ideológico: a Segunda República Francesa, o Segundo Império Francês, a Terceira República Francesa etc.

Entretanto, apesar de todo este radicalismo na Europa, os franceses logo perceberam que a situação colonial necessitava de uma outra abordagem política, ainda que oposta ao aplicado do outro lado do Mediterrâneo. Enquanto na Europa a França se transformará na maior promotora do anti-clericalismo, com leis que dissolviam mosteiros, tomavam escolas católicas e aprisionavam padres e monges, na Argélia, por uma estratégia de domínio, o estado francês promoverá o Catolicismo e o florescimento das comunidades religiosas. Quando o Emir Abdelkader ibn Muhieddine, o líder da primeira resistência anti-ocupação na Argélia, assinou o Tratado de Tafna, em 1837, disse aos franceses: "Se vocês são cristãos, como dizem ser, vocês devem ter templos e sacerdotes. Nós seremos grandes amigos, já que nosso livro sagrado, o Alcorão, nos impele a viver em paz com os cristãos". A administração colonial levou isso a sério e entendeu que a promoção da cristianização da Argélia seria, curiosamente, a única forma de criar vínculos de afeto com os muçulmanos.

De fato, a defesa religiosa na colônia atingiu níveis somente comparados à piedade dos Bourbons, com um ardor devocional que sensibilizava até os adeptos do Islã. O estado estruturou as dioceses, apoiando a construção de templos e a formação de um clero local, enquanto ocupava igrejas e fechava conventos na França. A diocese de Argel, criada em 1838, em 1866 já havia sido elevada ao estado de Arquidiocese, com a criação das dioceses de Orã e Constantine. De igual maneira, o governo colonial custeou a edificação de mosteiros e casas religiosas, porque sabia da tradicional disposição islâmica aos monges: "Constatarás que aqueles que estão mais próximos do afeto dos crentes são os que dizem: Somos cristãos! porque possuem sacerdotes e monges que não se ensoberbecem em coisa alguma" (Alcorão 5, 82). 

Os políticos agnósticos e ateus se transformaram em paladinos da Igreja e, ao final, estavam certos. O primeiro mosteiro trapista fundado em Staouéli, se transformou rapidamente em um lugar sagrado para a comunidade islâmica. Os muçulmanos até curvavam as suas cabeças quando passavam por seus muros, em sinal de respeito. Quando Abdelkader se encontrou, anos depois, com Dom François Régis, seu primeiro Abade, comentou que já conhecia a fama dos monges pelos elogios que os seus soldados compartilhavam, destacando como sempre eram bem acolhidos. De fato, a vida monástica causava grande impressão por conta da sua semelhança com a espiritualidade islâmica: a constância na oração, os jejuns prolongados. Até mesmo os hábitos dos monges se pareciam às gandouras dos marabouts e a construção do mosteiro, com claustro, hospedaria e pátio, se assemelhava à arquitetura tradicional argelina.

Como havia pontuado Christian de Chergé, o superior assassinado do Mosteiro de Tibhirine em 1996 em um dos seus artigos sobre a religiosidade da Argélia, o homem argelino, ao longo de sucessivas eras - berbere pagã, cristã, muçulmana - teve como marca característica a associação da vida cotidiana à experiência religiosa, tendo a fé esse caráter de unificação dos valores e inclusive exercendo um papel fundamental nas lutas e revoltas. A posição colonial francesa, sem nenhum interesse real em evangelização ou defesa da identidade cristã, utilizou o Catolicismo como uma ponte de afeto entre a metrópole e a colônia. Para o homem argelino a dominação era por si atroz, ainda mais se exercida pelo homem europeu liberal e ilustrado, que sequer entendia a comosvisão sobrenatural do mundo. Talvez seja o único caso na história no qual a Igreja foi usada como instrumento político para conquistar os corações dos muçulmanos. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

O Bispo e o Islã

Léon-Étienne "Muhammad" Duval, foi Arcebispo de Argel, na Argélia, de 1954 até 1988, sendo criado Cardeal pelo Papa Paulo VI. Conhecido pela sua ortodoxia doutrinal e litúrgica, se transformou no responsável por uma grande revolução nas relações islamo-cristãs no Magreb. Já como Bispo de Constantine, também na Argélia, Duval sempre foi um árduo crítico do preconceito institucional alimentado pelo governo francês nos tempos da colonização. Ademais, pontuava que a criação dessa atmosfera de ódio apenas geraria tensões que inevitavelmente se converteriam em violência. De fato, a guerra de independência da Argélia foi conhecida pela sua sanguinolência, deixando chagas que não curadas gerariam a guerra civil em 1991.

Cardeal Duval reconhecia que ele não era apenas o Bispo dos católicos, mas sim de toda a população de Argel. Por conta do seu trabalho de aproximação com os muçulmanos e sua crítica à crença na superioridade civilizacional francesa, passou a ser chamado pelos "Pieds-Noirs" de Muhammad Duval. A Argélia que surgiu após a independência, em 1962, parecia um sonho conquistado. O Islã era reconhecido como a religião oficial, mas o Cristianismo tinha a sua liberdade religiosa garantida. Além disso, o governo deu a nacionalidade argelina a diversos sacerdotes e religiosos e passou a tratar os padres como funcionários públicos, como fazia com os imames das mesquitas. O governo também transmitia nas rádios as Missas nas mais importantes solenidades litúgicas, como Natal, Páscoa, Pentecostes etc, com traduções em árabe, francês e berbere.

Entretanto, o aparente equilíbrio foi rompido por uma escalada de ódio. Dom Duval testemunhou a chegada do salafismo na Argélia independente, desestabilizando a paz que havia sido construída através de uma sólida aliança entre o clero cristão e as lideranças tradicionais islâmicas, especialmente sufis. A Frente Islâmica de Salvação (FIS) surgia na década de 80, muito influenciada por estudantes formados nas universidades da Arábia Saudita. Na década de 90, e como divisião da FIS, se estrutura o Grupo Islâmico Armado, responsável pelo sequestro e morte dos monges de Tibhirine. O radicalismo wahhabita possibiliou o aumento da violência anti-cristã, como no assassinato de Dom Gaston Marie Jacquier, Bispo Auxiliar de Argel, já em 1976. Além dos grupos radicais organizados, iniciativas fundamentalistas eclodiam sem uma partidarização muito clara. Pierre Claverie, Bispo de Orã, foi morto em um atentado a bomba feito por essas guerrillhas urbanas que surgiam no contexto amardo da Argélia.

Não obstante o terror, Cardeal Duval também pode testemunhar como, apesar de todas as adversidades, as comunidades consagradas católicas, juntamente com os muçulmanos tradicionais, puderam criar uma relação de paz e concórdia. Destaca-se, por exemplo, os Monges de Thibirine, que acolheram a milhares de argelinos refugiados ao redor do mosteiro, dando origem a um povoado abacial, até mesmo com a criação de um grupo de estudo e reflexão formado pelos trapistas e por místicos sufis. Outra grande iniciativa foi a fundação do Centre des Glycines, que era um instituto diocesano para os estudos do árabe clássico e do islamismo. A idéia original estava enfocada nos religiosos que planejavam servir na Argélia. Mas a independência fez com que uma grande quantidade de muçulmanos buscasse o Centro como meio para conhecer melhor sua cultura, empenhando-se em aprender o árabe, já que a língua colonial era o francês.

A vida de Cardeal Duval também é cheia de outras particularidades. Ele era muito amigo de Marcel Lefebvre, o Bispo tradicionalista, e foi chamado pelo Governo Interino do Irã, após a Revolução Islâmica, para visitar os americanos sequestrados na embaixada em Teerã. Em 21 de maio de 1996, os Monges de Tibhirine, sequestrados pelo GIA, foram decapitados. Dom Duval, ao receber a notícia, disse aos que estavam com ele: "a morte dos monges me crucifica". Décadas antes, em 1963, ele havia se oposto à decisão do Abade Geral trapista que pretendia fechar o mosteiro argelino. Para Duval, a presença monástica em solo islâmico era fundamental para a contemplação e a melhor ponte de diálogo. Um semana depois, aos 92 anos, "Muhammad" Duval falecia. Ele está sepultado na Basílica de Nossa Senhora da África, em Argel.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Cronologia da história política Iraque


1534 - 1918 - Região faz parte do Império Otomano.
1917 - Grã-Bretanha toma Bagdá durante a Primeira Guerra Mundial.
1920 - Liga das Nações aprova o mandato britânico no Iraque, provocando revolta em todo o país.
1921 - Grã-Bretanha nomeia Feisal, filho de Hussein Bin Ali, como rei.
1932 - O mandato termina, o Iraque se torna independente. A Grã-Bretanha mantém bases militares.
1941 - A Grã-Bretanha reocupa o Iraque após o golpe pró-Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.
1958 - A monarquia é derrubada em um golpe militar de esquerda liderado por Abd-al-Karim Qasim e Abdul Salam Arif.
1963 - O primeiro-ministro Qasim é derrubado em um golpe liderado pelo partido pan-árabe Baath. O general Arif, que rompeu com Qasim quatro anos antes, torna-se presidente.
1963 - O governo baathista é derrubado pelo presidente Arif e por um grupo de oficiais.
1968 - Um golpe de Estado baathista coloca Ahmad Hasan al-Bakr no poder.
1972 - O Iraque nacionaliza a Companhia Petrolífera do Iraque.
1974 - O Iraque concede autonomia limitada à região curda.
1979 - Saddam Hussein sucede a Al-Bakr como presidente
1980-1988 - Guerra Irã-Iraque resulta em impasse.
1981 Junho - Ataque aéreo israelense destrói o reator nuclear iraquiano em Osirak, perto de Bagdá.
1988 Março - Iraque ataca a cidade curda de Halabjah com gás venenoso, matando milhares de pessoas.
1990 - O Iraque invade e anexa o Kuwait, provocando o que ficou conhecido como a primeira Guerra do Golfo. Uma campanha militar liderada pelos EUA força o Iraque a se retirar em fevereiro de 1991.
1991 Abril - Iraque submetido a programa de inspeção de armas.

1991 Meados de março/início de abril - populações xiitas do sul e curdas do norte, encorajadas pela derrota do Iraque no Kuwait, rebelam-se, o que levou a uma repressão brutal.
1995 Abril - ONU permite a retomada parcial das exportações de petróleo do Iraque para comprar alimentos e remédios em um programa de petróleo por alimentos.
1998 Outubro - O Iraque encerra a cooperação com a Comissão Especial da ONU para supervisionar a destruição do seu armamento nuclear/biológico
1998 Dezembro - A campanha Desert Fox, dos EUA e da Grã-Bretanha, visa destruir os programas de armas nucleares, químicas e biológicas do Iraque.
2001 Fevereiro - Grã-Bretanha e EUA realizam bombardeios para tentar desabilitar a rede de defesa aérea do Iraque.
2002 Novembro - Inspetores de armas da ONU retornam ao Iraque apoiados por uma resolução da ONU que ameaça haver sérias conseqüências se o Iraque violar o acordo.
2003 Março - A invasão liderada pelos EUA derruba o governo de Saddam Hussein, marca o início de anos de violentos conflitos com diferentes grupos que competem pelo poder.
2003 Julho - O Conselho de Governadores nomeado pelos EUA se reúne pela primeira vez.
2003 Agosto - O caminhão-bomba destrói a sede da ONU em Bagdá, matando o enviado da ONU, Sérgio Vieira de Mello. Um carro-bomba em Najaf mata 125 pessoas, incluindo o líder xiita, o Ayatollah Mohammed Baqr al-Hakim.
2003 Dezembro - Saddam Hussein capturado em Tikrit.
2004 Março - Atentados suicidas atacam as celebrações xiitas em Karbala e Bagdá, matando 140 pessoas.
2004 Abril-Maio - Evidência fotográfica emerge do abuso de prisioneiros iraquianos por tropas dos EUA na prisão de Abu Ghreib em Bagdá.
2004 Junho - Os EUA entregam a soberania ao governo interino liderado pelo primeiro-ministro Iyad Allawi.
2004 Agosto - Luta em Najaf entre as forças dos EUA e a milícia xiita do clérigo Moqtada Sadr.
2004 Novembro - Grande ofensiva liderada pelos EUA contra insurgentes em Falluja.
2005 Janeiro - Eleições para uma Assembléia Nacional de Transição.
2005 Abril - Em meio à crescente violência, o parlamento seleciona o líder curdo Jalal Talabani como presidente. Ibrahim Jaafari, um xiita, é nomeado primeiro-ministro.
2005 Maio em diante - Surto de carros-bomba, explosões e tiroteios
2005 Junho - Massoud Barzani é empossado como presidente regional do Curdistão iraquiano.
2005 Outubro - Os eleitores aprovam uma nova constituição, que visa criar uma democracia federal islâmica.
2005 Dezembro - Os iraquianos votam no primeiro governo e parlamento desde a invasão liderada pelos EUA.
2006 Fevereiro em diante - Um ataque a bomba em um importante santuário xiita em Samarra desencadeia uma onda de violência sectária na qual centenas de pessoas são mortas.
2006 Abril - O recém-reeleito presidente Talabani pede que o candidato xiita Nouri al-Maliki forme um novo governo, encerrando meses de impasse.
2006 Junho - O líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, é morto em um ataque aéreo.
2006 Novembro - Iraque e Síria baathista restauram relações diplomáticas depois de quase um quarto de século.
2006 Dezembro - Saddam Hussein é executado por crimes contra a humanidade.

2007 Janeiro - O presidente dos EUA, George W. Bush, anuncia uma nova estratégia para o Iraque. Milhares de soldados dos EUA serão enviados para reforçar a segurança em Bagdá.
2007 Agosto - Líderes curdos e xiitas formam uma aliança para apoiar o governo do primeiro-ministro Maliki, mas não conseguem atrair líderes sunitas.
2007 Setembro - Controvérsias sobre empresas de segurança privada depois que seguranças da Blackwater supostamente atiraram em civis em Bagdá, matando 17 pessoas.
2007 Outubro - O número de mortes violentas de civis e militares continua a cair, assim como a freqüência de ataques com mísseis
2007 Dezembro - A Grã-Bretanha entrega a segurança da província de Basra às forças iraquianas, marcando efetivamente o fim de quase cinco anos de controle britânico do sul do Iraque.
2008 Janeiro - O Parlamento aprova a legislação que permite que ex-funcionários do partido Baath de Saddam Hussein retornem à vida pública.
2008 Março - O primeiro-ministro Maliki ordena a repressão contra a milícia em Basra, provocando batalhas campais contra o Exército Mehdi de Moqtada Sadr.
2008 Setembro - Forças dos EUA entregam o controle da província de Anbar, no oeste do país - outrora reduto da Al-Qaeda - para o governo iraquiano. É a primeira província sunita a ser devolvida ao governo liderado pelos xiitas.
2008 Novembro - Parlamento aprova um pacto de segurança com os Estados Unidos, sob o qual todas as tropas americanas devem deixar o país até o final de 2011.
2009 Junho - As tropas dos EUA se retiram das cidades do Iraque, seis anos após a invasão, tendo formalmente transferido as tarefas de segurança para as novas forças iraquianas.
2010 março - Eleições parlamentares. Nove meses se passam antes que um novo governo seja aprovado.
2010 Agosto - Sete anos após a invasão liderada pelos EUA, a última brigada de combate dos EUA deixa o Iraque.

2010 outubro - Igreja em Bagdá invadida por militantes. Mais de 50 pessoas morrem no que é descrito como o pior ataque a atingir os cristãos do Iraque nos tempos modernos.
2010 Novembro/Dezembro - O Parlamento se reune após um longo período de atraso, re-nomeia Jalal Talabani como presidente e Nouri al-Maliki como primeiro-ministro.
2011 Janeiro - O clérigo xiita Moqtada Sadr retorna depois de 4 anos de exílio auto-imposto no Irã.
2011 Dezembro - EUA conclui retirada de tropas. O governo da unidade enfrenta desafios. Mandado de prisão emitido contra o vice-presidente Tariq al-Hashemi, um importante político sunita. O bloco sunita boicota o parlamento e o gabinete.
2012 março - Cúpula da Liga Árabe em Bagdá. É a primeira grande cúpula a ser realizada no Iraque desde a queda de Saddam Hussein. Uma onda de ataques pré-cúpula mata dezenas de pessoas.
2012 Abril - As exportações de petróleo do Curdistão iraquiano foram suspensas pelo governo central por causa de contratos com empresas estrangeiras.
2012 - O Iraque cancela um acordo de US $ 4,2 bilhões para comprar armas da Rússia por causa de preocupações com a alegada corrupção dentro do governo iraquiano. A compra, assinada em outubro, teria feito da Rússia o segundo maior fornecedor de armas do país, depois dos EUA. Moscou foi o principal fornecedor de armas nos tempos de Saddam.
2012 Dezembro - Presidente Jalal Talabani sofre um derrame. Ele é tratado na Alemanha.
2013 Abril - A insurgência sunita se intensifica, com níveis de violência que coincidem com os de 2008. 
2013 Setembro - Uma série de bombardeios atinge a capital do Curdistão, Irbil, no primeiro ataque deste tipo desde 2007. O grupo do Estado Islâmico do Iraque diz que está respondendo ao apoio dos curdos iraquianos à ofensiva antijihadista promovida pelos curdos sírios.
2013 Outubro - Governo diz que outubro é o mês mais mortífero desde abril de 2008, com 900 mortos. Até o final do ano, a ONU estima que o número de mortos civis em 2013 seja de 7,157 - um aumento dramático.
2014 Janeiro - Combatentes islâmicos se infiltram em Falluja e Ramadi depois de meses de violência crescente na província de Anbar, principalmente sunita. Forças do governo recapturam Ramadi, mas enfrentam rebeldes entrincheirados em Falluja.
2014 abril - A coalizão do primeiro-ministro Al-Maliki ganha nas primeiras eleições parlamentares desde 2011, mas fica aquém da maioria.
2014 Junho-setembro - O Estado islâmico do Iraque e do Levante deixa a província de Anbar para tomar a segunda cidade de Mossul e outras cidades-chave do Iraque. Dezenas de milhares fogem em meio a atrocidades. Forças curdas, dos EUA e do Irã ajudam o governo a repelir ataques.
2014 Setembro - O político xiita Haider al-Abad forma um governo de base ampla, incluindo árabes sunitas e curdos. A liderança curda concorda em colocar o referendo da independência em espera.
2014 Dezembro - O governo iraquiano e a liderança da região curda assinam um acordo sobre a partilha da riqueza petrolífera e dos recursos militares do Iraque, em meio a esperanças de que o acordo ajude a reunir o país diante da ameaça comum representada pelo Estado Islâmico.
2015 Março - Estado Islâmico destrói sítios arqueológicos assírios de Nimrud e Hatra.
2015-2016 - O governo e as forças do Estado Islâmico lutam pelo controle da província de Tikrit e Anbar.
2016 Abril - Os partidários do clérigo Moqtada al-Sadr atacam o edifício do parlamento exigindo novo governo para combater a corrupção e acabar com a alocação de postos do governo ao longo de linhas sectárias.
2016 novembro - O Parlamento reconhece a milícia das Unidades de Mobilização Popular xiita (UGP) como parte das forças armadas com pleno status legal.
2017 Setembro - Recupera a independência em referendo ilegal encenado pelo governo regional curdo. Bagdá impõe medidas punitivas.
2017 Novembro - Forças do governo com aliados xiitas e curdos expulsam o Estado Islâmico do Iraque, exceto alguns poucos redutos. A ofensiva do exército rechaça as forças curdas em um movimento que visa deter o governo regional em direção a um Curdistão independente.
2018 maio - Eleições parlamentares. O bloco político do clérigo xiita Moqtada al-Sadr ganha mais votos.
2018 Junho - Irã e Turquia cortaram a água do Iraque.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Isma'ilism and the belief in the superiority of the Imamate

Aga Khan IV
By Pedro Ravazzano

Shi'ism is divided into two branches, which, in turn, differ in profound theological questions. The main point of distinction is in the balance (or not) maintained between shari'ah and haqiqah, prophecy and imamate. When one conceives of an associated and consequent relationship between the zahir and the batin, between exoterism and esoterism, what we have is the Duodeciman Shi'ism, which represents almost the whole. However, if the batin is raised to the point where it obliterates the zahir, and as a result, the imamate takes precedence over prophecy, Isma'ilism arises, especially in its reformed ramifications, giving rise to a multiplicity of sects.

Isma'ilism grew to such a degree that it became the largest branch of Shiite, culminating as a political power with the Fatimid Caliphate in the tenth and twelfth centuries. They believed in the unity of God, as well as at the end of the divine revelation with Muhammad. Ismaelites and Duodecimans (orthodox Shiites) accept the same initial Imams as the descendants of Muhammad through their daughter Fatimah and therefore share much of their history. Both groups see the family of Muhammad (Ahl al-Bayt) as divinely chosen, infallible (ismah) and led by God to lead the Islamic community (Ummah), a belief that sets them apart from most of Sunni Islam.

After the death of Muhammad ibn Isma'il in the 8th century AD, the teachings of Isma'ilism were further transformed into the belief system as it is known today, with an explicit focus on the deeper and esoteric meaning of the Islamic religion. With the eventual development of the Duodeciman Shiism, Isma'ilism dedicated itself to the mystical path and the nature of God, with the "Imam of Time", representing the manifestation of esoteric truth and intelligible reality, in a mixture of Neoplatonism and Islamic mysticism. Unlike the Duodeciman Shiism, however, who understood the dual relationship between the exoteric and the esoteric, the Ismailites, in the end, emphasized the superiority of the occult over the apparent. As a consequence, Imam Ali was raised to a higher status than Prophet Muhammad.

Thus, since walayah is above the prophecy from which it originates, it is concluded that the person of Wali - ie the Imam - takes precedence over the prophet, and the imamate always has and always takes precedence over the prophetic mission. What Duodeciman Shiism sees as the outcome of an eschatological perspective is realized "in the present" by Isma'ilism, through an anticipation of eschatology, which is a revolt of the Spirit against all slavery, since the Imam of Time, as an entity superior to prophecy, is alive. For Isma'ilism, the door of prophecy is always open, so it is understood its rapid process of metamorphosis throughout history.

Ja'far al-Sadiq, Sixth Imam, was a direct descendant of the Messenger of Islam. Isma'ilism arises through the followers of his son, Isma'il ibn Jafar and his successors, reaching to Ḥussein ibn Amad, father of Abdullah al-Mahdi Billah, founder of the Fatimid Caliphate. After the death of the eighth Caliph Fatimid, Al-Mustansir Billah, a complicated succession crisis sets in. His eldest son, Nizar, was deposed by his brother Al-Musta'li. From these conflicts will arise two divisions that still exist in Isma'ilism: Nizarian Isma'ilism and Mustalism Isma'ilism, the latter divided again with the succession of Al-Musta'li, between the followers of Al-Hafiz and At-Tayyib. The followers of Nizar took refuge within the empire and from this exodus came the Assassin sect (al-Ḥashashin), founded by Hassan-i Sabbah, a Nizarian missionary.

Nizarian Isma'ilism, born with the followers of Nizar, son of the Fatimid Caliph, descendants of Imam Isma'il, the fifth generation of descendants of the Prophet Muhammad through his daughter Fatima, has in its maximum leader the Aga Khan IV. The major difference from Nizarian Isma'ilism to other shia ramifications, such as the Druzes, Alawites, and even the Baha'i Faith, for example, is that they do not yet believe in the existence of the occult Imam. The succession remains alive, now incarnated in Aga Khan IV, the current Imam of Nizarian Isma'ilism.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Wait and Mystic: The esoteric meaning of Mahdist belief in Shi'ism

By Pedro Ravazzano

To reflect on the return of Imam al-Mahdi is to speak about the outcome of the revelatory dynamic in its deepest mystical sense. The End of Time, with the manifestation of the Expected, is also formed by those two dimensions that are present throughout the Shiite religious and spiritual structure: the apparent-exoteric (zahir) and the occult-esoteric (batin). On the one hand, the collective plan, universal and external, that will be seen in historical movements and, on the other, the internal dimension, interpersonally individual, acting in the hearts of the faithful. It is noted that just as the cycle of prophecy culminates in the Seal of the Prophets, Walayah, which runs parallel to the prophecy from period to period, has a double seal in the Muhammadan revelation: the seal of the general Walayah in the person of the first Imam Ali ibn Abu Talib and the Seal of Muhammadian, Walayah the esoteric aspect of earlier esotericism, in the person of the twelfth Imam, Muhammad ibn Hasan al-Mahdi.

Imam al-Mahdi, son of Imam Hassan al-Askari, from birth and childhood, had a life surrounded by miraculous and fantastic events. One of the most interesting symbolic aspects in his family history, which often goes unnoticed, is about the origin of his mother. According to some reports, she would have been a black slave, probably from Nubia. Other references, however, present her as the granddaughter of the Byzantine emperor, descendant of the apostle Simon. According to this version, the Byzantine princess was captured and sold as a slave in Baghdad, arriving at the entourage of Hakimah Khatun, daughter of the ninth Imam, Muhammad al- Jawad. Tradition says that shortly before being captured, the princess, whose name at the time was Maliki Bash Yashika, found herself in a dream with Mary, the mother of Jesus, and with the Lady Fatima. They both urged her to convert to Islam and allow herself to be captured by Muslim troops, for she was destined for a glorious life.

The most interesting points in the maternal origin of Imam al-Mahdi are those that seem to highlight a symbolic substrate of unequaled weight. As part of the dual structure of Shiism, it is possible to see these characteristic notes in Lady Narjis as part of a referential framework. She, while Greek (or Roman) and Christian, before her conversion, grants a character of full universality to her son. He, as the Expected of all peoples, has already overcome the ethnic and religious barriers of his family origin, carrying the blood of the Messenger of Islam and the Apostles of Jesus, the Arabs of the deserts and the Byzantines of the cities. This generational duality is of singular symbolic relevance and connects deeply with the Mahdi's charism in its restorative mission.

In Shiite perspective, the term "Imam" refers to the person who contains within himself the "Muhammadan Light" (al-nur al-mahammadi) which was transmitted through Fatima, the daughter of the Prophet, and Ali the first Imam, to their offspring, ending with the Hidden Imam, end and completeness of the Cosmic Imam in its integral revelatory manifestation. As a result of the presence of this light, the Imam is considered "sinless" (ma'sum) and possesses perfect knowledge of the esoteric and exoteric order. The Imam, as the vehicle of the revelation of God, is the mystical perpetuation of the Divine Being on earth. Therefore, commenting on verse 39:69 - "And the earth shall shine with the light of his Lord" - Imam Ja'far as-Sadiq said, "the Lord of the Earth is the Imam of the Earth." The existence of Imam al-Mahdi is the validation, on the part of Shi'ism, of the spiritual heart of the world. Allamah Tabataba'i, in "Shi'ite Islam," recalled that even before its eschatological appearance, the Imam Expected already exerts this mystical force on the life of the believers, acting as the transcendent pole to which all those who seek God converge.
"The duty of the Imam is not only the formal explanation of the religious sciences and exoteric guidance of the people. In the same way that he has the duty of guiding men outwardly, the Imam also bears the function of walayat and the esoteric guidance of men. It is he who directs man’s spiritual life and orients the inner aspect of human action toward God. Clearly, his physical presence or absence has no effecting this matter. The Imam watches over men inwardly and is in communion with the soul and spirit of men even if he be hidden from their physical eyes. His existence is always necessary even if the time has not yet arrived for his outward appearance and the universal reconstruction that he is to bring about."
The advent of the Imam presupposes the elevation of the hearts of men. In one respect, the faith of his followers depends on the progressive fulfillment of this personal Parousia, through its own act of being. The believer who discovers the Light of the Imam of Time and the initiation he bestows also returns to the origin, given that, in a mystical sense, he remakes the primordial initiation when, in the World of Particles, his preexisting entity was initiated in the divine secrets by the luminous form of the archetypal Imam. In this sense, the collective dimension of Mahdi's messianism, emphatically marked by violence and the battle against evil, actualizes the primordial battle between the forces of intelligence and ignorance. Trapped since the dawn of creation, this struggle writes the history of humanity, since it has repercussions from time to time in the conflict that places the Imams and his initiates against the forces of darkness and counter-initiation.

Through spiritual restoration, through a universal initiation, lifting the veil that separates the exoteric from the esoteric, the Qa'im cyclically rescues the world, returning to this original "moment" when only those full of wisdom inhabited the universe. In this context, the Mahdi eschatological battle is the ultimate in this endless cosmic war that will seal the ultimate victory of the Intelligence forces over those of Ignorance. This victory thus constitutes the return to the origin, since overcoming the Ignorance and its Armies, the Mahdi recovers the world to its original state. In this sense, Islamic eschatology departs from the Christian notion, for example. While in the Muslim worldview there is a cyclical process of resumption of the original sense of creation and existence, Christianity understands the end of time within an evolutionary and progressive framework.

The universal sign of the return of the Expected is the widespread invasion of the earth by Evil and victory over the Good, thus requiring in some way the manifestation of the eschatological Savior, the source of hope and redemption. Obviously, what characterizes the world immediately before the coming of the Mahdi is the loss of the meaning of the sacred, the obliteration of everything that connects man to God and his neighbor, a general failure to observe religious precepts and moral duties, human values. As a historical reason, it may be pointed out that, first, the Expected returns to revenge for the death of Imam Hussein.

As Henry Corbin observes, there is a curious convergence between the way Shi'ism conceives of Imam al-Mahdi and how the action of the Christian Paraclete is especially understood by some movements, such as the Joaquimites of the 16th century, followers of the heretical monk Joachim of Fiore. Within both notions, the story was directed by a paracletical idea, inspiring modes of thought and dialectical dynamics with views to the kingdom of the "Holy Spirit". Islam along with other religions, especially Judaism and Christianity, distorted and abandoned by their followers, will be graced with the reestablishment of their original integrity. Men will recover their Sacred Intelligence, the "inner imam" that dwells within human beings. As the light of the Imam is the heart of believers, the light of al-Mahdi will resonate directly in this luminous organ of sacred perception reigning in the heart. Thus, as a result of the awakening of spiritual consciousness, religions will be restored and freed from their imperfections. They will no longer be mere exoteric structures, but esoteric spiritual teachings. This universal initiation of the Pole of the Poles is the liberation of the hearts and the bridge by which of all the human beings will reach the fullness of the Truth.

The Mahdi will provide the believers of each religion with the hermeneutics of the occult meaning of their Sacred Scripture. The fundamental idea is that the expected Imam will bring with it neither a new revealed Book nor a new Law, but will reveal the hidden meaning of all Revelations. He, as the Integral Man, the esoteric aspect of eternal reality, is the revelation of the Revelations. The Parousia of the Imam Expected means a full anthropological revelation that unfolds within the man who lives in the Spirit. The Qa'im returns to restore the lost meaning of the sacred, first rescuing Islam in its original purity and integrity. It is understood, therefore, that without an Imam there is no religion and no esotericism, exoterism loses its direction, its purpose, as well as its meaning. That is why, in the end, the battle will mark the ultimate victory of the "believers" against their "enemies" and the definitive and universal establishment of the full religion.

Another unique aspect of the Mahdist Shia belief is that this, unlike the traditional eschatological "waiting" of the most varied religions, is not done on an absent expectation. The Expected, al-Mahdi, is already known and ceased to be a theological doctrine, as the Jewish Messiah. He exists and is loved by his followers. The Shiite expectation thus becomes something full of life. The Mahdi share the hopes of which believers already participate. As a witness, the Expect becomes a real force of spiritual vivacity for the faithful. This belief makes Shi'ism a unique religious notion among the most varied manifestations of the experience of faith. Ayatollah Muhammad Baqir al-Sadr, in his text "An Inquiry Concerning", states:
"Thus, al-Mahdi (peace be upon him) is no longer an idea waiting to be materialized nor a prophecy that needs to be substantiated, but a living reality and a particular person, living among us in flesh and blood, who is sharing our hopes, suffering, sorrows and joys, actually witnessing all the sufferings, sadness and transgression that exist on the surface of the earth, who is affected with all this from near or far, who is waiting for the appropriate moment when he can stretch his hands to every oppressed and needy person and eradicate the tyrants."
Shiite theology is the only one that recognizes the preservation, maintenance and perpetuation of the spiritual direction between man and God, through the charismatic force of the Imamate. For Catholics, for example, magisterial authority is an institution wanted by God, but not an emanation of His Being. However, for the Shiites, the eternal Walayah incarnated in the figure of the Twelve Imams is the continuation of the esoteric dynamics of Muhammadan prophetism, in a spiritual dimension far beyond institutional stability. It may be said in conclusion that Shiite Islam is the only religion that recognizes that the heart of its mystical tenacity still beats a carnal breast in this God-created land. Ayatollah Mohammad Sadeqi Tehrani, commenting on Henry Corbin's relationship with Allamah Tabataba'i in "80 Stories from the Life of Allama Tabatabai," said:
“Corbin was of the opinion that because Shī’ism believes in the existence of a living Imām, it is the only religious sect that it is still alive. This is because the belief and reliance on Hazrat Mahdī (a) will always remain established. The Jewish faith died with the death of Hazrat Mūsa (a), the Christian one with the ascension of Hazrat Isa (a). All other sects of Islām also came to a dead-end with the death of Hazrat Muhammad (s), whereas Shī’ism maintained that the authority, Imām and possessor of Wilāyat who is connected with the spiritual world and receives Divine guidance is alive, and therefore Shī’ism itself remained alive as a religion”
Just as Prophet Muhammad, as the Seal of Prophecy, was the "mazhar" (epiphany) of prophecy in the absolute sense, the first Imam, the "wasi" or heir of Muhammad, was the "mazhar" and seal of "walayah" also in its absolute sense. The partial manifestations of the "walayah" began with Seth, son of Adam, and will culminate with the Madhi - in the present, the hidden Imam - as Seal of the particular walayah during the final period of prophecy. It is worth mentioning that the twelve imams, as a pleromatic unity, form the same light and the same essence. It is understood, therefore, that the Muhammadan Imamate is the manifestation of the esoteric aspect of the eternal prophetic Reality. Thus, the belief in this eschatological return has a historical dimension, of restructuring justice and order. On the other hand, the reappearance of the Mahdi carries in its essence the ransom of the mystical sense of human existence itself. The Expected will bring with him universal initiation, capable of reviving spiritual consciousness. The Mahdi belief is what makes the hope of the future throb in the heart of Shi'ism. Not just a wait for human and earthly redemption, but rather the expectation of the resumption of creational integrity in its original depth.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O Islamismo indígena do México


O México tem sido um lugar de destaque no desenvolvimento de uma experiência comunitária islâmica em um contexto autóctone. Vinte anos atrás, um grupo de famílias de tzotziles chamulas, que moravam na cidade de San Cristóbal de Las Casas, em Chiapas, abraçou o Islamismo. A nação mexicana tem profundos vínculos históricos com o Cristianismo, de uma forma muito mais acentuada que o Brasil. A devoção mariana e a piedade popular são partes integrais da identidade do seu povo. Fazer-se muçulmano é deixar o seu lugar cultural e reconstruir a sua existência identitária. O que se vê em Chiapas é um islamismo quase exclusivamente "indígena", que nos últimos vinte anos foi integrado ao tecido sociocultural das comunidades tzotzil e tzeltal. A origem da presença islâmica, no entanto, é uma intervenção vinda do exterior, em 1994. Ao que parece, apesar de todas as adversidades, alguns padrões históricos se mantêm.

A chegada do Islã em Chiapas está associado ao início da revolta indígena zapatista. O EZLN ganhou fama internacional e logo se transformou em modelo para os movimentos de libertação e para o progressismo europeu. Nesse contexto, o Movimento Mundial Murabitun (MMM), um grupo de muçulmanos ocidentais fundado pelo sheik Abdalqadir as-Sufi, envia missionários para o sul do México, com o objetivo de fazer contato com os rebeldes zapatistas e em seguida direcioná-los ao Islã. Da Espanha veio Aureliano Pérez Yruela, acompanhado pelo mexicano Sidi Ahmed.

Inicialmente focados nos líderes zapatistas, os missionários muçulmanos tiveram encontros privados com alguns membros do movimento e enviaram mensagens ao Subcomandante Marcos, líder da guerrilha. O conteúdo era explícito: o Islã é a religião que permite a verdadeira e única libertação. Também chegaram a oferecer dinheiro e armas caso os zapatistas se levantassem contra o estado mexicano ao nome da fé muçulmana.
"Nós, o Movimento Mundial Murabitun, convidamos a se sentarem com representantes dos grandes povos da Chechênia, Caxemira, Euzkalherria, que hoje estão na vanguarda da luta contra a tirânica ordem bancária mundial (...) a luta pela libertação dos povos deve ser feita sob a bandeira do Islã transformador, seguindo a mensagem revelada que Muhammad nos trouxe, o último dos profetas, o libertador da humanidade (...) Vitória ou Morte "
Os missionários se confrotraram com o pouco interesse dos guerrilheiros. Neste cenário de desilusão, encontraram uma resposta espontânea junto aos indígenas, que se abriram ao Islamismo de uma maneira natural. As conversões surgiam entre aqueles povos mais simples e iletrados. Qual a surpresa dos espanhóis ao notar que não seriam os zapatistas os grandes promotores do Islamismo, mas os índios de Chiapas.

Os missionários logo organizaram um pequeno grupo e nomeou a um nativo como o Imam do recém criado núcleo islâmico, assentando as bases para a construção da comunidade Murabitun em San Cristóbal de Las Casas. Em 1998, havia muçulmanos em vários bairros, La Hormiga, Nueva Esperanza, Palestina, Revolução Mexicana, La Selva Natividad e El Molino de los Arcos. A partir desse grupo original, fundado pelo Movimento Mundial Murabitun (MMM), mais três comunidades foram criadas. A comunidade sunita Al Kautzar e a Comunidade Ahmadiyya. Na cidade de Teopisca, se estabelece uma comunidade vinculada à escola sufi Naqsbandi.

Nota-se, portanto, que o Islamismo desenvolvido em Chiapas, inicialmente sob a experiência do Movimento Murabitun, tomou proporções ainda maiores. Aquela comunidade inicial se fragmentou em outros grupos sunitas cada vez mais organizados. A identidade indígena é mantida e o Islã toma feições autóctones, sem abrir mão de sua identidade tradicional.  O crescimento do Islamismo nestes grupos indígenas também deve-se às condições de insegurança, pobreza e marginalização em que vivem muitos nativos, que vêem no Islã uma forma de resgate social e a possibilidade de um futuro melhor para si e para seus povos. Apesar da recusa dos Zapatistas, a fé muçulmana encontrou nos índios de Chiapas a melhor e mais bela resposta.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Herdeiros do Imamato: Sobre a função do clero após a Grande Ocultação do Imam al-Mahdi

Hedeiros do Imamato: Sobre a função do clero após a Grande Ocultação do Imam al-Mahdi

Por Pedro Ravazzano

O Xiismo, ao longo do seu processo histórico de desenvolvimento como realidade social, sempre foi uma vertente minoritária no mundo islâmico. Isto, em certo aspecto, refletia a própria auto-compreensão teológica, que entendia que os verdadeiros crentes eram aqueles que compunham um grupo de verdadeiros iniciados. Contudo, desde o alvorecer do Império Safávida, na Pérsia, no séc. XVI, os xiitas deixaram de ser uma comunidade periférica e perseguida, como ocorria dentro dos califados Omíada e Abássida, para se transformar em uma religião institucional. Esta estabilidade política permitiu um florescimento inigualável de sua teologia e a possibilidade de refletir sobre o papel do clero na estruturação da organização social. Ao fundo, estava uma reflexão doutrinal extremamente sensível ao xiismo: a autoridade religiosa no vazio deixado após a Grande Oculturação do Imam al-Mahdi.

Neste contexto, inicia-se a compreensão de que os jurisprudentes xiitas (fuqaha, plural de faqih) são os verdadeiros sucessores do Imam al-Mahdi, após o seu desaparecimento, em 941. Assim, o clero seria uma realidade estrutural querida por Deus, na medida em que, por meio de uma linha descendente, iniciada com o Profeta Muhammad e transmitida ao Imam Ali, se trasformam em receptores do saber revelado. Séculos depois, Imam Khomeini, tendo como base este pressuposto teológico, afirmará que além de interpretar a fé e emendar as leis, ao clero também se incluía o papel de manter o poder executivo em uma sociedade muçulmana. A natureza do argumento é muito semelhante à justificativa de Platão para o domínio do Filósofo-Rei na República. Um Estado Islâmico, concluiu ele, deve ser governado pela “tutela do jurisprudente” (welayat-e faqih)

Após a “Gayba”, termo utilizado para se referir à ocultação do Imam al-Mahdi, a questão da legitimidade do poder político e da orientação espiritual da comunidade de crentes na ausência imâmica passou a implicar, sistematicamente, em um papel gradualmente crescente do clero. Estes, com a fundamentação reflexiva-teológica, passaram a, de facto, assumir as prerrogativas do Imam Oculto. Historicamente, a consolidação da instituição religiosa iniciou com a ascensão do regime safávida (1501-1732), dando forma a uma relação simbiótica entre a coroa e o clero. Enquanto os Xás se beneficiavam do apoio dos ulemás como meio para legitimar o seu governo, em troca, o clero fortaleceu a sua posição religiosa e social sob o patrocínio dos Xás. O fim da dinastia safávida se transformou na grande libertação teológica xiita, permitindo um novo florescimento doutrinal através de uma dialética doutrinal viva.

Com a ausência do Imam – gayba – após a Grande Oculturação, iniciou-se um processo de reflexão que entendia que  os juristas foram delegados  - niyaba - como uma classe, para executar certas funções normalmente reservadas ao Imamato.  Antes da Grande Ocultação, houve um período de cerca de 70 anos nos quais quatro deputados agiram consecutivamente como representantes do Imam al-Mahdi, atuando como intermediários entre ele e a comunidade de devotos. Essa designação, somada aos relatos do Profeta Muhammad e dos Imames precedentes, reforçaram a noção de que os ulemás formam um corpo identitário. No livro "Islam and Revolution: Writings and Declarations of Imam Khomeini", Ayatollah Khomeini comenta:
"O faqih é, por definição, letrado em questões relativas à função do juiz, uma vez que o termo faqih é aplicado àquele que é instruído não apenas nas leis e procedimentos judiciais do Islã, mas também nas doutrinas, instituições e ética da fé - o faqih é, em suma, uma especialista religioso no sentido pleno da palavra. Se, além disso, o faqih for justo, ele terá duas das qualificações necessárias. A terceira qualificação é que ele deve ser imam, no sentido de líder. (...) Já que os fuqaha não são Profetas, eles devem ser os legatários ou sucessores dos Profetas. Portanto, chegamos à conclusão de que o faqih é o legatário do Mensageiro Mais Nobre, e além disso, durante a Ocultação do Imam, ele é o líder dos muçulmanos e o chefe do comunidade."
Estas discussões teológicas já estavam nos textos de teólogos medievais, como Muhaqqiq al –Hilli (1205 – 1277), que em seu Ma'arij ul-Usul, escrito no campo de usul al-fiqh (metodologia jurisprudencial), enfatizava a centralidade do jurista – mujtahid - durante a ausência do Imam al-Mahdi, como o único e exclusivo meio para obter uma compreensão adequada do Alcorão, da Tradição e da Lei.  A aportação teológica feita por Al-Muhaqqiq al-Karaki (1534) e Al-Shahid al-Thani (1505 - 1559) também compõe esse movimento de desenvolvimento doutrinal. O amadurecimento reflexivo, principalmente nos séculos seguintes, gerará a consolidação de linhas de pensamento com características e posicionamentos distintos.

Duas correntes teológicas se opuseram no tocante ao papel do clero após a Grande Ocultução do Imam al-Mahdi. A escola Akhbari considerava que, de fato, o fim da autoridade visível do Imamato era de pouca ou nenhuma importância, já que havia um conhecimento legado à comunidade suficientemente rico para manter a vivacidade da Religião. Segundo os seus adeptos, o itjihad, isto é, a inferência de normas religiosas, deveria ser feito tendo como base o Alcorão, por um lado, e as declarações do Profeta e dos Imams, por outro. Em oposição, a corrente Usuli entendia que, tendo em vista a complexidade da história, essas duas fontes deveriam ser interpretadas e compreendias à luz do raciocínio especulativo – aql – e do consenso religioso, para que, assim, pudessem elaborar a lei islâmica. Ainda que não buscasse nenhum respaldo de infalibilidade, como outorgado aos Imames, a vertente Usuli afirmava que o clero, como parte de um só corpo institucional, agia como figuração legítima do Imam Oculto, formulando a doutrina da representação geral - niyaba amma. Reivindicavam, pois, uma autoridade carismática herdada e exercida em nome do Imam al-Mahdi, culminando com o total estabelecimento do Usulismo no séc. XVIII. Ayatollah Amuli, em seu livro “The Regency of the Magisterium”, considerado um dos melhores comentários à teoria de Imam Khomeini, diz:
“No tempo da Ocultação do Senhor da Era, durante a qual à comunidade de muçulmanos é negada a baraka de sua presença física, a necessidade da perpetuidade do Islã exige a elucidação das ordenanças sagradas de nossa fé e sua efetiva implementação e desempenho asseguradas durante a Ocultação. Esses dois deveres são da responsabilidade dos Delegados do Senhor da Era e dos justos e sábios foqaha que, por um lado, explicam as ordenanças gerais da lei sagrada com seus árduos e constantes esforços de itjihad em todos os assuntos possíveis, inclusive nas questões maiss emergentes para as quais não há precedentes na lei e, por outro, continuar as funções proféticas e imâmicas de governança e administração da comunidade de muçulmanos, implementando essas mesmas ordenanças deduzidas.”
Com a ascensão do Império Afshárida e em seguida com a dinastia Qajar, o xiismo se enriqueceu com a renovação do clero. As discussões teológicas eram efervescentes, destacando a consolidação dos ulemás como um bloco sólido e coeso no exercício do papel institucional, agindo como representantes do Imam Oculto. A nova reflexão teológica, feita por nomes que conseguiram aproveitar o vazio de orfandade deixado pela queda imperial, foi de importância crucial para o amadurecimento do xiismo. Destaca-se, por exemplo, a Muhammad Baqir Behbahani (1706–1791), amplamente considerado como o fundador ou restaurador da escola Usuli, tendo um papel fundamental no estabelecimento do ordenamento doutrinal. Mulla Ahmad Naraqi (1771-1829), seu discípulo, desenvolveu a teoria que assentou o papel dos fuqaha (juristas) como os soberanos e guardiões atuantes da religião e da comunidade durante a ocultação do Imam al-Mahdi. A sua audaciosa novidade foi estenteder essa autoridade clerical até o ponto de abarcar a esfera política, partindo de um silogismo relativamente simples: o governante tinha autoridade sobre o povo e o faqih tinha autoridade sobre o governante.

Sheik Murtaza Ansari (1799-1864), por sua vez, é reconhecido como o primeiro marja'e-taqlid-e-kull, isto é, a fonte suprema de emulação. Ele foi o responsável pela organização de uma liderança clerical centralizada dentro do xiismo. Também se tornou célebre por introduzir o conceito de Welayat-e-Faqih (tutela do jurista), embora distintamente da forma coroada, século depois, por Imam Khomeini. A enorme pluralidade clerical xiita, através da evolução teológica, passou por uma profunda transformação. De uma autoridade coletiva e, em certo aspecto, difusa, para regências centralizadas com um profundo carisma pessoal de antiguidade. Entretanto, como destaca Ayatollah Khomeini, a função é distinta do status:
"Quando dizemos que depois da Ocultação, o justo faqih tem a mesma autoridade que o mais Nobre Mensageiro e os Imames, não suponha que o status do faqih é idêntico ao dos Imames e ao do Profeta. Aqui não estamos falando de status, mas sim de função."
A centralidade clerical do xiismo permite com que muitos estudiosos façam um paralelo com a estrutura hierárquica católica. Dentro da comosvisão tradicional cristã, com a ascensão de Cristo, a Igreja, por meio da sucessão apostólica encarnada no episcopado, assume a autoridade de mando e ensinamento. Já no Islamismo xiita, depois da Grande Ocultução do Imam al-Mahdi, que continuava o ministério carismático do Profeta Muhammad,  a autoridade é consolidada no já existente Corão e na Tradição profética e imânica. No catolicismo, a autoridade divinamente apontado é o Bispo e os sacerdotes em comunhão com ele. No xiismo, os Imames são uma extensão da profecia em sua dimensão esotérica e o clero, ainda não sendo diretamente eleito por Deus, emerge como poder magisterial capaz de interpretar as fontes de autoridade.          

Com a consolidação do Usilismo, surge uma segunda reflexão, também confrotada com duas alas distintas. Por um lado, os tradicionalistas, que, ao mesmo tempo em que admitiam a autoridade clerical, colocavam limites práticos na implementação de ensinamentos sociais e políticos na ausência do Imam. Foram muitas vezes acusados de apatia e aliança com o establishment imperial, já que atuaram em prol da estabilidade institucional durante a Revolução Constitucional do Irã, em 1905, e com a ascensão da Dinastia Pahlevi. Os seus críticos, por outro lado, enfatizavam o papel do clero como instrumento de mudança social em uma sociedade islâmica, dando forma às teorias revolucionária de Imam Khomeini em sua concepção do “wilayat al faqih”.

Concluí-se, portanto, que ao crer no caráter sucessório do clero, os teológos xiitas respaldaram a autoridade religiosa de uma forma muito mais centralizado do que, por exemplo, os muçulmanos sunitas.  Imam Khomeini, tendo como base este pressuposto usilista, desenvolverá o argumento para afirmar que estes mesmos fuqaha são qualificados e têm o direito de formar, estabelecer e administrar o governo como reflexo da incumbência representativa deixada pelo Imam al-Mahdi. Na ausência dos imames infalíveis, o conhecimento e o julgamento são considerados como as duas funções essenciais de um ulemá. Este espírito mahdiano, encarnado na missão profética do corpo religioso institucional, assentará as bases teóricas sobre as quais se fundará a República Islâmica do Irã.